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“Brasil precisa se adaptar a um mundo menos centrado no Ocidente”

Mundo

Por Fernando Caulyt

Os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reúnem a partir desta quarta-feira 25, em Johanesburgo, para a décima cúpula dos Brics. Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o grupo pode mostrar ao mundo “ser um pilar de estabilidade” no momento em que o G7 passa por uma das crises mais profundas de sua história.

O especialista afirma ainda que alguns setores brasileiros poderão se beneficiar do conflito comercial entre EUA, Europa e China, mas a maioria desses avanços será de natureza temporária. “O Brasil pode chegar a vender mais soja para a China, substituindo o produto dos EUA”, explica. “Mas, em qualquer momento, as regras podem mudar novamente. Uma guerra comercial é ruim para todos os países, inclusive para o grupo Brics.”

Deutsche Welle: Os países dos Brics realizam sua 10ª cúpula na África do Sul. Quais foram os principais avanços desde a criação do grupo?

Oliver Stuenkel: O grupo atuou de maneira coordenada para ajudar a comunidade internacional a superar a crise global de 2008, oferecendo capital – que era escasso na época – para instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Depois, começaram a aprofundar suas relações e, desde então, há encontros em vários níveis que têm ajudado os países a se adaptarem a uma nova realidade geopolítica e econômica na qual o Brics, sobretudo China e Índia, tem um papel muito mais importante do que antes. E, mais recentemente, foi institucionalizado o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) para atuar em projetos nos países-membros.

DW: Apesar dos avanços, os países-membros mostram também que têm divergências entre si.

OS: É natural que existam divergências. São países de regiões, sistemas políticos e, às vezes, com interesses diferentes. E isso não vai mudar. Mas não quer dizer que não haja um amplo espaço para cooperação, inclusive o fórum dos Brics pode ajudar a gerenciar essas divergências de maneira mais efetiva.

Por exemplo, há claros pontos de tensão entre Índia e China, como a questão de fronteiras. Não que os países dos Brics vão ajudar a acabar com esses conflitos, mas é mais uma plataforma para que essas nações possam lidar de melhor maneira com essas tensões. Existe um diálogo muito maior hoje entre eles do que há 20 anos.

DW: Qual é maior vantagem dos Brics para o Brasil?

OS: Apesar de todos os problemas internos que têm reduzido o tempo e espaço de Brasília em discutir tópicos externos, os Brics dão um acesso privilegiado para o Brasil aos grandes centros de poder na Ásia. A sociedade civil e os setores público e privado precisam se adaptar a um mundo menos “ocidentalcêntrico”, um mundo no qual a Ásia tem um papel importante. Porém, isso aparece pouco no debate público. Mesmo assim, o grupo continua sendo uma grande oportunidade e, por isso, vale a pena continuar investindo nele e enxergar as oportunidades que ele representa.

DW: A última cúpula do G7 terminou com troca de farpas, e o grupo parece ter saído mais enfraquecido por causa de ações isolacionistas de Donald Trump. Os Brics podem preencher o vácuo de poder que o G7 está deixando?

OS: Sim. O G7 passa pela mais profunda crise de sua história, e isso aponta para um racha mais amplo entre EUA e Europa que não é temporário. O futuro da relação transatlântica é muito incerto e, em comparação, os Brics parecem ser um pilar de estabilidade. Até certo ponto, sobretudo na gestão do sistema global comercial – por exemplo, no combate contra o protecionismo –, os Brics podem ter um papel relevante, mas não se pode negar que há diferenças fundamentais entre eles também em áreas onde é difícil para os Brics terem um papel de destaque, como nos direitos humanos, diante do caráter não democrático de dois de seus membros [China e Rússia].

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DW: Mas por que o G7 não está tendo mais capacidade, como antigamente, de coordenar estratégias e assumir a liderança internacional?

OS: Há anos temos um deslocamento de poder para a Ásia, o que tem reduzido o papel e capacidade de o G7 liderar qualquer debate internacional. Mas, com a imprevisibilidade e falta de uma estratégia clara do governo Trump, vemos que esse processo está se acelerando, reduzindo então a confiança que o mundo tem no G7. As consequências já são visíveis: a União Europeia, por exemplo, acabou de assinar um acordo de comércio com o Japão. Parceiros tradicionais dos EUA precisam pensar em um plano B.

DW: Os EUA parecem estar interessados em intensificar uma guerra comercial contra Europa e China. Como os Brics e, em especial o Brasil, podem se beneficiar desses conflitos?

OS: O Brasil poderá se beneficiar em alguns setores, porém, a maioria desses avanços será de natureza temporária. Afinal, é preciso ter confiança nas regras e normas para fazer grandes investimentos. O Brasil pode chegar a vender mais soja para a China, substituindo o produto dos EUA, mas, em qualquer momento, as regras podem mudar novamente.

Em função dessa incerteza, uma guerra comercial é ruim para todos os países, inclusive para o grupo Brics. Mas, ao longo dos anos, os países-membros vêm defendendo um sistema global de comércio baseado em regras e normas e vão fazer o mesmo em Johannesburgo. Os Brics poderão se beneficiar por serem vistos como defensores da globalização – e é uma chance inédita de assumir a liderança internacional.

DW: Em tempos de desconfiança em relação aos EUA, as empresas europeias deverão se voltar mais ao países dos Brics?

OS: Não há dúvidas de que cada vez mais as empresas ao redor do mundo, inclusive europeias, estão sendo afetadas pelo risco político em Washington e incertezas quanto às medidas comerciais tomadas pelos EUA. Apesar do tamanho da economia americana, certamente haverá uma tentativa de reduzir a exposição ao mercado deste país ou tentar compensá-la com uma forte presença em outros mercados como nos dos Brics também.

Isso ficou muito visível durante a recente visita do primeiro-ministro chinês a Berlim. Apesar de várias divergências, a Alemanha reconhece que precisa de uma parceria estável com Pequim, já que sua relação com Washington é marcada por incerteza.

DW: Por causa de crises, Brasil e África do Sul não conseguiram articular uma visão para os Brics. E, assim, a China aproveita o vácuo para incluir os países-membros numa ordem mais “sinocêntrica”. Quais são as vantagens e desvantagens?

OS: É verdade que Brasil e África do Sul não conseguiram articular visões claras para os Brics. Como consequência negativa, o grupo está sendo cada vez mais visto como elemento de uma estratégia chinesa mais ampla. Por outro lado, isso traz possíveis vantagens econômicas para todos os países-membros por terem uma proximidade com uma das economias que mais crescem no mundo [China]. Mas, ao mesmo tempo, reduz o espaço para que o Brasil possa apresentar novas ideias.

DW: Mas o Brasil terá essa chance de articular uma visão para os Brics ao receber nesta cúpula da África do Sul a presidência rotativa?

OS: Isso depende do resultado da próxima eleição, quer dizer, se o futuro presidente conseguirá articular uma estratégia clara sobre como serão as políticas econômicas e sociais brasileiras, além das internacionais durante os próximos quatro anos.

Mas, a princípio, o Brasil tem uma grande chance de apresentar uma nova narrativa não só aos Brics, mas à comunidade internacional como um todo. Isso requer não só um governo estável, mas envolve um processo mais amplo de priorizar debates sobre os Brics na mídia, nas universidades e na sociedade como um todo.

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