Boris Johnson fracassa e encurta sobrevida no governo do Reino Unido

Alistair Burt, ex-chanceler: 'Nunca vi uma estratégia de governo tão mal avaliada, nem falhar com tanta rapidez'

Foto: Isabel Infantes/AFP

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Mundo

Às 11 horas da manhã da terça-feira 3, um grupo de parlamentares britânicos conservadores, contrários a um Brexit sem acordo, reuniu-se do lado de fora da sala do gabinete no nº 10 de Downing Street, para uma reunião com o primeiro-ministro. O ex-chanceler Philip Hammond, o ex-secretário de Justiça David Gauke e o ex-secretário de negócios Greg Clark estavam entre eles. Juntamente com outros deputados, incluindo Sir Oliver Letwin e Dominic Grieve, e Keir Starmer e Hilary Benn, do Partido Trabalhista, eles passaram as férias de verão a redigir um projeto de lei que, acreditavam, forçaria Boris Johnson a buscar um adiamento do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, se não conseguisse fechar um novo acordo com a UE até meados de outubro.

Johnson insistia antes, e desde que se tornou primeiro-ministro, que nunca pediria à UE mais um adiamento e retiraria o Reino Unido em 31 de outubro, “com ou sem acordo”, “vai ou racha”. Para limitar o tempo parlamentar que os deputados rebeldes teriam para aprovar a lei, o primeiro-ministro havia anunciado que fecharia o Parlamento por cinco semanas a partir desta semana, antes de um novo discurso da rainha em 14 de outubro.

Mas a aliança interpartidária que se opunha à saída sem acordo havia se movido rapidamente em resposta, e acelerado seus planos. Enquanto conversavam antes da reunião, estavam confiantes de que teriam número suficiente para colocar o projeto de lei no livro de estatutos e tempo para fazê-lo antes do fechamento do Parlamento.

Johnson será um meteoro? | Foto: Isabel Infantes/AFP

Do lado de fora, em Whitehall, e na mesma rua, na Praça do Parlamento, um ruído constante de protesto e contraprotesto ecoava de defensores da permanência ou da saída. Foi o primeiro dia de funcionamento do Parlamento após o longo recesso de julho e agosto – e do controverso anúncio de prorrogação. A polícia tinha separado os defensores dos diferentes lados da brecha do Brexit da melhor maneira possível, mas ainda houve discussões entre eles na calçada. Alguns gritavam “Parem o golpe”, enquanto outros carregavam faixas com os dizeres “Parlamento traidor” e “Boris. Nenhum acordo é o ideal”.

Em frente à entrada da Câmara dos Comuns, um manifestante, John Dinnen, disse que acordou às duas da manhã tão preocupado com o que o Brexit significaria para a paz na ilha da Irlanda, onde ele nasceu, que decidiu pegar um trem de Hereford para protestar contra uma possível falta de acordo. “Tenho uma opinião muito forte sobre isso”.

 

Quando a reunião no nº 10 começou, os ex-ministros conservadores –integrantes do chamado Esquadrão Gaukeward – perguntaram a Johnson quais eram suas propostas para romper o impasse com Bruxelas e garantir um novo acordo para impedir que o Reino Unido desmorone em menos de dois meses. Se ele realmente tivesse um plano que fosse aceito pela UE e o Parlamento, eles deixariam claro que seus esforços para que ele fosse a Bruxelas pedir outro adiamento seriam desnecessários e todos ficariam felizes.

“Ele tinha uma pasta sobre a mesa e apontou para ela, sugerindo que os planos estavam lá”, disse uma fonte presente na reunião. Os deputados então perguntaram se o conteúdo da pasta havia sido apresentado aos líderes europeus. “Sua resposta foi que a UE só começaria a negociar para valer quando tivesse certeza de que o Reino Unido falava sério sobre o não acordo”, disse outra fonte. “E o primeiro-ministro foi claro de que a UE ainda não tem certeza de que estamos falando sério sobre isso, então nada havia sido enviado a eles ainda.”.

A União Europeia espera… E torce por uma solução racional. | Foto: Emmanuel Dunand/AFP

A mensagem que Johnson queria transmitir era de que as tentativas dos parlamentares de bloquear o não acordo retiravam a pressão de Bruxelas. Durante uma hora de discussões, Clark pediu alguns detalhes sobre questões específicas e Johnson disse que alguém de seu escritório entraria em contato. Mais tarde naquele dia, Clark recebeu um telefonema do assessor mais próximo de Johnson, Dominic Cummings, que não forneceu respostas. Em vez disso, Clark viu-se diante de uma arenga grosseira.

De acordo com fontes inteiradas da conversa, Cummings gritou com ele: “Quando vocês deputados vão entender que vamos sair em 31 de outubro?”, antes de acrescentar: “Vamos expurgar vocês, porra”.

Apenas algumas horas após a reunião, Johnson fez seu primeiro discurso na Câmara como primeiro-ministro. Reportando-se à cúpula do G7 em Biarritz, adotou um tom diferente sobre as negociações do Brexit. “Simplesmente não é verdade dizer que não estamos fazendo progresso”, afirmou. “Eu voltei do G7 com um impulso real nas discussões do Brexit.” Isso foi contra não apenas a impressão de que ele havia dado aos deputados rebeldes, mas a uma reportagem do Daily Telegraph segundo a qual Cummings teria admitido em uma reunião privada que as negociações com a UE foram “uma farsa”.

Enquanto Johnson falava, o deputado conservador Phillip Lee atravessou o plenário para se juntar aos liberais-democratas nos bancos da oposição. Em um instante, Johnson perdeu a maioria, sua capacidade de governar se esvaía. Lee e os rebeldes puderam ver que o primeiro-ministro divulgava um conjunto de mensagens em particular e outro em público. “A única conclusão a se tirar era de que ele estava realmente planejando o não acordo”, disse um dos rebeldes. Lee escreveu em sua carta de demissão que o Brexit tinha transformado o Partido Conservador em uma “facção estreita” que “havia se infectado cada vez mais com as doenças gêmeas do populismo e do nacionalismo inglês”.

Mais tarde, durante um debate naquela noite sobre o plano rebelde de controlar os negócios parlamentares, o líder dos Comuns, Jacob-Rees Mogg, inclinou-se sobre a bancada principal do governo. A imagem viralizou em questão de minutos. Ele foi acusado de “desprezar esta casa” pela deputada verde Caroline Lucas. Quando o resultado da votação do plano dos tories rebeldes foi anunciado, as bancadas da oposição entraram em erupção, enquanto os tories pró-permanência tentavam controlar sua alegria. O governo havia perdido por 328 a 301 votos. Vinte e um parlamentares conservadores tinham desafiado seu partido votando para permitir o debate de um projeto de lei que obrigaria seu próprio primeiro-ministro a pedir uma extensão à UE, o que ele havia prometido várias vezes que não faria.

Phillip Lee, experiente deputado, sobre os tories: O partido está “infectado cada vez mais com as doenças gêmeas do populismo e do nacionalismo”

Quando os deputados deixaram a Câmara, começou o expurgo prometido por Cummings. Os deputados rebeldes, incluindo o decano da casa, Kenneth Clarke, e Sir Nicholas Soames, neto de Winston Churchill, tiveram a liderança retirada e lhes disseram que não seriam autorizados a permanecer como conservadores na próxima eleição. O veterano deputado Roger Gale disse que Johnson estava “em risco de destruir o partido”, e espalharam-se rumores de que os ministros do gabinete, incluindo Amber Rudd, estavam fervendo e considerando quanto tempo conseguiriam permanecer no governo. À noite, ficou claro que a primeira parte do plano diretor de Johnson/Cummings – usar a prorrogação juntamente com ameaças – não apenas falhou espetacularmente como havia saído pela culatra. Um dos que foram expurgados, o ex-ministro das Relações Exteriores Alistair Burt, disse: “Nunca vi uma estratégia de governo tão mal avaliada, nem falhar com tanta rapidez, como a que foi desenvolvida em Downing Street desde o fim de julho”.

Alistair Burt, ex-chanceler: “Nunca vi uma estratégia de governo tão mal avaliada, nem falhar com tanta rapidez”

Apenas no segundo dia de atividades parlamentares sob a liderança de Johnson, ele sofreu duas derrotas e perdeu a maioria. Ian Blackford, líder do Partido Nacional Escocês em Westminster, observou que “esta deve ser a lua de mel mais curta da história parlamentar”. Incrivelmente, alguns conservadores foram mais longe, prevendo que Johnson estava encurralado e poderia ser seu fim como primeiro-ministro. Ele prometeu nunca prorrogar o prazo do Brexit, mas não conseguiu impedir a aprovação de uma nova lei que estava prestes a forçá-lo a fazer isso. “Não gosto de dizer isto, e mal ouso, mas acho que pode ser um xeque-mate”, disse um dos principais rebeldes dos conservadores.

Downing Street insiste que o primeiro-ministro não renunciará nem pedirá uma extensão para o Brexit. Mas não fazer nenhuma dessas coisas significaria que Johnson despreza os tribunais e teria de sair, dizem advogados.

Havia sugestões de que ele tentaria pedir um voto de confiança em seu próprio governo, na intenção de forçar uma eleição geral, e pediria aos parlamentares conservadores que apoiassem essa moção. Mas o presidente da Câmara, John Bercow, permitiria um movimento claramente voltado para alcançar um propósito diferente do declarado na própria moção? Outra ideia divulgada por fontes próximas a Johnson ontem foi de que ele tentaria forçar a UE a expulsar o Reino Unido, recusando-se a nomear um comissário, manobra que Downing Street parece achar que colocaria os europeus de joelhos, mas que não funcionaria, insiste Bruxelas.

Depois de uma semana de tal drama culminando na renúncia de Rudd, os parlamentares não têm ideia do que acontecerá a seguir. “Nós apenas temos de esperar para ver quais são os mais recentes planos geniais do nº 10”, disse uma figura importante dos trabalhistas. “Se forem tão desastrosos quanto os que eles tentaram nos últimos dias, não vejo como ele poderá sobreviver. Mas o que eu sei? O que alguém sabe?”

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