‘Bolsonaro é visto como um perigo’, diz deputada na França

Para a brasileira naturalizada francesa Silvia Capanema, o Brasil se tornou um pária e a situação só muda com troca de governo

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

Entrevistas,Mundo

O discurso crítico de eurodeputados à “necropolítica” do presidente brasileiro Jair Bolsonaro rodou o mundo na semana passada. A represália, que incluiu parlamentares do campo conservador, descortinou o declínio da imagem do País, tido agora como pária sanitário mundial — é, o segundo com mais restrições de acesso a destinos internacionais. “O Brasil tinha uma imagem que estava em ascensão e, agora, claramente é um país em decadência e em dificuldades”, avalia a deputada departamental francesa Silvia Capanema, que falou com exclusividade à CartaCapital.

Historiadora, professora da Sorbonne Paris Nord, a mineira naturalizada francesa, já foi vereadora e agora caminha para a reeleição como conselheira departamental de Seine-Saint-Denis, um cargo semelhante a de uma deputada estadual departamental. Silvia é parte do movimento França Insubmissa, criado em 2016 por Jean-Luc Mélenchon e que deve se relançar em 2022 à presidência. Ela também fala sobre a extrema-direita francesa, a fragmentação da esquerda e o combate à Covid naquele país.

Confira a seguir.

CartaCapital: Como a França vê a condução da pandemia no Brasil?

Silvia Capanema: A imagem do Brasil é muito negativa. Por tudo que Bolsonaro representa, seja pelas medidas contra os direitos humanos, contra a ecologia, medidas econômicas e sociais já feitas no início de seu governo. Muitos brasileiros que moram aqui participam de movimentos organizados para denunciar as medidas absurdas de Bolsonaro. O Brasil tinha uma imagem que estava em ascensão e, agora, claramente é um País em decadência, subdesenvolvido e em dificuldades, seja por aberrações políticas, econômicas ou sociais e o vírus vem agravar isso e colocou o Brasil no ranking de países não frequentáveis. Um pária internacional.

CC: Eurodeputados, inclusive, conservadores, usaram a tribuna para criticar a condução da pandemia por Bolsonaro. Há uma mudança generalizada na postura da comunidade europeia frente ao governo brasileiro?

SC: Bolsonaro é visto como um perigo, um irresponsável. Para voltar a haver alguma cooperação possível com o Brasil, só com outro governo.

CC: É possível notar um avanço da xenofobia pelo fato do país ter se tornado um dos principais focos da doença no mundo?

SC: Muitos estão com medo do Brasil, que acabou com voos para a França bloqueados. Houve uma pressão da sociedade, que considerou que a medida demorou muito a ser tomada. Com a variante brasileira, percebemos um aumento no número de piadas, principalmente de cunho sexista, LGBTfóbico e racista contra o Brasil. Cito, como exemplo, uma caricatura de uma mulher com silicone nas nádegas representando a vacina sendo dada e mencionando a cepa brasileira.

CC: Como a extrema-direta atua na França? 

SC: Esse movimento, avalio, é uma resposta ao neoliberalismo que há 40 anos vem tentando destruir um sistema social forte: aqui temos saúde pública, escolas públicas de creches a universidades, transporte gratuito, renda mínima, seguro desemprego e o neoliberalismo vem precarizando tudo. Uma resposta disso é chegada da extrema-direita como falsa alternativa. O desemprego aumenta, aí surgem os antigos traumas e desejos de um período colonialista. Temos que lembrar que a França colonizou a África e parte da Ásia. Há também uma cultura em decadência no sentido de estudos mesmo que afeta a percepção da realidade. Não há visão crítica. O que temos é uma cultura material, imediatista. Tudo isso entra nesse grande colapso e faz emergir a extrema direita nas classes populares.

A deputada naturalizada Silvia Capanema (Foto: Reprodução/Facebook)

CC: Como você avalia o desempenho da esquerda na França? E quais perspectivas para 2022?

SC: A esquerda é múltipla, difícil pois temos várias tendências, mas ela também é forte na sociedade francesa. Temos eleições em 2022, mas os cenários não são tão bons. Tivemos um alívio com a saída de Trump, e Biden tem sido uma surpresa em termos de democratização de recursos. Pode ser uma esperança que algo assim possa ser construído [na França], mas acho que vamos ter que passar por uma coisa ainda mais dura até lá. 

Nas últimas eleições tivemos um excelente resultado – na minha região a maioria dos eleitores é de esquerda – e esperamos que sejamos reeleitos em junho. Na nossa população 70% das pessoas são nascidas no exterior ou filhos de nascidos em outros países. No nosso caso, Azzedine Taibi é filho de pais argelinos e eu sou brasileira naturalizada francesa. Atuamos na luta por direitos, serviços públicos para todos, preservação ecológica. Estamos tendo um resultado positivo, nos renovando.

O movimento França Insubmissa dá uma importância grande para a América Latina. Nosso candidato a presidente Jean-Luc Mélenchon tem contato com muitos movimentos pró-democráticos da América Latina, como o próprio Brasil que realizou a constituinte de 1988, construiu o SUS, que é um exemplo, criou uma série de direitos sociais, das mulheres, LGBT e indígenas e de combate ao racismo. Aqui na França também temos uma esquerda muito dinâmica, apesar de hoje estarmos com o problema da extrema direita ter tido muita entrada nas classes populares.

CC: Como foi o enfrentamento da pandemia na sua região de atuação? O lockdown funcionou?

SC: Enfrentamento começou há mais de um ano com um lockdown real ainda em março. As pessoas podiam sair apenas com autorização escrita e fazer exercícios por uma hora fora de casa, além de poder fazer compras e ir à farmácia. Essa medida freou a pandemia em uma fase que teria seu primeiro pico em março e abril. Havia, inclusive, controle da polícia. Depois, tivemos retorno progressivo entre maio e junho, daí vieram as férias de verão e em setembro as escolas retomaram quando vem a segunda onda e, agora em março e abril deste ano, vem a terceira onda. Estamos desde novembro com espaços internos fechados, com uso da máscara.

 

CC: E o ritmo da vacinação? Há estrutura?

SC: A vacina chegou tarde. Veio a conta gotas. Agora que estamos chegando a 15 milhões de vacinados. Nosso pior problema foi não ter leitos, pois muitos foram fechados durante a época de austeridade econômica, além da política neoliberal que desmontou os serviços públicos na França. A pandemia mostrou muitos pontos críticos de Macron: não só o desmonte do estado social, mas também uma demora nas respostas à pandemia, sem planejamento. Na primeira onda, por exemplo, as periferias possuíam 140% a mais de casos de Covid. Também vemos nas periferias – inclusive na minha região de atuação – uma maior lentidão na imunização: se o país esta com 12% nas periferias esse percentual vai a 8 ou 9. Temos que baixar os critérios de idade de vacinação. A vacina tem de ir a encontro das pessoas e não o contrário. Defendo também a cultura como serviço essencial.

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Repórter da revista CartaCapital

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