Biden em seis pontos

Do meio ambiente à China, o que o democrata pretende fazer de diferente caso seja eleito

Joe Biden, fala durante um evento de campanha drive-in no Iowa State Fairgrounds em Des Moines, Iowa. Foto: Jim Watson/AFP

Joe Biden, fala durante um evento de campanha drive-in no Iowa State Fairgrounds em Des Moines, Iowa. Foto: Jim Watson/AFP

Mundo

por Simon Tisdall*

 

O ex-vice de Obama é um político convencional e talvez apenas restaure o establishment pré-Trump. Sob qualquer medida, Joe Biden é tarimbado nos caminhos do mundo. Como vice-presidente de Barack Obama, ele conheceu todos os grandes atores internacionais. Como presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, influenciou a política externa dos Estados Unidos.

 

 

Após quatro anos de liderança maníaca de Donald Trump, o democrata oferece uma mão firme e confiável no leme. O grande objetivo de Biden: uma gloriosa restauração norte-americana, em casa e no exterior. Sua longa experiência tem, no entanto, um viés de mão dupla. Para muitos, a visão global convencional de Biden representa não tanto um novo amanhecer, mas um retorno às políticas lideradas pelo establishment de Washington da era pré-Trump.

Aqueles que esperam uma ação radical em questões urgentes, como a crise climática, a desigualdade global ou o confronto de líderes autoritários, poderão ficar desapontados. Se ele vencer, dizem os apoiadores de Biden, os Estados Unidos estarão novamente no comando global. O serviço normal será retomado. Os críticos de Biden dizem que ele é apenas uma pálida sombra de seu antigo chefe, um político cauteloso e centrista como Obama, mas sem a visão deste. Em ambos os casos, quem Biden escolherá como secretário de Estado, conselheiro de Segurança Nacional e secretário de Defesa pode ser crucial. 

A pressão de progressistas do Partido Democrata, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren, empurrou Biden para a esquerda durante a campanha. As crises gêmeas, sanitária e econômica, causadas pela pandemia também mudaram seu pensamento. Ele agora fala sobre “reimaginar” a relação dos EUA com o mundo. Resta ver se suas opiniões realmente mudaram. Com toda a sua experiência em política externa, está claro que o foco principal de Biden, se eleito, será doméstico.

Em artigo na revista Foreign Affairs, ele definiu uma “política externa para a classe média”, cuja principal prioridade era “permitir que os norte-americanos tenham sucesso na economia global”. Fortalecer o país internamente era um pré-requisito para restaurar a liderança global, anotou. Suas prioridades eram claras.

A ideia de que os EUA devem ser os líderes internacionais, e que Trump “abdicou” desse dever, está embutida em Biden, um filho da Guerra Fria. Essa suposição de supremacia é contestada hoje em dia por aqueles que acreditam que a liderança norte-americana pós-1989 e pós-11 de Setembro, e particularmente suas intervenções armadas no exterior, não serviu ao país nem ao mundo. “Se você gostava da política de segurança nacional dos Estados Unidos antes de Trump estragar as coisas, então Biden provavelmente é o seu tipo de cara”, escreveu o historiador Andrew Bacevich, ex-coronel do Exército. 

Bacevich argumenta que a formulação da política externa, por exemplo, decisões sobre sanções a Cuba ou ao Irã, deve ser retirada das mãos da elite da política externa, debatida publicamente e democratizada. A abordagem de Biden é mais de cima para baixo.  Para ser justo, ele diz que reconstruirá alianças, fomentará o multilateralismo e sempre tentará primeiro a diplomacia. Permanece a preocupação de que seu grande projeto possa se tornar uma tragédia de restauração, um retorno ao antiquado excepcionalismo norte-americano. 

 

1. Clima e saúde 

Trump abandonou o acordo climático de Paris no ano passado, mas Biden prometeu aderir a ele imediatamente. Em julho, ele anunciou um plano de quatro anos de 2 trilhões de dólares para investir em uma série de soluções para a crise climática e um esquema separado para descarbonizar o setor de eletricidade até 2035. Sobre a pandemia, Biden disse que os EUA voltarão à Organização Mundial da Saúde e restabelecerão o financiamento. Ele propôs uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para coordenar a busca por uma vacina para a Covid-19 e novos tratamentos.

 

2. Democracia e valores

Biden diz que o mundo está travado em uma batalha entre democracia e autoritarismo – e que os Estados Unidos devem estar na linha de frente. Ele diz que convocará uma “cúpula global pela democracia” em seu primeiro ano no cargo, “para renovar o espírito e o propósito comum das nações do mundo livre”. Ele prometeu garantir que a Presidência dos Estados Unidos seja novamente vista como um defensor de princípios de eleições abertas e justas, independência judicial, direitos humanos e liberdade de expressão.

 

3. Europa

Orgulhoso de suas raízes irlandesas, Biden opõe-se fortemente a qualquer resultado do Brexit que coloque em risco o Acordo da Sexta-feira Santa ou ameace a paz na Irlanda. Mesmo que essas preocupações sejam dissipadas, um acordo de livre-comércio entre Estados Unidos e Reino Unido, conforme prometido por Trump, provavelmente será mais difícil de se alcançar. Dada a percepção da política de Boris Johnson como populista de direita, ao estilo Trump, espera-se que Biden busque Berlim e Paris, em vez de Londres, como parceiros preferenciais nas questões europeias. Como Obama, ele defende uma UE forte e unida, que faça causa comum com os EUA.

 

4. China

Apesar das repetidas afirmações de Trump em contrário, Biden diz que será duro com a China, citando suas ameaças a Taiwan, suas práticas comerciais “injustas” e seu hábito de “roubar” tecnologia e propriedade intelectual das empresas dos EUA. Para isso, propõe “construir uma frente unida de aliados e parceiros para enfrentar os comportamentos abusivos da China e as violações aos direitos humanos, ao mesmo tempo que buscamos cooperar em questões para as quais nossos interesses convergem, como mudança climática, não proliferação e segurança sanitária”. 

 

5. Proliferação nuclear

Biden planeja reviver o sistema de tratados de controle de armas nucleares com a Rússia, degradado durante os anos Trump. Também diz que reabilitará o acordo nuclear com o Irã de 2015, que Trump abandonou, se Teerã se comprometer novamente a cumprir seus termos. Sobre as armas nucleares da Coreia do Norte, ele tem poucas novidades a dizer. A modernização do próprio arsenal nuclear dos Estados Unidos, iniciada por Obama, parece destinada a continuar.

 

6. Conflitos

Biden diz que quer revigorar a Otan e fortalecer alianças na Ásia, adotar uma postura forte de dissuasão em face das maquinações antiocidentais da Rússia, tentar reviver o processo de paz Israel-Palestina interrompido por Trump, encerrar o fomento à guerra saudita no Iêmen, interromper as separações familiares na fronteira mexicana e reformar a imigração, além de apoiar a ONU e o direito internacional. 

 

 

*Simon Tisdall é colunista do jornal The Guardian e editor assistente da publicação.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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