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Barcelona contra o turismo

Moradores da cidade protestam contra a invasão de visitantes e o aumento do custo de vida, enquanto a Câmara de Vereadores limita a expansão de hotéis

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Por Stephen Burgen

Por trás de faixas com as inscrições “Barcelona não está à venda” e “Não seremos expulsos”, cerca de 2 mil manifestantes praticaram uma “ocupação” da Rambla, o mais famoso bulevar desta cidade espanhola, no sábado 28.

O protesto foi organizado por uma coalizão de mais de 40 grupos de moradores de toda a cidade, não apenas dos bairros mais diretamente afetados pelo turismo de massa.

O número de visitantes cresceu de forma exponencial nos últimos anos. Em 2016, cerca de 9 milhões de turistas ficaram em hotéis e outros 9 milhões em apartamentos de férias. Além disso, Barcelona chegou a receber perto de 12 milhões de visitantes em um único dia, que chegaram em carros, trens ou navios de cruzeiro.

Os turistas assistiram surpresos quando as faixas foram desenroladas sobre a Rambla, ao lado da fonte de Canaletes.

“Não compreendo. O que eles querem dizer com ‘Barcelona não está à venda’?”, perguntou Qais, do Kuwait. “Não é o que esperávamos, mas entendo a ideia”, disse ele, depois de uma explicação. E acrescentou: “As coisas vão muito mal no Oriente Médio”, o que coloca tudo em perspectiva. “Significa que eles não nos querem aqui?”, perguntou a mulher de Qais. A dinamarquesa Birgid foi menos empática. “O turismo traz muito dinheiro para a cidade, não?”

Roger, da britânica Wigan, que estava em sua segunda visita à cidade, comentou: “Posso entender, o lugar é muito comercial. Se eu entendi o que está escrito em alguns cartazes, eles se queixam de que o turismo força um aumento dos alugueis. Posso entender isso”.

Essa era uma das principais bandeiras por trás da marcha, pois o dinheiro ganho com os alugueis por temporada força os preços para cima e expulsa os moradores da cidade.

Christine, uma inglesa que vive em Barcelona há mais de 20 anos e participava do protesto, disse: “Alugamos nosso apartamento na cidade velha há 17 anos. Nesse tempo acho que pagamos cerca de 150 mil euros em alugueis. Hoje eles querem nos tirar porque podem ganhar mais com turistas”.

A marcha coincide com uma nova lei aprovada pela câmara de vereadores na sexta-feira 27 que pela primeira vez tenta conter o turismo. O plano urbano especial para hospedagem de turistas pretende limitar o número de leitos oferecidos por hotéis e apartamentos, impondo uma moratória à construção de novos hotéis. Novas licenças não serão emitidas para apartamentos de turismo.

Hoje há 75 mil leitos em hotéis na cidade e cerca de 100 mil em apartamentos turísticos, ao menos a metade deles sem licença e ilegais. A prefeitura está em luta com a Airbnb, a principal agência de alugueis. No ano passado, a Câmara multou a Airbnb e a HomeAway em 600 mil euros cada por anunciar apartamentos não licenciados.

A Airbnb afirma que a enorme maioria de seus clientes na cidade aluga quartos como forma de pagar as despesas na prolongada crise financeira espanhola.

“Isso pode ser verdade até certo ponto, mas esconde o problema real, a especulação”, disse Daniel Pardo, integrante da Assembleia de Bairros para o Turismo Sustentável.

 Mas os turistas são livres para visitar a cidade, então o que as impedirá? “Uma coisa que poderíamos fazer é parar de gastar milhões para promover o turismo”, disse Pardo. “Subsidiamos o turismo com dinheiro público, explorando os trabalhadores na economia de serviços e a infraestrutura da cidade, pela qual os cidadãos pagam. Além disso, o turismo distorce a economia e há pouco apoio a alguém que queira abrir empresas não-turísticas.”

O protesto bem-humorado partiu pela Rambla rumo à extremidade da praia, onde um dos organizadores leu um manifesto que pede mais lojas locais, mais residências e não empresas e controle da poluição causada pelos automóveis particulares e os navios de cruzeiro.

“É uma grande manifestação”, disse um dos participantes. “Há mais gente aqui do que na posse de Trump. Os cidadãos nunca foram consultados sobre isso, mas são eles que sofrem as consequências e não gozam dos benefícios. Pedimos que o debate seja aberto a todos e que cheguemos a outra solução do problema, em vez de apresentar uma que se baseia no crescimento contínuo.”

 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 

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