Após 25 anos, genocídio ainda marca a política de Ruanda

A barbárie de 1994 afeta até hoje a relação do país africano com seus vizinhos

Memorial em Ruanda (Foto: Wikimedia Commons)

Memorial em Ruanda (Foto: Wikimedia Commons)

Mundo

O bárbaro genocídio em Ruanda aconteceu há um quarto de século. Hoje, o pequeno país do leste africano é elogiado como exemplo de estabilidade: especialmente em termos econômicos, o Estado se recuperou bem nos últimos 25 anos.

Mas o genocídio praticado pela maioria étnica radical hutu contra tutsis e hutus moderados, em 1994, traumatizou profundamente o país e sua sociedade. Seus 12 milhões de habitantes vivem hoje em paz, mas a lembrança das atrocidades ficou marcada entre os seus cidadãos: entre abril e julho de 1994, cerca de 800 mil pessoas foram mortas de forma brutal, e a infraestrutura foi completamente destruída.

O êxito de ter se desenvolvido como uma sociedade funcional é atribuído principalmente ao presidente Paul Kagame. “Ele fez um excelente trabalho para promover o desenvolvimento do país e atrair investidores internacionais”, afirma Patrick Hajayandi, do Instituto Sul-Africano de Justiça e Reconciliação (IJR).

Imagens de vítimas do genocídios de Ruanda (Foto: Wikimedia Commons)

Mas Ruanda também é um país fortemente influenciado por sua história, tanto em sua política interna quanto externa. O genocídio deixou sua marca. “Não se pode mensurar a importância que o genocídio dos tutsis teve para Kagame”, diz Phil Clark, da universidade londrina SOAS. “O governo ruandês é a principal instância na eliminação da desigualdade social e econômica entre os grupos étnicos hutus e tutsis.”

O estilo de liderança autoritária do presidente se baseia exatamente nesse estado de espírito, explica Clark. Segundo ele, do ponto de vista de Kagame, a resistência política provoca apenas desordens – os direitos humanos, portanto, não estão no topo da agenda do chefe de Estado ruandês.

De acordo com Clark, a principal preocupação de Kagame é evitar a qualquer preço uma possível inflamação da violência. “Disso resulta a necessidade de Ruanda proteger os tutsis em toda a região”, afirma, apontando que isso se refere principalmente aos membros dessa etnia em Burundi, Uganda e no leste da República Democrática do Congo. “Nesses países, os tutsis têm sido atacados sistematicamente há décadas por certas facções.”

Kagame já proferiu frequentes críticas a grupos de oposição que operam em países vizinhos, o que, aos seus olhos, perturba o processo de integração na África Oriental. Recentemente, as tensões políticas atingiram um ápice quando o governo ruandês fechou uma passagem de fronteira para Uganda.

O analista ugandense Mwambutsya Ndebesa, da Universidade Makerere em Kampala, diz ver isso como um sinal da disputa pelo poder regional. “Trata-se da hegemonia política na região”, afirma. “Mas também de hostilidades pessoais.”

Os presidentes de Uganda e Ruanda, respectivamente, Yoweri Museveni e Paul Kagame, já foram aliados. Kagame foi uma figura-chave na organização rebelde e agora partido governista Frente Patriótica Ruandesa (RPF), que ajudou Museveni a tomar o poder em 1986.

A RPF surgiu do Movimento Nacional de Resistência (NRM), liderado por Museveni. Quando os rebeldes da RPF invadiram Ruanda em 1994, puseram fim ao genocídio e prepararam o caminho de Paul Kagame para liderar o país, eles receberam apoio ativo de Uganda.

Desde então, as relações entre os ex-irmãos de luta pioraram. “O presidente Museveni e seus generais acreditam que o governo ruandês lhes deve algo”, relatou Christopher Kayumba, da Universidade de Ruanda. “Afinal, na época, eles o ajudaram a derrubar o regime de Juvénal Habyarimana e a pôr fim ao genocídio”. Kagame se incomoda em ser tratado como protegido. Porque ele tem ambições de ganhar mais poder na região, relatou Kayumba.

Museveni não é o único líder africano em conflito com Kagame. As tensões políticas entre Ruanda e Burundi também cresceram. Também nesse caso, a animosidade pessoal entre Kagame e o presidente do país vizinho do sul, Pierre Nkurunziza, desempenha um papel importante.

Mas o analista burundiano Patrick Hajayandi diz acreditar que essa inimizade também contém um elemento étnico: “Em Ruanda todos dizem que somos todos ruandeses, mas quando se fala com as pessoas, elas dizem que os hutus são marginalizados de alguma forma”.

Segundo Hajayandi, em Ruanda, os hutus ainda são considerados responsáveis pelo genocídio e não dignos de confiança. Burundi, por outro lado, mostra êxitos na integração étnica – ameaçando a ambição de Kagame de ganhar mais poder na região, explica o analista burundiano.

Hajayandi rejeita as críticas ruandesas de que o presidente Nkurunziza estaria ajudando os rebeldes no Congo a combater Kagame: “As fronteiras são porosas, certamente há contrabando de armas, mas não acho que o governo do Burundi pretenda desestabilizar Ruanda por meio de grupos rebeldes armados.”

Muitos observadores temem que as tensões na região possam se transformar em violência aberta. Mas é improvável que o Ocidente venha a fazer mais pressão sobre o governo de Kagame para que este normalize seu relacionamento com os vizinhos. “Ruanda ainda depende muito de ajuda financeira, mas Kagame explora com maestria as fraquezas do Ocidente”, aponta Phil Clark.

Os governos dos países ricos teriam que dar explicações aos seus cidadãos por que teriam a obrigação de ajudar os países pobres: “Os doadores internacionais estão num verdadeiro dilema. Os governos, que querem usar sua ajuda como uma forma suave de pressão, aponta Ruanda como um exemplo de mudança positiva e que pode ter sucesso através da ajuda ocidental”. Retratar Ruanda como o vilão da história, afirma, iria contra essa estratégia.

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