Mundo
Aperto no torniquete
O Indiciamento de Raúl Castro e o envio de porta-aviões ao Caribe ampliam o assédio a uma ilha já isolada
Duas ações simultâneas dos Estados Unidos na quarta-feira 20 reforçam as suspeitas de que uma intervenção violenta em Cuba possa estar a caminho. Primeiro, a marinha posicionou no Caribe o porta-aviões USS Nimitz. Em seguida, a justiça norte-americana anunciou o indiciamento de Raúl Castro, irmão de Fidel e presidente cubano de 2008 a 2018, por um crime atribuído a ele em 1996. A dupla investida soma-se a outras, mais antigas: o embargo econômico e a suspensão da entrega do petróleo da Venezuela, cujo presidente Nicolás Maduro, aliado de primeira hora dos cubanos, foi preso em janeiro. Diante da soma de atos hostis, o presidente do país, José Miguel Díaz-Canel, classificou a escalada “de perigosa e sem precedentes”, que, se levada a cabo, encontrará uma resistência capaz de dar “até a última gota de sangue”.
Não é difícil ler os sinais. No caso do porta-aviões, a ameaça é explícita. O USS Nimitz tem mais de 300 metros de comprimento, é movido por dois reatores atômicos e tem como única função servir de extensão da plataforma continental norte-americana para projetar força militar em partes distantes do globo, lançando ataques massivos perpetrados por uma esquadra formada por um destroier e um navio de suprimentos, além de um número não revelado de submarinos e até 75 aeronaves. Essa foi a configuração usada para encabeçar as ações que culminaram na deposição e morte de Saddam Hussein no Iraque, em 2006. A rigor, os Estados Unidos nem precisariam de um volume de fogo naval tão massivo para atacar Cuba, uma ilha somente a uma hora e 20 minutos de voo da Flórida em aviões comerciais. Mas a coreografia bélica faz parte de um pacote de ações calculadamente espalhafatosas.
O outro braço dessa intimidação é judicial. Um tribunal federal de Miami, reduto da colônia de imigrantes cubanos nos Estados Unidos desde os anos 1960, indiciou Castro por envolvimento, como ministro da Defesa, em dois ataques efetuados por caças cubanos MiG-29 contra aviões civis modelo Cessna 337 que pertenciam à organização “Irmãos ao Resgate”, baseada na Flórida. Além de abater as duas aeronaves norte-americanas, Cuba também matou quatro tripulantes na ação. Os Cessnas não eram militares, mas civis. Os integrantes da organização buscavam desestabilizar o regime, mas não como combatentes. Por todos esses elementos, a condenação é provável.
O ex-presidente e ex-ministro da Defesa cubano está hoje com 94 anos. Ele deixou o governo e a presidência do Partido Comunista em 2021, e o fato pelo qual foi indiciado ocorreu 30 anos atrás. A ressuscitação de seu protagonismo se presta menos a fazer justiça do que a embasar uma possível intervenção norte-americana na ilha, baseada no mesmo roteiro usado para invadir a Venezuela e capturar Maduro no início do ano. O secretário de Justiça interino dos Estados Unidos, Todd Blanche, disse esperar que Castro compareça aos tribunais “por vontade própria ou de outra forma”, para ir “à prisão”. Como ele não se entregará, resta a hipótese de uma invasão para capturá-lo.
A orquestração da campanha norte-americana está nas mãos do secretário de Estado, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos que está cheio de motivações pessoais para derrubar o regime da ilha de onde um dia partiram seus pais. Dias atrás, Rubio, em espanhol, prometeu enviar 100 milhões de dólares, cerca de 500 milhões de reais, em alimentos e medicamentos aos cubanos, a serem distribuídos pela Igreja Católica. Embora tenha usado a língua paterna, o recado não foi dirigido exatamente aos cidadãos cubanos, mas aos eleitores latino-americanos de primeira, segunda e terceira geração que certamente terão papel decisivo na disputa de meio de mandato, em novembro. Os prognósticos não são bons para Trump. O presidente norte-americano chegou em abril ao mais baixo nível de aprovação de todos os seus mandatos como presidente. Só 34% tinham uma opinião positiva sobre ele. Se os rivais democratas conseguirem a maioria da Câmara e do Senado, torna-se quase impossível segurar um processo de impeachment contra o presidente pelo fato de ele, entre outras, ter iniciado ao menos duas guerras, contra a Venezuela e o Irã, sem pedir permissão ao Congresso, como determina a Constituição.
Os EUA ensaiam uma invasão. Os cubanos prometem resistir “até a última gota de sangue”
Trump está atolado até o pescoço em um impasse insolúvel no Irã, que lhe faz perder votos. O ataque precipitado por ele e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em fevereiro, teve como consequência o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do comércio mundial de petróleo. Essa quebra no fornecimento fez o preço do produto subir, e bateu no bolso de um eleitorado que não via sentido nesse conflito antes mesmo de ele começar. Para piorar, o regime iraniano não caiu, nem abdicou de seu programa nuclear. Sem ter qualquer coisa para chamar de vitória, Trump parece ter encontrado em Cuba um adversário frágil e simbólico o bastante contra o qual dirigir seu bullying diplomático.
Muito dessa posição violenta e intervencionista se deve à impressão de que é possível replicar mundo afora o que os Estados Unidos conseguiram em janeiro na Venezuela: entrar e sair sem morrer, levando debaixo do braço um adversário humilhado para ser julgado em Miami. Foi Maduro. Agora, pode ser Castro. No caso dos cubanos, entretanto, é improvável que uma invasão militar não seja rechaçada à força, mesmo que insuficiente. Em Caracas, há cinco meses, os únicos mortos foram os integrantes da guarda pessoal de Maduro, todos cubanos.
Ainda antes de qualquer invasão, a ilha sofre os efeitos de um garrote cada vez mais apertado. O corte no fornecimento de petróleo provoca apagões que deixam algumas áreas do país sem luz elétrica por até 20 horas diárias. A maior refinaria de Santiago de Cuba, que operava principalmente com óleo da Venezuela e do México, parou de processar petróleo e gás para uso doméstico. Muitos cidadãos usam carvão para acender o fogo. Em muitos hospitais, o cenário é de ambulâncias e elevadores parados, além de tratamentos interrompidos, incluindo hemodiálises e quimioterapias. As mortes começaram antes mesmo do primeiro disparo. •
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Aperto no torniquete’
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