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Ao vencedor, as batatas

Bachelet recebe apoio brasileiro para dirigir uma ONU sem dinheiro, respaldo ou prestígio

Ao vencedor, as batatas
Ao vencedor, as batatas
Abacaxi. Bachelet seria a primeira mulher a ocupar a secretaria-geral da organização. Guterres será lembrado pela apatia e a impotência no cargo – Imagem: Jean Marc Ferré/ONU, Manuel Elías/ONU e Ricardo Stuckert/PR
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Michelle Bachelet recebeu, no início de fevereiro, o apoio conjunto de Brasil, México e Chile para ocupar o cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas. A ex-presidente chilena pretende substituir o português António Guterres, que, em dois mandatos consecutivos, só encontrou rival, em termos de apatia e impotência, em seu antecessor, o coreano Ban ­Ki-moon. Somados, os dois deram a ONU 20 anos de ladeira abaixo, ao longo dos quais a organização perdeu respaldo, dinheiro e prestígio como em nenhum outro momento desde a sua fundação, em 1945.

Se a chilena vier a se tornar, de fato, a primeira mulher a ocupar o cargo, herdará também a maior crise da história das Nações Unidas. A organização enfrenta um desfalque brutal no orçamento, com 41 dos 193 Estados membros inadimplentes, os Estados Unidos incluídos, cuja dívida chega a 2,2 bilhões de dólares. O país­ governado por Donald Trump tem um desprezo tão grande pelas Nações Unidas que chegou a lançar uma organização paralelacon no início do ano. O chamado Conselho da Paz arrebanhou o apoio não apenas de nações diplomaticamente inexpressivas, como Azerbaijão e Mongólia, mas de potências regionais como a Turquia, integrante da Otan, Egito e Arábia Saudita.

É cedo para dizer que Trump queira mesmo fundar uma nova ONU, mas é tarde para negar que ele esteja empenhado em vandalizar o sistema multilateral e de direito internacional sobre o qual o mundo tem se apoiado, mesmo que precariamente, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Parte desse vandalismo norte-americano não é novo. Os Estados Unidos acumulam ações militares ilegais, conduzidas à revelia da ONU, desde muito antes do início do mandato do republicano. O ataque ao Iraque, em 2003, não nos deixa mentir. A inovação talvez esteja na forma desbragada com que esse desprezo é proclamado. “A ONU simplesmente não tem sido muito útil”, afirmou o presidente norte-americano em 20 de janeiro. “A ONU deveria ter resolvido todas as guerras que eu resolvi. Eu nunca recorri a ela. Nunca sequer pensei em recorrer.”

Diante do desprezo dos Estados Unidos, as potências europeias se esforçam para defender um sistema internacional questionado. Em Davos, na Suíça, sobraram discursos superlativos nessa direção. Durante o último Fórum Econômico Mundial, em janeiro, líderes como o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro belga, Bart De Wever­, levantaram com ênfase essa bandeira, como se coubesse agora a eles cerrar fileiras em torno de um marco civilizatório ameaçado. Abaixo do Equador, quem desempenha esse papel é o presidente Lula, que, no mês passado, no Panamá, ecoou as preocupações dos pares europeus, falando em defesa de um sistema internacional baseado no respeito ao direito.

A escolha de Bachelet parece ser a melhor aposta da esquerda latino-americana para fazer frente tanto ao vandalismo norte-americano quanto ao risco de um neocolonialismo europeu. Ao mesmo tempo, representa uma janela de oportunidade para impulsionar reformas profundas na organização. “Sua experiência, liderança e compromisso com o multilateralismo a credenciam para conduzir a ONU, em um contexto internacional marcado por conflitos, desigualdades e retrocessos democráticos”, disse Lula sobre Bachelet, que, além de ter sido presidente do Chile, foi Alta-Comissária da ONU para Direitos Humanos e diretora-executiva da ONU Mulher.

A ex-presidente chilena é malvista por EUA e China

O currículo da candidata, tão bom aos olhos de Lula, é cheio de deméritos do ponto de vista de alguém como Trump. “É mulher, socialista, de esquerda, de direitos humanos. Essa é toda a agenda que Trump e seus cúmplices não querem ver na ONU”, resume Giancarlo Summa, que por 15 anos dirigiu a Comunicação da ONU no Brasil, no México e na África Ocidental, e hoje dirige o Instituto Latino-americano para o Multilateralismo (Ilam). Bachelet, acrescenta, desagrada não apenas aos Estados Unidos, mas também à China, a quem ela acusou de maus-tratos contra o povo uigur, em um relatório publicado no apagar das luzes de seu mandato à frente do Alto Comissariado para os Direitos Humanos.

Para ter o nome aprovado, a chilena precisará não apenas receber a maioria dos votos dos integrantes da Assembleia-Geral. Terá de driblar vetos de qualquer um dos cinco permanentes do Conselho de Segurança – Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França – o que, embora pareça improvável no que diz respeito a britânicos, russos e franceses, não é tão difícil de imaginar no caso de norte-americanos e chineses.

Caso Bachelet reúna os votos e drible os vetos, uma eventual vitória teria, ainda assim, um gosto amargo. “A situação é tão ruim que quem vier a ser eleito o próximo secretário-geral, ainda que seja o Superman,­ terá de gerir escombros. A situação financeira é dramática. A não ser que algo extraordinário aconteça até julho, o dinheiro vai acabar e a ONU pode fechar a sede em Nova York, literalmente”, alerta Summa. “Além disso, há uma degringolada total do direito internacional e do respeito aos princípios mais básicos da Carta da ONU. Então, o problema não é a pessoa, são os governos.” Ele aponta ainda o que parece ser uma hipocrisia: os países que alçam a voz para se opor aos Estados Unidos não demonstram a mesma disposição para cobrir a parte do orçamento da ONU descoberta com o calote bilionário norte-americano. Ou seja, ninguém até agora demonstrou disposição de verdade para substituir uma eventual sabotagem dos Estados Unidos.

Os discursos em defesa do multilateralismo são bonitos e oportunos, assim como as críticas à evidente assimetria do Conselho de Segurança. Quando se trata, porém, de dar um passo à frente e meter a mão no bolso, ninguém se apresenta. O Brasil zerou suas dívidas com as Nações Unidas, o que coloca o País em posição mais confortável para defender reformas. Mas é improvável que um presidente como Lula queira e consiga direcionar ainda mais recursos para uma ambiciosa reforma do sistema internacional, enquanto precisa equilibrar o caixa nas próprias fronteiras em ano eleitoral. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ao vencedor, as batatas’

Michelle Bachelet recebeu, no início de fevereiro, o apoio conjunto de Brasil, México e Chile para ocupar o cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas. A ex-presidente chilena pretende substituir o português António Guterres, que, em dois mandatos consecutivos, só encontrou rival, em termos de apatia e impotência, em seu antecessor, o coreano Ban ­Ki-moon. Somados, os dois deram a ONU 20 anos de ladeira abaixo, ao longo dos quais a organização perdeu respaldo, dinheiro e prestígio como em nenhum outro momento desde a sua fundação, em 1945.

Se a chilena vier a se tornar, de fato, a primeira mulher a ocupar o cargo, herdará também a maior crise da história das Nações Unidas. A organização enfrenta um desfalque brutal no orçamento, com 41 dos 193 Estados membros inadimplentes, os Estados Unidos incluídos, cuja dívida chega a 2,2 bilhões de dólares. O país­ governado por Donald Trump tem um desprezo tão grande pelas Nações Unidas que chegou a lançar uma organização paralelacon no início do ano. O chamado Conselho da Paz arrebanhou o apoio não apenas de nações diplomaticamente inexpressivas, como Azerbaijão e Mongólia, mas de potências regionais como a Turquia, integrante da Otan, Egito e Arábia Saudita.

É cedo para dizer que Trump queira mesmo fundar uma nova ONU, mas é tarde para negar que ele esteja empenhado em vandalizar o sistema multilateral e de direito internacional sobre o qual o mundo tem se apoiado, mesmo que precariamente, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Parte desse vandalismo norte-americano não é novo. Os Estados Unidos acumulam ações militares ilegais, conduzidas à revelia da ONU, desde muito antes do início do mandato do republicano. O ataque ao Iraque, em 2003, não nos deixa mentir. A inovação talvez esteja na forma desbragada com que esse desprezo é proclamado. “A ONU simplesmente não tem sido muito útil”, afirmou o presidente norte-americano em 20 de janeiro. “A ONU deveria ter resolvido todas as guerras que eu resolvi. Eu nunca recorri a ela. Nunca sequer pensei em recorrer.”

Diante do desprezo dos Estados Unidos, as potências europeias se esforçam para defender um sistema internacional questionado. Em Davos, na Suíça, sobraram discursos superlativos nessa direção. Durante o último Fórum Econômico Mundial, em janeiro, líderes como o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro belga, Bart De Wever­, levantaram com ênfase essa bandeira, como se coubesse agora a eles cerrar fileiras em torno de um marco civilizatório ameaçado. Abaixo do Equador, quem desempenha esse papel é o presidente Lula, que, no mês passado, no Panamá, ecoou as preocupações dos pares europeus, falando em defesa de um sistema internacional baseado no respeito ao direito.

A escolha de Bachelet parece ser a melhor aposta da esquerda latino-americana para fazer frente tanto ao vandalismo norte-americano quanto ao risco de um neocolonialismo europeu. Ao mesmo tempo, representa uma janela de oportunidade para impulsionar reformas profundas na organização. “Sua experiência, liderança e compromisso com o multilateralismo a credenciam para conduzir a ONU, em um contexto internacional marcado por conflitos, desigualdades e retrocessos democráticos”, disse Lula sobre Bachelet, que, além de ter sido presidente do Chile, foi Alta-Comissária da ONU para Direitos Humanos e diretora-executiva da ONU Mulher.

A ex-presidente chilena é malvista por EUA e China

O currículo da candidata, tão bom aos olhos de Lula, é cheio de deméritos do ponto de vista de alguém como Trump. “É mulher, socialista, de esquerda, de direitos humanos. Essa é toda a agenda que Trump e seus cúmplices não querem ver na ONU”, resume Giancarlo Summa, que por 15 anos dirigiu a Comunicação da ONU no Brasil, no México e na África Ocidental, e hoje dirige o Instituto Latino-americano para o Multilateralismo (Ilam). Bachelet, acrescenta, desagrada não apenas aos Estados Unidos, mas também à China, a quem ela acusou de maus-tratos contra o povo uigur, em um relatório publicado no apagar das luzes de seu mandato à frente do Alto Comissariado para os Direitos Humanos.

Para ter o nome aprovado, a chilena precisará não apenas receber a maioria dos votos dos integrantes da Assembleia-Geral. Terá de driblar vetos de qualquer um dos cinco permanentes do Conselho de Segurança – Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França – o que, embora pareça improvável no que diz respeito a britânicos, russos e franceses, não é tão difícil de imaginar no caso de norte-americanos e chineses.

Caso Bachelet reúna os votos e drible os vetos, uma eventual vitória teria, ainda assim, um gosto amargo. “A situação é tão ruim que quem vier a ser eleito o próximo secretário-geral, ainda que seja o Superman,­ terá de gerir escombros. A situação financeira é dramática. A não ser que algo extraordinário aconteça até julho, o dinheiro vai acabar e a ONU pode fechar a sede em Nova York, literalmente”, alerta Summa. “Além disso, há uma degringolada total do direito internacional e do respeito aos princípios mais básicos da Carta da ONU. Então, o problema não é a pessoa, são os governos.” Ele aponta ainda o que parece ser uma hipocrisia: os países que alçam a voz para se opor aos Estados Unidos não demonstram a mesma disposição para cobrir a parte do orçamento da ONU descoberta com o calote bilionário norte-americano. Ou seja, ninguém até agora demonstrou disposição de verdade para substituir uma eventual sabotagem dos Estados Unidos.

Os discursos em defesa do multilateralismo são bonitos e oportunos, assim como as críticas à evidente assimetria do Conselho de Segurança. Quando se trata, porém, de dar um passo à frente e meter a mão no bolso, ninguém se apresenta. O Brasil zerou suas dívidas com as Nações Unidas, o que coloca o País em posição mais confortável para defender reformas. Mas é improvável que um presidente como Lula queira e consiga direcionar ainda mais recursos para uma ambiciosa reforma do sistema internacional, enquanto precisa equilibrar o caixa nas próprias fronteiras em ano eleitoral. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ao vencedor, as batatas’

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