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Afeganistão: Sem acabar com o terror, EUA pavimentam retorno do Taleban

A ingerência e a prepotência de Washington não só mantiveram vivas organizações como estimularam o surgimento de novos grupos violentos

(FOTO: Wakil Kohsar/AFP)
(FOTO: Wakil Kohsar/AFP)
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As forças do Taleban nem esperaram o apagar das luzes. A proximidade da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão – os últimos soldados deixam o país em 31 de agosto – desencadeou uma ofensiva militar do grupo islâmico impossível de ser detida sem apoio internacional.

Na madrugada da terça-feira 10, após conquistar seis capitais de província em um curto espaço de tempo, os insurgentes cercaram a maior cidade ao norte, Mazar-i-Sharif, “túmulo do magnífico”, em tradução livre, por supostamente abrigar os restos mortais de Ali, guerreiro e genro do profeta Maomé. Mazar-i-Sharif é um troféu para os talebans, que haviam perdido o controle da região em 2001, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão como parte da “guerra ao terror”.

Passadas duas décadas, o “terror”, como se nota, continua firme e forte. As derrotas no início da campanha dos EUA foram assimiladas, o Taleban reorganizou-se nas fronteiras ao norte e esperou o momento certo para retomar áreas perdidas. Classificada por Joe Biden como uma “guerra impossível de ser vencida”, em triste referência ao Vietnã, a aventura no Afeganistão consumiu 1 trilhão de dólares sem alcançar o objetivo de promover a estabilidade na região ou eliminar a ameaça extremista. Ao contrário, a violência explodiu e as comunidades foram esfaceladas.

A ingerência e a prepotência de Washington não só mantiveram vivas organizações como o Taleban e a Al-Qaeda, como também estimularam o surgimento de novos e mais violentos grupos, a começar pelo Estado Islâmico.

Governos títeres nunca conseguiram garantir a paz e a estabilidade e se lambuzaram na corrupção, enquanto soldados norte-americanos eram acusados de conivência com torturas e abusos sexuais. Mais de 100 mil civis foram mortos ou feridos, segundo cálculos das Nações Unidas, a partir de 2009. Entre as tropas dos EUA foram quase 3 mil baixas.

A região está literalmente em piores condições do que antes da invasão e não há sinais de que o mundo se tornou mais seguro desde então. Mesmo assim, como o leão da montanha do desenho animado, Washington fará no fim do mês uma “saída pela direita”. Dos 110 mil militares que ocuparam a região no auge do conflito, em 2011, restarão 650 para proteger a embaixada na capital Cabul. Quanto aos afegãos, que Alá os proteja. “Eles é que têm de defender o país. O combate é deles”, afirmou John Kirby, porta-voz da Casa Branca.

O desfecho da situação era previsível desde que Donald Trump anunciou no ano passado um acordo “de paz” com o Taleban e com o governo afegão para a retirada das tropas. Líderes europeus têm lamentado a decisão de manter o acordo diante do avanço islâmico e das denúncias crescentes de violação dos direitos humanos, mas não há ninguém capaz ou disposto a sugerir mudanças no cronograma. Em mensagem no Twitter,­ ­Annegret Kramp-Karrenabauer, ministra da Defesa da Alemanha, resumiu o impasse: “Os relatos de todo Afeganistão são amargos e nos fazem sofrer (…) Mas a sociedade e o Parlamento estão preparados para enviar forças armadas e permanecer ali, com milhares de soldados, por ao menos uma geração? Se não, então a retirada conjunta com os aliados foi a melhor decisão”.

À RFI, o general ­Vincent Desportes, ex-diretor da Escola Superior de Guerra da França, disse que quem acompanha o assunto não se surpreende com os acontecimentos. “Como você espera que o pobre exército afegão, treinado, mas não muito bem armado, e que não acredita mais em si mesmo, prevaleça contra o Taleban? É estritamente impossível. Qualquer um familiarizado com o assunto sabia que, inevitavelmente, um dia, e inevitavelmente muito rapidamente, o Taleban iria gradualmente assumir todo o Afeganistão e, muito rapidamente, agora, o poder em Cabul.”

Os Estados Unidos ordenaram bombardeios pontuais no norte do país, embora o contra-ataque sirva menos para conter o avanço dos talebans e mais para permitir a retirada segura de aliados das regiões em conflito. Milhares de afegãos buscam refúgio em Cabul, o que levou o vice-presidente, Amrullah Saleh, a apelar às agências humanitárias. Calcula-se que 120 mil civis chegaram à capital nos últimos dias para escapar das batalhas no norte e nordeste.

Os relatos de brutalidade das forças talebans afugentam a população. Segundo a Human ­Right Watch, houve 44 execuções sumárias em Kandahar em 72 horas. O Unicef conta 20 crianças mortas e 30 feridas no mesmo distrito. A polícia local informa de 800 a 900 martirizados. “As atrocidades agravam-se a cada dia”, declarou à ­Reuters Hervé Ludovic de Lys, representante do Unicef no Afeganistão. Sem credibilidade, apoio e alternativas, o governo propôs medida desesperada: armar a população. O risco de desagregação do país é alto, com o realinhamento de grupos tribais ou bandos de criminosos, em uma reprise da guerra civil ocorrida entre o declínio da União Soviética e a ascensão dos talebans.

Após reunião de emergência na sexta-feira 6, o Conselho de Segurança da ONU limitou-se a sugerir ao grupo islâmico a suspensão dos ataques e o retorno às negociações. Um integrante da Otan declarou em anonimato a agências internacionais: “Não há solução para o conflito e os talebans têm de compreender que nunca serão reconhecidos pela comunidade internacional se rejeitarem o processo político e tentarem conquistar o país pela força”. Melhor esperar sentado. Os ­países vizinhos também preferem manter distância do conflito. Ao fim de uma reunião com Jean Arnault, enviado da ONU ao Afeganistão, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irã, Javan Zarif, lembrou o óbvio: “As políticas erradas levadas a cabo por potências estrangeiras são um dos principais fatores a contribuir para a ­atual situação”. Quem discorda?

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1170 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE AGOSTO DE 2021.

Sergio Lirio

Sergio Lirio
Redator-chefe da revista CartaCapital

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