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Acossado por protestos, Lasso enfrenta pedido de impeachment no Equador

O governo garante que reduzir os preços dos combustíveis, como exigem os indígenas, custaria ao Estado mais de 1 bilhão de dólares

Foto: BOLIVAR PARRA / ECUADORIAN PRESIDENCY / AFP
Foto: BOLIVAR PARRA / ECUADORIAN PRESIDENCY / AFP
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O presidente do Equador, Guillermo Lasso, enfrenta neste sábado 25 um debate no Congresso para votar sua destituição devido à “comoção interna” causada por 13 dias de protestos indígenas contra o elevado custo de vida.

A sessão plenária está prevista para as 18h (20h em Brasília) ante a convocação de um terço dos deputados da Assembleia Nacional, que vê no presidente de direita a causa da “grave crise política e comoção interna” que vive o país.

Enquanto isso, os protestos continuam sacudindo o Equador, especialmente a capital Quito, onde cerca de 10.000 indígenas vindos de seus territórios marcham em diversos pontos da capital aos gritos de “Fora Lasso, fora!”

Os 47 integrantes da bancada da União pela Esperança (Unes), ligada ao ex-presidente socialista Rafael Correa (2007-2017), solicitaram ontem a saída do presidente, um ex-banqueiro de direita que assumiu o cargo em maio de 2021.

Em isolamento por causa da Covid, Lasso arremeteu contra o líder das manifestações, Leonidas Iza, presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie).

“A intenção real do senhor Iza é derrubar o governo […] ele não tem controle das manifestações nem da criminalidade que suas ações irresponsáveis provocaram”, declarou Lasso.

Rios de gente indignada com ponchos vermelhos, paus e escudos feitos à mão exigem a redução do preço do combustível entre outras medidas para aliviar a pobreza. Eles deixam para trás barricadas com troncos e pneus queimados em uma cidade semiparalisada e exausta.

De manhã, centenas de mulheres organizaram um ritual no norte da capital e depois marcharam contra o governo. Alguns indígenas iam com os olhos pintados de listras vermelhas e carregavam plantas medicinais.

“A grave continua”

Após dois dias violentos, quinta e sexta-feira, Quito amanheceu com relativa tranquilidade neste sábado, à espera do debate de destituição.

“Toda a cesta básica está muito cara e nossos produtos do campo (…) não valem nada”, disse à AFP Miguel Taday (39 anos), um agricultor de batata de Chimborazo (sul), a cerca de 200 quilômetros de Quito.

O Equador ganhou fama de ingovernável após a saída abrupta de três presidentes entre 1997 e 2005 diante da pressão social.

Para ser aprovada, a destituição requer 92 votos dos 137 possíveis no Congresso, no qual a oposição é maioria, mas está bastante fragmentada.

Lasso deverá ser convocado à sessão desta tarde para se defender e, na sua presença, terá início o debate cuja duração será determinada pelo presidente do Legislativo.

Uma vez concluída a discussão, os deputados têm até 72 horas, no máximo, para resolver sobre o pedido de destituição.

Em caso de aprovação, o vice-presidente Alfredo Borrero assume o cargo e convocará eleições presidenciais e legislativas para cumprir o período restante do mandato.

O Equador, cuja economia dolarizada começava a apresentar sinais de recuperação dos efeitos da pandemia, está perdendo cerca de 50 milhões de dólares por dia devido à crise.

O governo garante que reduzir os preços dos combustíveis, como exigem os indígenas, custaria ao Estado mais de 1 bilhão de dólares por ano em subsídios.

Explosão de violência

As últimas duas noites em Quito foram cenário de duros enfrentamentos entre as forças de segurança e os manifestantes, com coquetéis molotov, fogos de artifício, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral.

Os 13 dias de revolta indígena já deixaram seis civis mortos e uma centena de feridos, segundo a Aliança de Organizações pelos Direitos Humanos.

As autoridades registraram mais de 180 feridos entre militares e policiais e prometeram reprimir com mais rigor as manifestações.

O governo garante que os indígenas estão retornando aos seus territórios, mas a AFP verificou que milhares ainda estão concentrados em três pontos de Quito.

“Aqui vamos continuar lutando, até as últimas consequências. As bases disseram que não vamos voltar sem resultados”, disse Wilmer Umajinga, 35 anos, que protesta na capital desde segunda-feira.

Desgastada pela crise, com o comércio fechado e desabastecimento de alguns produtos, Quito também é cenário de contraprotestos.

Centenas de equatorianos se mobilizam em paralelo com palavras de ordem contrárias ao líder indígena: “Fora Iza, fora!”. Caravanas de veículos de alto padrão percorrem as áreas mais ricas da cidade ressoando suas buzinas e tremulando bandeiras brancas.

A indústria do petróleo, o principal produto de exportação equatoriano, está produzindo em 54% de sua capacidade devido à ocupação de poços (918 fechados) e aos bloqueios de estradas em meio aos protestos.

Sem maior respaldo político, Lasso conta com o apoio dos militares que cerraram fileiras em torno de seu governo.

O presidente “só quer enfrentar com suas armas, só quer fazer mal, não tem bom senso com os indígenas”, lamentou María Luisa Maldonado, 48 anos, da cidade de Cayambe (norte).

AFP

AFP
Agência de notícias francesa, uma das maiores do mundo. Fundada em 1835, como Agência Havas.

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