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Ação orquestrada

A invasão de Ceuta serviu aos interesses do Marrocos, de Donald Trump e da extrema-direita ocidental

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Recado? Maomé VI se curva a Trump e mantém desavenças com a Espanha. O fluxo impressionante de migrantes marroquinos obedeceu a um comando – Imagem: Palácio Real do Marrocos/AFP e Abdel Majid Bjiouat/AFP
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A Espanha não viveu apenas uma crise imigratória nos últimos dias. A onda de mais de 72 mil marroquinos que cruzaram a fronteira e entraram no enclave de Ceuta foi muito mais que uma marcha de jovens exaustos em busca de um futuro. Incentivado pelas redes sociais e pela desinformação, o ato, que deixou ao menos 75 mortos, ganhou contornos geopolíticos, com grupos a instrumentalizar o desespero da multidão, inclusive para pressionar politicamente governos progressistas, obrigar Madri a repensar sua posição em relação a temas territoriais e provocar um racha na Europa. Embora cerca de 70 mil marroquinos tenham retornado a seu país­ sem pisar no outro lado do Mediterrâneo, o acontecimento caiu como uma bomba política no continente. De um lado, a Espanha se declara abandonada pelos parceiros do bloco. De outro, governos de extrema-direita usaram o episódio para fustigar as políticas de imigração de lideranças progressistas.

A Itália de Giorgia Meloni suspendeu a livre circulação entre os dois países, garantida pelo Acordo de Schengen, e passou a usar as imagens da tomada de Ceuta­ para defender o endurecimento das regras de imigração. Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, por sua vez, acusou Meloni de se aproveitar da crise, por conta da campanha eleitoral de 2027. A decisão de Roma, segundo os espanhóis, teria sido movida por “preconceito, fake news, ignorância e interesse político”. Para a Espanha, Ceuta não faz parte de Schengen e aqueles marroquinos jamais poderiam ter chegado à Itália. Fechar a fronteira, como fez Roma, não passa de populismo.

Às pressas, os ministros do Interior da Europa se reuniram na terça-feira 4. Após intenso trabalho diplomático, a Espanha conseguiu que as críticas a seu desempenho fossem suavizadas. A reunião serviu basicamente para o bloco endossar um plano de reforço das fronteiras. Ainda assim, o comissário de Migração da UE, Magnus Brunner, não perdeu a oportunidade para atacar projetos de regularização de estrangeiros. “Não são bons sinais.” O que havia acontecido, criticou, era um “teste de resiliência” continental. Mas garantiu que as fronteiras estavam “sob controle”.

As investigações buscam entender se há mais em jogo, principalmente por conta da inação das forças policiais do Marrocos, sob o comando do rei Maomé VI. Nos dias que antecederam a crise, a turba de homens se aglomerava, sem qualquer reação por parte das autoridades. Marroquinos que cruzaram a fronteira deram declarações de que os policiais não tentaram evitar a marcha. Não por acaso, o primeiro-ministro grego, Kyriákos Mitsotákis, alertou que a Europa enfrentava uma “instrumentalização deliberada da imigração por atores estatais e não estatais”.

Uma linha de apuração que circula entre diplomatas seria a de uma revanche por parte de alas militares de Rabat, diante do alinhamento cada vez mais claro entre a Espanha e a Argélia, rival do Marrocos. Outra possibilidade seria o recado, por parte de Rabat, de que tem, em suas mãos, o poder de desestabilizar o país ibérico, em particular diante da recusa de Madri de reconhecer o Saara Ocidental como território marroquino. A ex-colônia espanhola é alvo de disputa e, com frequência, se transforma em atrito diplomático entre os dois países.

O governo espanhol, que adota políticas humanitárias de migração, ficou na berlinda

Oficialmente, Sánchez tem evitado culpar diretamente o governo de Rabat pela crise. Mas, se o desespero era legítimo por parte dos jovens imigrantes em busca de um destino, foi o ato de transformá-lo em arma de guerra híbrida que causou calafrios entre diplomatas consultados pela reportagem de ­CartaCapital. Em especial, a Inteligência da Espanha passou a identificar mensagens no TikTok dirigidas aos marroquinos, sugerindo que havia chegado o momento de cruzar a fronteira. “A Espanha está aberta”, dizia uma das mensagens.

As suspeitas ganharam força quando se descobriu que contas nas redes sociais tinham acabado de ser criadas, estranhamente com milhares de likes, incentivando a “invasão”. Algumas delas mostravam imagens de jovens com pés de pato e roupas de mergulho, intercaladas por imagens de Ceuta.

Para Madri, a suspeita é de que se trata de uma operação pré-fabricada. Mas por quem? Os candidatos são múltiplos.

A Associação Marroquina de Direitos Humanos apontou o dedo para Rabat e pediu uma investigação independente. Segundo o grupo, o movimento não poderia ter ocorrido sem o consentimento das autoridades.

A reação de Donald Trump também despertou inquietação. Na sexta-feira 31, o republicano apressou-se em culpar Sánchez pela “invasão” e destacou a existência de “leis fracas e má gestão”. Imediatamente, o presidente norte-americano usou as imagens para tentar ganhar apoio político. “O mesmo vai ocorrer com os EUA se não elegermos republicanos”, disse, numa referência às eleições legislativas de novembro. Afirmou ainda que os problemas eram resultado dos “esforços deliberados do governo da Espanha para facilitar e promover a imigração ilegal para a Europa”.

A causa da tensão com a Espanha tem diferentes razões. Sánchez foi um dos primeiros a denunciar a tentativa de Trump de dividir a Europa e enfraquecer a UE. Ele se recusou a aceitar a cobrança do norte-americano de elevar a contribuição para a Otan e criticou abertamente os EUA e Israel pelo genocídio em Gaza. A crise ganhou contornos tensos quando os espanhóis se recusaram a emprestar suas bases para aviões militares dos EUA atacarem o Irã. Trump amea­çou suspender “todo o comércio” com a Espanha, mas não foi adiante.

Ao mesmo tempo, o republicano não perde a oportunidade para elogiar ­Maomé VI. O presidente dos EUA reconhece, desde o primeiro mandato, a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental. Em troca, o rei aderiu ao projeto da Casa Branca de redesenhar o mapa do Oriente Médio, conhecido como Acordo de Abraão, que, para muitos, enterra a ideia de uma Palestina livre. Mais recentemente, o Marrocos tornou-se o primeiro país árabe a ingressar no Conselho da Paz de Trump. Rabat passou a ser um fornecedor estratégico de terras-raras à indústria estadunidense e incrementou de forma importante compras de material militar dos EUA. Em um ato de bajulação, o soberano deu o nome de Donald Trump a uma estrada que corta o país. Dias antes da crise migratória, Washington emitiu uma nota na qual descrevia Marrocos como “um pilar de estabilidade e segurança”. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ação orquestrada’

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