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A velha senhora Inglaterra resiste

Distantes da influência alemã, ao menos os ingleses mantêm o amor próprio preservado, o que não é pouco num mundo tão globalizado

A velha senhora Inglaterra resiste
A velha senhora Inglaterra resiste
O Príncipe Charles visita uma escola britânica. O distanciamento da União Europeia, neste momento de crise, parece fazer bem ao Reino Unido. Foto: AFP
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Os acontecimentos das últimas semanas na Europa deixam claro que o velho Império Britânico não chegou à toa a dominar nosso planeta “até onde o sol nunca se punha”. Ao negar-se a aderir à revolucionária e generosa ideia (no papel) de uma Europa unificada, sem fronteiras nacionais, com moeda e regras básicas únicas, a Inglaterra, como vem alegando, não apenas preservou sua identidade nacional, como o conceito isolacionista que perpassa sua própria situação geográfica. Se isso é bom ou ruim, é uma questão a discutir.

O fato é que a bela frase, segundo a qual “ninguém é uma ilha”, de pais duvidosos, desde o poeta inglês John  Donne, do século XVI até o mais recente Ernest Hemingway, não vale para a Grã-Bretanha. Desde os passos iniciais da Europa unificada, que teve seu experimento na Comunidade do Carvão e do Aço (Ceca), de 1951, o velho arquipélago do norte do continente, a “loura e pérfida Albion” como a chamam os franceses, sempre resistiu a fazer parte do conglomerado, em condições de igualdade. Certamente lhe agradaria algo parecido com a Commonwealth, que se pode traduzir como Comunidade Britânica de Nações. Ou seja, um aglomerado de antigas colônias, que se orgulham até hoje da influência – não da pilhagem, naturalmente – que sofreram da matriz imperial. Mas, isso, é óbvio, não interessaria aos parceiros europeus e ela acabou ficando de fora.

A crise econômica, sem dúvida, não poupa também os súditos de Sua Majestade, que enfrentam problemas comuns aos demais, como atividade econômica reduzida, desemprego e outras sequelas. Mas o fato de não frequentar o mesmo saco que Grécia, Espanha, Portugal e outros, submetidos a programas rigorosos controle do patrão alemão, que, em última análise, foi o fiador dos empréstimos que receberam para escapar da imediata insolvência, deixa os ingleses pelo menos com o amor próprio preservado. O que, convenhamos, não é pouco num mundo tão globalizado.

Mais uma curiosa ironia do destino: os derrotados de 67 anos atrás, são os vitoriosos de hoje. A sempre louvada disciplina, o amor ao trabalho duro e a firme adesão à fábula original da cigarra e da formiga tornaram a Alemanha, novamente, a senhora da Europa, e desta vez sem disparar um tiro. Felizmente, do outro lado do Canal, a velha senhora segue como alternativa, goste-se ou não dela. E, por obra e graça de seu orgulho nacional, que muitos podem chamar de nostalgia do império, continua oferecendo uma alternativa a quem se vê, ao menos temporariamente, obrigado a aceitar um outro tipo de império. Talvez até pior que o original, embora não pareça.

Os acontecimentos das últimas semanas na Europa deixam claro que o velho Império Britânico não chegou à toa a dominar nosso planeta “até onde o sol nunca se punha”. Ao negar-se a aderir à revolucionária e generosa ideia (no papel) de uma Europa unificada, sem fronteiras nacionais, com moeda e regras básicas únicas, a Inglaterra, como vem alegando, não apenas preservou sua identidade nacional, como o conceito isolacionista que perpassa sua própria situação geográfica. Se isso é bom ou ruim, é uma questão a discutir.

O fato é que a bela frase, segundo a qual “ninguém é uma ilha”, de pais duvidosos, desde o poeta inglês John  Donne, do século XVI até o mais recente Ernest Hemingway, não vale para a Grã-Bretanha. Desde os passos iniciais da Europa unificada, que teve seu experimento na Comunidade do Carvão e do Aço (Ceca), de 1951, o velho arquipélago do norte do continente, a “loura e pérfida Albion” como a chamam os franceses, sempre resistiu a fazer parte do conglomerado, em condições de igualdade. Certamente lhe agradaria algo parecido com a Commonwealth, que se pode traduzir como Comunidade Britânica de Nações. Ou seja, um aglomerado de antigas colônias, que se orgulham até hoje da influência – não da pilhagem, naturalmente – que sofreram da matriz imperial. Mas, isso, é óbvio, não interessaria aos parceiros europeus e ela acabou ficando de fora.

A crise econômica, sem dúvida, não poupa também os súditos de Sua Majestade, que enfrentam problemas comuns aos demais, como atividade econômica reduzida, desemprego e outras sequelas. Mas o fato de não frequentar o mesmo saco que Grécia, Espanha, Portugal e outros, submetidos a programas rigorosos controle do patrão alemão, que, em última análise, foi o fiador dos empréstimos que receberam para escapar da imediata insolvência, deixa os ingleses pelo menos com o amor próprio preservado. O que, convenhamos, não é pouco num mundo tão globalizado.

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