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A derrota de Matteo Salvini e as novas cores do governo da Itália

5 Estrelas e PD formam uma nova aliança para compor um governo ainda presidido pelo premier Conte

Foto: Vincenzo PINTO / AFP
Foto: Vincenzo PINTO / AFP

Talvez pareça estranho, talvez coincidência, talvez a tentativa de fornecer um bom exemplo, mas o governo italiano nascido da aliança entre a Lega e o Movimento 5 Stelle era representado pelas cores verde e amarelo. Caiu por obra da manobra urdida pelo líder leghista, Matteo Salvini, de ultradireita, com temperos mussolinianos, que provocou a demissão do premier Giuseppe Conte na certeza afoita de que iria substituí-lo e assumir o comando da Itália. Errou, o tiro, como se diz, saiu pela culatra, e sua derrota acaba de ser o ponto mais relevante da situação atual, a registrar a formação de um novo governo desta vez pelo entendimento entre o próprio 5 Stelle e o Partido Democrático, de centro-esquerda. E as cores agora são amarelo e vermelho.

O presidente da República, Sergio Mattarella, recebeu os líderes da nova aliança e autorizou as negociações para a composição do gabinete, a ser comandado pelo mesmo Conte, candidato desejado pelos pentaestrelados que, para tanto, dispõem da maioria parlamentar relativa a justificar a sua demanda, e até mesmo por Donald Trump a meter o bedelho além do Atlântico na situação da península.

O nome de Conte foi objeto de uma longa polêmica que em certos momentos pôs em perigo a negociação, resolvida ao cabo em nome da conveniência de se resolver logo a vacância. A resistência vinha dos democratas, mas encerrada a questão o líder do PD, Nicola Zingaretti, apresentou um robusto relatório “para indicar de forma límpida as nossas condições para tornar viável o novo governo”. Zingaretti insistiu nas duas premissas às quais o partido não renuncia: governo novo, também nos perfis, e uma mudança nos conteúdos.

Foto: Valerio Portelli/LaPresse via ZUMA Press

Um resultado já é evidente: Salvini foi derrotado, fato de importância não somente nacional porque interfere no destino da Europa. “Consequência de relevo, mas somente o êxito das políticas postas em prática pelo novo governo terão condições de garantir o enraizamento de nova situação.” Zingaretti evoca uma questão essencial: um fracasso da aliança recém-selada implicaria a chance de um retorno ao poder de Salvini, aquele que enxerga na União Europeia o mesmo que Mussolini atribuía à prepotência da Liga das Nações, antes da Segunda Guerra Mundial ensaio para a criação da ONU em tempos de paz.

Com ele, as cores do governo eram verde e amarelo, agora são amarelo e vermelho

Antes de um pronunciamento esclarecedor de Luigi Di Maio, líder do 5 Stelle, Zingaretti antecipa-se ao afirmar que à Europa “temos de propor, em um continente verde, uma Itália do trabalho e do crescimento, capaz de reconstruir um modelo de desenvolvimento que foi bloqueado, apostando na sustentabilidade ambiental e na equidade social”. Mais lacônico, Di Maio diz: “Temos um acordo político com o PD em relação a Conte para tentar formar um governo de longo prazo, e o papel do premier nos traz a garantia quanto às políticas que desejamos levar a cabo”.

Ao sair da conversação com Mattarella, Zingaretti esclareceu que seu partido aceitou Conte como primeiro-ministro por reconhecer nos pentaestrelados os detentores de uma maioria parlamentar relativa, e concluiu: “Amamos a Itália e achamos valer a pena fazer esta experiência, evitar a responsabilidade da coragem é a única coisa que não podemos nos permitir”. Não faltou por parte do presidente da República um telefonema ao ex, presidente honorário, Giorgio Napolitano, refinado, exemplar político de origem comunista, que já foi decisivo para neutralizar Silvio Berlusconi e suas veleidades de poder. Este, como era previsível, não perde a oportunidade de endossar a tese de Matteo Salvini e propor novas eleições. “Um governo de centro-direita (?) é impossível sem a presença de Forza Italia.” Ou seja, dele mesmo.

Di Maio e Zingaretti saem satisfeitos do encontro com o presidente da República / Foto: Andreas SOLARO / AFP

Do seu canto, Salvini clama: o premier Conte foi indicado pelo G-7. E mais: os aliados de hoje só têm algo em comum, “o ódio à Lega”. E “já brigam antes de governar, certo seria ir às urnas imediatamente”. Certo mesmo, a bem da UE, é tirar Salvini da ribalta, e da própria Itália, obrigada a digerir políticas ofensivas aos direitos humanos e às tradições certamente democráticas cultivadas a partir do fim da Segunda Guerra, e que agora se voltam contra ele.

Luigi Di Maio, depois do seu encontro com Mattarella, revela que Salvini tentou voltar atrás a ponto de lhe propor o posto de primeiro-ministro. “Agradeço com sinceridade, mas com a mesma sinceridade afirmo que penso no país e não em mim.” De fato, ele não reivindica no momento posto algum. Tampouco reivindica o ex-premier Matteo Renzi, hoje senador do PD: “Convido a todos a aposentar as ambições pessoais e contribuir para o bem comum”. Disse também não solicitar “que todos deem um passo atrás, como eu fiz: basta focar no objetivo de assegurar as instituições democráticas e a poupança dos italianos”. A referência a Salvini não podia faltar: “Tudo começou porque alguém pediu plenos poderes, mas poder não é um substantivo, é um verbo, poder mudar as coisas”.

Por exigência dos pentaestrelados, partido de maioria relativa, Conte é confirmado como primeiro-ministro com a bênção de Mattarella/Foto: Filippo MONTEFORTE / AFP

Domingo, às 9h30, Mattarella recebeu Conte para entregar-lhe o cargo de primeiro-ministro, uma vez que M5 e PD oficializaram a sua aliança para sustentar o novo governo. O partido Liberi e Uguali, de indiscutível esquerda, também garante o seu apoio.

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