Sobrevivente do atentado a Marielle rejeita hipótese levantada por viúva de Adriano da Nóbrega

Fernanda Chaves não crê que a vereadora tenha sido morta por disputa de terras na Gardênia Azul. 'Marielle nunca pôs os pés na Gardênia'

Sobrevivente do atentado a Marielle rejeita hipótese levantada por viúva de Adriano da Nóbrega

Entrevistas,Justiça

Rio de Janeiro – Única sobrevivente do atentado que tirou a vida da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e do motorista Anderson Gomes em março de 2018, Fernanda Chaves não vive mais com medo. “Não existe normalidade depois do que fizeram com Marielle. Mas existe uma vida pra tocar, alegrias, projetos, trabalhos…”, conta. Resta, contudo, a indignação. A demora em desmascarar os mandantes do crime e a última reviravolta no caso – com o afastamento das promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile, que comandavam as investigações, complica ainda mais a busca por um desfecho.

Em conversa com CartaCapital, ela rejeita a versão apresentada por Júlia Lotufo, viúva do ex-capitão Adriano da Nóbrega, segundo a qual Marielle teria sido morta por desafiar interesses de milicianos do bairro carioca de Gardênia Azul. “Isso não existe, Marielle nunca pôs os pés na Gardênia”, diz.

Fernanda teme que as mudanças de rumo nas investigações acabem interferindo no julgamento dos ex-policiais Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, apontados como os executores do atentado: “Por mais bem-intencionado que seja, o novo promotor estará caindo de paraquedas no processo”.

Há anos prestando um elogiado trabalho na área de direitos humanos, a jornalista hoje vê sua atuação profissional dificultada pela insegurança. E cobra solução: “Sigo esperando, não só como sobrevivente desse horror, mas como cidadã, como brasileira.”

Confira a seguir.

CartaCapital: O que representa o pedido de afastamento das promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile do comando das investigações?

Fernanda Chaves: Para mim, isso tudo é muito grave. As promotoras acompanham o caso há três anos e dominam o processo Marielle. Fizeram um trabalho que teve um reflexo enorme no combate ao crime organizado do Rio de Janeiro. Ao mergulharem fundo nessa investigação, elas chegaram e prenderam figuras poderosas do crime. Não à toa o nome da operação que elas encabeçaram era “Intocáveis”. Elas revelaram a existência do chamado Escritório do Crime, o que até então era tido como uma lenda urbana. Ousaram muito. Mexeram num vespeiro, correram muitos riscos, foram ameaçadas. E se mantiveram firmes até há pouco. O que seriam essas interferências agora que a levaram a deixar o caso? Isso precisa ser esclarecido em nome de um Estado democrático de direito. É muito sério!

CC: Você imagina os motivos que levaram à saída das duas?

FC: Sabemos que uma das motivações seria o fato de a delação da viúva de Adriano da Nóbrega ter sido conduzida pelo Ministério Público sem a participação das promotoras. Ora, se elas conduzem a investigação sobre Marielle e Anderson e se uma testemunha desse porte teria algo a revelar, não faz qualquer sentido que as promotoras não participassem dessa condução. Outro fato é que a delação de Julia Lotufo, tão anunciada midiaticamente, não trouxe novidades relevantes quanto aos supostos envolvidos na elaboração do crime. Mas, curiosamente, há uma deturpação com relação às motivações para o crime. Para mim aí está uma disputa de narrativa que mais tem relação com o período pré-eleitoral em que estamos.

CC: Você acredita nas informações prestadas pela viúva de Adriano da Nóbrega?

FC: Com essa delação, voltaram a bater na tecla fantasiosa de que Marielle incomodava as milícias de Gardênia Azul e que por isso teria sido assassinada. Isso não existe, nunca existiu. E falo com toda a tranquilidade e legitimidade de quem era uma das coordenadoras políticas do mandato da vereadora. Disputar território nunca foi política da Marielle que, acho, nunca pôs os pés na Gardênia. Combater milícias como vereadora é bem limitado, institucionalmente falando.

As pautas de frente de Marielle eram outras. Claro que ela se posicionava contra as milícias, o que qualquer pessoa sã, correta, com o mínimo senso de justiça e direito, faz. E ela era uma especialista em Segurança. Agora atuar, ainda mais in loco, não mesmo. Ela participava de debates, era representada pela assessoria nos encontros que debatiam regulação fundiária da Zona Oeste e tal. Mas, isso era protocolar e abrangente, havia outros vários parlamentares. E essa suposta motivação é completamente incondizente com as provas materiais que levaram à prisão os acusados de executarem o crime: Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz.

Claro que Marielle se posicionava contra as milícias. Agora atuar, ainda mais in loco, não mesmo

CC: A movimentação de Ronnie na internet que o levou à prisão, certo?

FC: Meses antes da execução, ele iniciou uma busca quase que obsessiva pelo Marcelo Freixo, pela CPI das Milícias, chegou a pesquisar sobre os familiares do Freixo, onde moravam, estudavam, etc. Depois passou a pesquisar pessoas relacionadas a ele, defensores de direitos humanos, figuras do PSOL, militantes e até artistas engajados. Até que ele chega em Marielle, que coordenou a Comissão de Direitos Humanos e era ex-assessora de Freixo e, sim, uma afilhada política, e começa freneticamente a pesquisar seus compromissos públicos e pessoais e, um tempo depois, a demonstrar que a seguia pela cidade cotidianamente.

Ora, se Ronnie assassinou a vereadora a mando de um miliciano, porque não foi direto ao alvo? Tentar emplacar essa motivação agora, para quem observa minimamente o tabuleiro eleitoral de um estado que historicamente tem o crime organizado influenciando os pleitos, é bem sintomático.

CC: Dá para confiar na delação de Julia Lotufo conduzida pela Polícia Civil?

FC: O anúncio das interferências sofridas pelas promotoras seria um escândalo em qualquer lugar sério. Seria mais que o bastante para que o procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Luciano Mattos, viesse a público explicar o que está acontecendo. Não só o procurador, mas também o governador, pela natureza dos cargos que ocupam. E em nome da transparência. Até porque, além deste episódio de serem alijadas da condução da delação da viúva de Adriano, já vieram a público outras situações de entrave para as investigações envolvendo a Polícia Civil. E teve ainda a saída do delegado responsável pelo caso. É muita reviravolta, são denúncias graves demais para que o procurador apenas lance uma notinha avisando que as procuradoras serão substituídas. E o governador sequer atende a família. Isso é desrespeitoso.

CC: As autoridades não estão sendo transparentes?

FC: Soubemos, pela imprensa também, que o procurador-geral recebeu um dossiê no qual as promotoras Simone e Letícia explicam os motivos pelos quais deixaram a força-tarefa que investiga o crime contra Marielle Franco e Anderson Gomes. Até agora ele não se manifestou. Sigo esperando, não só como sobrevivente desse horror, mas como cidadã do Rio de Janeiro, como brasileira. Até porque o raciocínio é lógico diante desses fatos: o que garante que o substituto dessas promotoras também não sofrerá interferência?

CC: Quais as consequências concretas e imediatas da reviravolta no caso?

FC: Outro fato angustiante nesse revés é que estamos próximos do Tribunal do Júri de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, acusados da execução. O processo do caso é enorme, possui mais de 40 volumes. As promotoras vinham se preparando com afinco para esse momento, dominavam absolutamente todo o conteúdo do processo e o que não está nele. Afinal, é práxis preparar estratégias-surpresa para a atuação da promotoria em plenário da Justiça. Por mais bem-intencionado que seja um novo promotor, ele estará caindo de paraquedas nesse processo tão complexo e, obviamente, terá atuação incomparável com a que teriam as promotoras Simone e Letícia. Isso é muito desanimador. Chega a ser revoltante.

CC: A  impunidade até aqui dos mandantes indigna boa parte da sociedade e mais ainda para os familiares. O que essa impunidade significa para você, que é a única sobrevivente do atentado e tem uma perspectiva emocional única sobre o que aconteceu?

FC: Acho que a impunidade, em geral, indigna a todos aqueles que defendem a justiça e a democracia, certamente. Sobretudo se considerarmos que o assassinato de Marielle Franco é o mais grave atentado político do século em nosso país. O mundo inteiro sabe e cobra por respostas. Claro que, como única sobrevivente desse crime, há outras camadas mais pessoais a se considerar. Talvez a mais contundente seja o fato de que quando você não sabe de onde veio – e nem por que – uma metralhada no carro em que você estava e matou cruelmente as duas outras pessoas que estavam com você, você não sabe do que se resguardar. Cerceia a sua liberdade, sobretudo quando se é uma jornalista com atuação em espaços de defesa de direitos humanos.

CC: Você tem medo de que essa tentativa se repita?

FC: Eu não vivo com medo. É claro que, conviver com o fato de ser a sobrevivente de um atentado para o qual até hoje não há resposta é atordoante. Então, eu vivo as consequências disso com responsabilidade e cuidados com a segurança. A vida ficou diferente e há algumas limitações por isso, como cuidados com localização, redução da exposição pública, mudanças… Não existe normalidade depois do que fizeram com Marielle. Mas existe uma vida pra tocar, alegrias, projetos, trabalhos… Inclusive até para lutar por justiça.

 

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Repórter colaborador de CartaCapital no Rio de Janeiro

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