Justiça

Sara Winter é uma página no extenso livro do nazismo bolsonarista

Se a bandeira da suástica estava jogada ao chão, está hoje reerguida pelos braços do bolsonarismo

A opinião de que o nazismo é de esquerda tem destaque na enciclopédia bolsonarista. Apesar da discordância geral – inclusive de autoridades alemãs -, Bolsonaro não poderia estar mais certo: o fato de se considerar à direita do nazismo é apenas uma das peças que compõem a orgulhosa herança do Terceiro Reich que a turma do ex-capitão adora ostentar publicamente.

Antes mesmo das eleições, gangues neonazistas já demonstravam apoio ao então parlamentar, famoso por vociferar racismos e anticomunismos tanto na imprensa, como na tribuna da Câmara. Orgulhoso, chegou a posar ao lado de um cartaz na porta de seu antigo gabinete contendo os dizeres de que “quem procura osso é cachorro”, fazendo pouco caso do drama das famílias que procuram os restos mortais de entes queridos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Em outro episódio odioso, agora em uma participação no finado CQC, respondeu a Preta Gil que seus filhos não corriam o risco de se apaixonar por uma mulher negra pois, tendo sido bem educados, não viveram em um ambiente de promiscuidade como o dela.

Bolsonaro não precisou esconder esse discurso para angariar apoio. Pelo contrário: tamanho extremismo acabou servindo de ímã.

Bolsonaro posa com sósia de Hitler em frente à Assembleia do Rio de Janeiro em 2015.

Neonazistas passaram a integrar as comitivas que o recebiam em aeroportos durante a campanha eleitoral, irrigada por declarações como as de que iria “metralhar a petralhada” e levar adversários à ponta da praia, local onde a ditadura militar brasileira executava opositores. O lavajatismo também foi atraído pela retórica hitlerista, acompanhado de facções da burguesia puxadas por Paulo Guedes, que em público se comprometia a domesticar Bolsonaro. Junto ao olavismo de Ernesto Araújo e Weintraub e ao fundamentalismo neopentecostal de Damares Alves, estava montada a vanguarda do obscurantismo.

A retórica de extermínio de adversários, traço indissociável do nazi-fascismo, voltou-se não apenas contra movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda, mas também contra grupos étnicos não-brancos. Em 2017, numa palestra para a comunidade judaica, Bolsonaro disse que, se eleito, acabaria com todas as reservas de terra de indígenas e quilombolas. Disse, ainda, que, em uma visita que fez a um quilombo, viu que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”.

E foi além, mostrando que realmente leva a sério a disposição de estar à direita de Hitler: “alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Não, porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado”, disse se direcionando a manifestantes que o vaiavam. Foi neste evento em que saiu a famosa afirmação da fraquejada na concepção de sua primeira filha, outro clássico do bolsonarismo.

Os sinais de que os derrotados de 1945 ganharam sobrevida no Brasil não param de se acumular. A imitação descarada de Goebbels, ministro da propaganda nazista, por Roberto Alvim, ex-Secretário de Cultura, se alinha não só às declarações racistas e misóginas de seu ex-chefe, mas ao palavrório anticomunista, ao ímpeto golpista e à proposição eugenista de isolamento vertical, que jogaria idosos no foco da pandemia. Dentre os efeitos práticos da aliança do governo com o novo coronavírus está exatamente o fato de serem vidas negras as mais ceifadas pela atual crise sanitária e econômica.

Coincidências? A foto que o presidente, muito faceiro, tirou ainda em 2015 com um sósia de Hitler é um recibo que serve de cola para as peças da suástica presentes nas situações acima. Na ocasião, o cosplay de Fürher, que concorrera à Câmara Municipal por seu ex-partido, recebera doações de Flávio Bolsonaro e acabara de ser proibido de discursar na tribuna do parlamento. Havia sido convidado, obviamente, pelo vereador Carlos Bolsonaro.

Pela ótica do governo, Alvim não errou por ser nazista, mas por ser indiscreto

O bolsonarismo demonstra não estar disposto a recuar. Após tentar reviver, de triste memória, as forças paramilitares do nazi-fascismo por meio da hoje desbaratada milícia autodenominada “300 do Brasil”, a ativista Sara Giromini, que chegou a liderar protestos em frente ao STF permeados por uma estética Ku Kux Klan, com máscaras brancas e tochas, tentou recentemente impedir o aborto no caso da criança de 10 anos de idade que vinha sendo vítima de estupro desde os 6.

Giromini – que se apresenta como Sara Winter – divulgou nas redes os dados da criança e o hospital onde o procedimento seria realizado, insuflando lunáticos bolsonaristas a organizar um piquete. A criança chegou a ser constrangida por profissionais da saúde na expectativa de que desistisse do aborto, completamente amparado por lei.

Mas não foi do nada que Giromini tirou esses métodos, como mostra seu perfil publicado na Piauí de agosto. A ativista foi expulsa do coletivo feminista Femen por simpatizar com ideias de extrema direita, chegando a tatuar o símbolo de uma condecoração militar adotada pelo Terceiro Reich. O Batalhão de Azov, organização nazista e paramilitar ucraniana, foi sua inspiração para criar os 300. “Não tenho dúvida nenhuma que Sara Winter é uma hitlerista. Ela estudou, leu muito sobre o nazismo”, concluiu a antropóloga social Adriana Dias após pesquisar o passado político de Giromini nas redes, cujo currículo conta também com a tentativa de trazer ao Brasil as cinzas de David Lane, líder nazista norte-americano morto em 2007.

Ativista bolsonarista Sara Winter. Foto: Reprodução/Twitter.

Não há registros do bolsonarismo desautorizar Giromini, que não perde a oportunidade de se colocar como a serviço do projeto e das ideias resumidas no início deste texto. A afeição com o nazismo, que alguns anos atrás não iria além de flertes, hoje bota a cara no sol e dá lugar a orgulhosas demonstrações públicas. Se a bandeira da suástica estava jogada ao chão, está hoje reerguida pelos braços do bolsonarismo. E os que a empunham deixam claro que pretendem ir até onde for possível para mantê-la à vista.

Na biografia “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mário Magalhães faz referência a Wilson Leite Passos, autor do pedido de impeachment de Vargas à Câmara dos Deputados, e do gosto que tinha em se vangloriar de sua pistola Walther, herdada de um oficial nazista. “Deve ter matado muito russo, muito comunista”, dizia.

Passos morreu em setembro de 2016. Não viveu o suficiente para presenciar a ascensão de Bolsonaro. Ficaria orgulhoso em ver que ainda há disposição em dar prosseguimento a suas ideias. Devemos cuidar para que elas voltem ao entulho de onde saíram antes que sua arma alemã seja também retirada de lá.

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