Rieli Franciscato, presente!

Seus ensinamentos e legado de luta junto aos povos indígenas estão eternizados

Rieli Franciscato, presente!

Justiça,Opinião

“O Bacurau falou para a onça abrir a boca, para ele ver o dente da onça. Ela abriu, ele cagou na sua boca, e ela vomitou e quase morreu. Ele voou e foi embora; aí a amiga da onça apareceu e falou: “O que foi?”. A onça contou. Sua amiga foi na maloca e queimou todas as espécies de milho, enquanto a onça continuava vomitando. Quando se encostou ao milho preto para queimar, a noite apareceu. A onça ficou sem saber o que fazer; esperou aparecer o dia; tentou acender o fogo mas não pegava. A noite durou uns três dias, a partir daí surgiu um dia e uma noite sempre atrás da outra. A onça, que de tanto vomitar tinha morrido, voltou a viver de novo”. (Narrado por Djurip Uru-Eu-Wau-Wau).

Rieli Franciscato, 56 anos de idade e mais de trinta de atuação na Funai. Sertanista e indigenista construiu sua história de vida dentro da mata, ao lado dos índios. Década de 1980, Rieli já estava na luta pela demarcação de terras indígenas e pela defesa da vida e do direito ao não-contato com brancos e a tudo que dele decorre.

Lendo sobre Rieli me deparei com um caminhar constante. Ele era discreto e estratégico, coisas de quem pisa na mata, reconhece sua grandeza e se integra. Sua discrição para lidar com o mundo, todavia, não o fez passar isento pela vida. Rieli significa corajoso, valente! Ele fez jus ao nome!

Enquanto “Isolados do Cautário”, em referência ao Rio local, dá nome ao Grupo da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, Rieli dá o tom do discurso quando diz que “quanto mais a gente conhece sobre eles, mais se distancia dos outros povos que vivem no entorno e do que tem descrito na literatura”[1].

Hoje, lidamos com comunidades indígenas acuadas pelo medo de um novo ataque; com um Pantanal em chamas; com recursos destinados à fiscalização das áreas de incêndio reduzidos; com queda das multas do Ibama relacionadas à proteção da flora na Amazônia; com mais de 133 mil mortos pela Covid-19 e pelo descaso. Hoje, o que está, realmente, acima de tudo e de todos são os interesses dos que lucram com a destruição.

A guerra travada por Rieli não era tão-somente uma guerra pela vida indígena, era muito mais do que isso. Era uma luta pelo reconhecimento da humanização deste povo, secularmente, submetido as mais diversas brutalidades. Era uma guerra para abrandar a nossa vergonha histórica.

Rieli sabia que viver transcende a ideia de estar vivo. Sabia que não há comunidade viva, senão por meio da preservação das condições materiais que lhe assegure a prática de seus hábitos, cultos e rituais. Sabia que existir dignamente não dispensa a reverência àqueles que vieram antes. A luta de Rieli era, sobretudo, uma luta pela continuidade. Uma luta que só pode ser liderada por quem tem a sensibilidade de enxergar as excelências de uma Tradição.

Dessa sabedoria, olhar eurocêntrico algum dá conta. Até porque, hierarquizar povos, inferiorizar dinâmicas culturais, destruir o próprio habitat são “coisas de branco”. A demonização de religiões e a síndrome da catequização também são.

Que a história de Rieli nos sirva para parar de viver sob a égide ocidental da centralidade. Parar de tratar o mundo como extensão do próprio umbigo. Parar de achar que só se faz ciência na Academia e parar de deslegitimar saberes e culturas ancestrais.

Assumir a legitimidade da luta indígena e se vincular a ela são obrigações de quem se compromete com a transformação. E sim, é sobre ter lado. Em um país construído sob as bases da colonização e do apagamento físico e epistêmico de populações originárias, se isentar é anuir e reproduzir o contexto de disparidades.

Com os índios e com as lições deixadas por Rieli, ainda podemos desaprender para que algo novo possa ser construído. Assim como fez a Flecha que o resgatou, que seu legado atravesse nossos corações, porque de onde eu venho pessoas como Rieli não morrem, se encantam.


[1] Em entrevista concedida para o livro Cercos e Resistências: Povos Indígenas Isolados no Brasil. Organização Fany Ricardo e Majoí Fávero Gongora. Instituto Socioambiental. 1ª Edição. São Paulo, 2019.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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