Nota do MPF é terraplanismo puro

A primeira coisa que chama atenção na nota é o fato de em nenhum momento terem contestado a veracidade de seu conteúdo

Gilmar Mendes autoriza conselho do MP retomar julgamento de Dallagnol

Gilmar Mendes autoriza conselho do MP retomar julgamento de Dallagnol

3ª Turma,Justiça

Pelo visto não é apenas Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, que flerta com as teorias lunáticas do terraplanismo.

Em resposta à devastadora série de reportagens do The Intercept Brasil sobre as entranhas da Lava Jato, o Ministério Público Federal divulgou nota que, além de mostrar que os procuradores não a leram, passou um monumental recibo de como a operação não passa de um grande convescote moralista e a autoritário.

A primeira coisa que chama atenção na nota é o fato de em nenhum momento terem contestado a veracidade de seu conteúdo; quando muito, recorrem ao argumento de que as afirmações foram retiradas de contexto, como se a pergunta feita por Moro a Dallagnol se “deveríamos rebater oficialmente” (no plural mesmo) as críticas do PT à Lava Jato precisasse ser contextualizada para que lhe fosse recuperada a auréola republicana furtada por um ardiloso e mal intencionado Glenn Greenwald.

Imaginem também qual o contexto que poderia conferir lisura e republicanismo ao “siga firme”, conselho motivacional dado por Sérgio Moro a Dallagnol após seus titubeios diante das confessas fragilidades das provas apresentadas contra Lula.

Obviamente, o “parabéns a todos nós” soltado por Moro após o êxito das manifestações contra Dilma diz respeito a uma comemoração coletiva de aniversários entre o ex-juiz e os procuradores da Lava Jato. Como não?

A nota segue se lamuriando sobre o vazamento – vejam vocês, lavajatistas reclamando de vazamentos… – e apontando o dedo para as supostas ações criminosas de um hacker. O The Intercept Brasil, porém, esclareceu de antemão em seus critérios editoriais que as informações foram passadas por fonte anônima diversa da que hackeou o celular de Moro na semana passada. A força tarefa busca claramente usar a conveniência desse episódio para construir sua narrativa, ainda que o ex-magistrado tenha dito que não houve captação de conteúdo.

Os lavajatistas seguem se colocando como vítimas, afirmando que tiveram suas vidas privadas devassadas. Se tivessem lido ao menos o preâmbulo editorial da reportagem, teriam visto que, diferentemente do que fizeram com as conversas privadas entre Lula e sua família, só foram divulgadas informações de interesse público. A preguiça do MPF é mais um indicativo da indolência intelectual da turma de Dallagnol, acostumados com os incensos cotidianos de uma imprensa servil e pouco disposta a enfrentar seus absolutismos.

O tom é também de esperneio. Procuram ditar regras sobre “bom jornalismo” – no caso, aquele que copia e cola os releases da assessoria de imprensa do MPF – e reclamam que não foram ouvidos. Contudo, uma olhadela na primeira parte da reportagem os faria se deparar com a explicação de que o veículo não os procurou exatamente para evitar que interferissem nas apurações e, principalmente, por que os diálogos falam por si mesmos.

Lembremos que se Moro foi capaz de grampear o telefone fixo de um renomado escritório de advocacia, interceptando conversas de vinte e cinco advogados com mais de trezentos clientes, avalie o que o furor monárquico dos lavajatistas é capaz de fazer com jornalistas de meios independentes.

Em suma, não negam o conteúdo de mensagens como as que demonstram a negociação de estratégias entre juiz e acusação e o elo antipetista que os une para impor uma derrota eleitoral a Haddad, mesmo que para isso tenha que se apunhalar a liberdade de imprensa.

Assombrosamente, permanecem insistindo que atuam de forma técnica e imparcial. Os arcanjos moralizadores da política nacional, no final das contas, não passam de um amontoado de terraplanistas agindo de forma consciente como linha auxiliar do bolsonarismo.

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