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Aos poucos, China isola Taiwan

por Deutsche Welle publicado 16/06/2017 00h18, última modificação 14/06/2017 10h57
Com generosos pacotes comerciais, Pequim continua a atrair para si os poucos países que ainda têm trocas formais com Taipei. O último foi o Panamá
Greg Baker / Pool / AFP
China e Taiwan

Negócio fechado: Isabel de Saint Malo, vice-presidente e ministra do exterior, cumprimenta Wang Yi, ministro do exterior da China, em 13 de junho

Por Klaus Bardenhagen

O governo taiuanês tenta digerir desde a terça-feira 13 mais uma derrota diplomática, após a decisão do Panamá de romper suas relações com Taiwan e estabelecer laços com a China. Pequim continua, assim, a atrair para si os poucos países que ainda têm trocas formais com a ilha.

Em busca de influência, Pequim e Taiwan tentam há décadas tirar aliados um do outro. Muitas vezes, oferecem generosos pacotes comerciais em troca de relações diplomáticas. Mas os taiuaneses têm dificuldades de competir ante uma China econômica e politicamente cada vez mais forte.

"Taiwan não pode aceitar isso", disse a presidente Tsai Ing-wen, visivelmente mais irritada do que em dezembro passado, quando o miniestado africano São Tomé e Príncipe mudou de lado. "Não podemos mais ficar de braços cruzados ao ver nossos interesses ameaçados."

Não foi por acaso que a primeira viagem internacional de Tsai como presidente, em junho de 2016, a tenha levado ao Panamá. Muito também por causa do Canal do Panamá, o país era visto entre os aliados latino-americanos de Taiwan como o mais importante.

Nos anos 1990, Taiwan tinha 30 aliados. Hoje, só 20 reconhecem a ilha formalmente como Estado – em sua maioria nações menores da América Latina e do Pacífico. Forte parceiro econômico chinês, o Brasil, por exemplo, não tem relação diplomática oficial com Taiwan.

"O Panamá carecia de relações diplomáticas com a China, Estado que representa 20% da população mundial e é a segunda maior economia. Esta é uma situação que um governante responsável não podia perpetuar", declarou o presidente panamenho, Juan Carlos Varela, ao fazer o anúncio.

Estratégia de aliciamento

Ainda não está claro como a presidente Tsai vai reorientar a política para Pequim. O Partido Democrático Progressista (DPP), liderado por ela, é considerado crítico da China. Entre os membros, estão pessoas que buscam mais independência da China continental e que a ajudaram a se eleger presidente em 2016.

A China tem uma profunda desconfiança em relação a Tsai. Para Pequim, a presidente quer estimular a independência formal da ilha, embora ela diga, ao menos publicamente, querer manter a paz com Pequim. Após a decisão do Panamá, Taiwan afirmou que não vai competir em um "jogo diplomático de dinheiro".

"Nosso governo expressa sérias objeções e uma rejeição forte em resposta ao fato de a China estar induzindo o Panamá a romper laços conosco, confinando nosso espaço internacional e ofendendo o povo de Taiwan", disse o chanceler de Taiwan, David Lee, em Taipei.

Que o aliciamento faz parte dos esforços de Pequim para isolar internacionalmente Taiwan ainda mais é óbvio para os taiuaneses – como castigo pela recusa de Tsai em reconhecer de alguma forma a política de "uma China única". Desde que ele foi eleita, Taiwan já perdeu três aliados.

Tsai Ing-wen
Tsai Ing-wen: indignação com a ofensiva de Pequim (Foto: Sam Yeh / AFP)

Nem a mídia chinesa, considerada a voz oficial do governo, esconde que existe uma competição diplomática. "Esse é o preço que o governo de Tsai deve pagar", disse o diário nacionalista Global Times, de Pequim. "Taiwan não pode se opor ao poder da China continental. Independência é um beco sem saída."

Vizinhos na mira

Mas muitos não culpam Tsai e seu partido pelo aliciamento do Panamá, avalia o especialista em Taiwan Jon Sullivan, da Universidade de Nottingham: eles veem a pressão como um "ataque à honra de Taiwan."

"O Panamá foi um aviso", diz Sullivan. Segundo ele, Taipei temer agora que os seus cinco aliados remanescentes na América Central – Nicarágua, Honduras, Guatemala, El Salvador e Belize – possam seguir os passos do vizinho, quiçá até ao mesmo tempo.

É mais provável, contudo, que gradualmente Pequim aumente ainda mais a pressão: afinal, aliciar praticamente cada um dos aliados de Taiwan, em sua maioria pequenos e empobrecidos, não é nenhum problema para a China.

A última joia da coroa agora é o Vaticano, como o único Estado europeu entre os aliados de Taiwan. Pequim o corteja de forma "agressiva" e também estaria disposta a fazer concessões ao Sumo Pontífice.

Não está claro quais seriam as consequências concretas para Taipei de um teoricamente possível fim de todas as relações diplomáticas. O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan já mantém escritórios de representação não oficiais em dezenas de países para seus diplomatas, inclusive em Berlim. A cada ano, alguns aliados de Taiwan levam o tema à Assembleia Geral da ONU, mas ainda sem efeitos. Seu significado é de natureza sobretudo simbólica.

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