A culpa pela destruição em Gaza também recai sobre Joe Biden

Continua incondicional o apoio dos EUA a Israel, independentemente das atrocidades contra os palestinos, escreve Glenn Greenwald

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: AFP

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: AFP

Glenn Greenwald

Para analisar o conflito interminável entre Israel e a Palestina, qualquer análise que não leve em conta dois fatos centrais será enganosa. O primeiro: Israel, com força militar e violência, ocupa terras palestinas há décadas. As Nações Unidas e o direito internacional reconhecem como pertencentes aos palestinos tanto a Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967, quanto a Faixa de Gaza, que tem o ar, a terra, as fronteiras e o mar controlados por Israel, mesmo depois da retirada de tropas em 2005.

Assim, a maioria dos palestinos passou a maior parte ou toda a vida – mais de 50% dos habitantes de Gaza têm menos de 21 anos, 40% têm menos de 14 – com uma potência militar estrangeira a controlar o seu povo. O dia a dia, para 2 milhões de habitantes do enclave, é uma crise humanitária. O único aeroporto foi bombardeado por Israel, as fronteiras fechadas por Israel e pelo Egito. Os moradores de Gaza estão presos nessa pequena faixa de terra que é hoje um dos locais mais densamente povoados do mundo.

Em suma, Gaza é uma prisão a céu aberto. É desolador ver os relatos nas mídias sociais de palestinos, em grande parte jovens bem conectados e educados, sonhando com lugares que um dia esperam visitar, se lhes for permitido sair. Na Cisjordânia, a vida consiste em submeter-se diariamente à humilhação de uma potência estrangeira, sem qualquer direito político ou representação democrática.

Por isso, qualquer discussão sobre o conflito que comece com “foguetes do Hamas” é enganosa. Poucas populações suportariam décadas de ocupação violenta sem reagir na mesma moeda. O desejo humano mais básico – liberdade e autonomia – é negado por Israel à maioria dos palestinos.

Joe Biden está entre os políticos mais pró-Israel de todos os EUA. Em quase 50 anos de vida pública, sempre tomou a posição pró-Israel mais extremista

O segundo fato fundamental é o papel indispensável dos Estados Unidos ao possibilitar a agressão israelense. Sem o apoio cego de ambos os partidos dos EUA – o Democrata e o Republicano –, seria impossível Israel manter essa postura de agressão infinita. Tão consolidado é o apoio dos EUA que o presidente Barack Obama, suposto defensor dos direitos humanos, aprovou e forneceu armamentos para a ofensiva israelense de 2014 que deixou mais de 10 mil palestinos mortos, dos quais mais de 3 mil crianças.

Ao longo de sua presidência, Obama defendeu Israel com a pergunta retórica: “Que país toleraria ataques de foguetes contra si?”, ignorando o contexto. Muito mais importante é a pergunta que Obama nunca fez: que país toleraria décadas de ocupação militar estrangeira?

Nem a interferência sem precedentes do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, na política interna dos EUA – que só faltou fazer campanha direta contra Obama – afetou o compromisso inabalável do democrata com Israel. Ainda que a abstenção dos EUA numa resolução da ONU declarando ilegais os assentamentos israelenses em Gaza – uma afirmação do óbvio – tenha sido um passo no sentido de rever o apoio incondicional, o acordo com Netanyahu para o fornecimento de um pacote recorde de 38 bilhões de dólares em ajuda militar mostra que o alinhamento incondicional permaneceu sob Obama.

Homem palestino chora em um hospital em Gaza, região atingida por Israel. Foto: Anas Baba/AFP

Assim, enquanto os israelenses desfrutam de um sistema de saúde e educação muito melhores do que o dos EUA, esse acordo significa que todos os anos os contribuintes norte-americanos enviam 3 bilhões de dólares, seu dinheiro, para um país estrangeiro oprimir, brutalizar, ocupar e matar cidadãos palestinos.

O sucessor de Obama, Donald Trump, deu continuidade ao apoio total. No início de sua primeira campanha presidencial, Trump falou em assumir uma postura mais “neutra” no conflito, mas logo se alinhou ao velho consenso. Uma das poucas vezes em que os democratas aplaudiram Trump foi na transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém, que feriu de morte a esperança na soberania palestina.

Joe Biden está entre os políticos mais pró-Israel de todos os EUA. Em quase 50 anos de vida pública, sempre tomou a posição pró-Israel mais extremista. Não surpreende, portanto, que a carnificina das últimas semanas em Gaza tenha sido apoiada por ele, que parece não dar nenhum valor às vidas palestinas. Por décadas, os liberais ocidentais afirmaram que a solução para este conflito era aquela de dois Estados: Israel e Palestina, em paz lado a lado. Isso agora é impossível, em grande parte devido à expansão das incursões israelenses na forma de “assentamentos”, que retalharam o território a ponto de não restar espaço para um Estado palestino.

Assim, Israel está rapidamente se tornando um apartheid: uma minoria judaica governando a maioria árabe que, tal qual seus irmãos sul-africanos na década de 1980, terá seus direitos políticos e civis negados. Qualquer observador decente veria a morte e a destruição em Gaza com horror. Condenar Israel é, no entanto, parte da história. A culpa também recai sobre o colo de Biden, sem o qual esse derramamento de sangue seria impossível.

Publicado na edição nº1158 de CartaCapital, em 20 de maio de 2021.
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Colunista de CartaCapital

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