20 anos de guerra no Afeganistão, duas décadas de mentiras dos EUA

Se há algo a aprender com o que acontece agora em Cabul é que não se pode confiar em informações oriundas das autoridades americanas

Membros do Taleban ocupam Kandahar, no Afeganistão. Foto: AFP

Membros do Taleban ocupam Kandahar, no Afeganistão. Foto: AFP

Glenn Greenwald,Opinião

Empregando as mesmas táticas enganosas desenvolvidas no Vietnã, oficiais militares e políticos dos EUA enganaram a população e mentiram sobre a situação no Afeganistão.

“O regime Taleban está chegando ao fim”, disse o presidente George Bush em um discurso em dezembro de 2001 – quase vinte anos atrás. Cinco meses depois, ele prometeu: “Os terroristas encontraram nos EUA um inimigo como nunca enfrentaram. Ficaremos até que a missão seja cumprida.” Quatro anos depois, em agosto de 2006, Bush afirmou: “A Al Qaeda e o Taleban perderam uma base importante no Afeganistão, e sabem que jamais vão recuperá-la quando a democracia florescer… Os dias do Taleban chegaram ao fim. O futuro do Afeganistão pertence aos afegãos”.

Por duas décadas, a mensagem que os líderes políticos e militares passaram para a população dos EUA sobre a guerra mais longa do país foi a mesma: o Taleban está perto de uma derrota definitiva. Os EUA estão equipando e fortalecendo as forças de segurança afegãs, que estão quase prontas para se defender por si próprias e garantir a estabilidade.

Menos de cinco semanas atrás, num pronunciamento na Casa Branca, o presidente Joe Biden insistiu que a tomada do Afeganistão pelo Taleban não era inevitável porque “o governo e as lideranças afegãs claramente têm a capacidade de sustentar o governo.” Em seguida, Biden rebateu veementemente a afirmação feita por um repórter de que “os serviços de inteligência dos EUA avaliam que o governo afegão provavelmente desmoronaria”. “É mentira. Eles não concluíram isso”, retrucou Biden.

Biden seguiu fazendo garantias: “a probabilidade de que haja um governo unificado no Afeganistão controlando o país inteiro é muito baixa” e acrescentou: “a probabilidade de que o Taleban domine tudo e controle o país inteiro é muito baixa”. E, em seguida, numa conversa que deve entrar para a história pela quantidade de mentiras emitidas do púlpito presidencial, Biden declarou o seguinte:

[REPÓRTER]: Sr. Presidente, alguns veteranos da guerra do Vietnã veem ecos da queda de Saigon nessa retirada do Afeganistão. Você vê algum paralelo entre essa retirada e o que aconteceu no Vietnã, já que muitas pessoas acham…

[PRESIDENTE BIDEN]: Não. De forma alguma. Zero. O que tivemos [em Saigon] foram brigadas inteiras  entrando na nossa embaixada. Seis [brigadas], se não me engano.

O Taleban não é o exército norte-vietnamita. Não são nem comparáveis em termos de capacidade. Não haverá nenhuma circunstância em que pessoas sejam evacuadas de helicóptero do telhado da embaixada dos EUA no Afeganistão. Não se pode comparar.

Quando perguntado sobre a possibilidade do Taleban estar mais forte do que nunca, mesmo depois de vinte anos ininterruptos de guerra travada pelos EUA, Biden afirmou: “Em termos de treinamento e capacidade [das Forças de Segurança afegãs] e de treinamento da polícia federal, [o Taleban] não chega nem perto”. No dia 21 de julho – menos de três semanas atrás – o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto nomeado por Biden, concedeu que havia “a possibilidade do Taleban assumir o controle total, bem como a possibilidade de diversos outros cenários”, mas insistiu: “as forças de segurança afegãs têm a capacidade suficiente para lutar e defender seu país”.

 

 

Garantias similares foram oferecidas pelo governo dos EUA e pelas lideranças militares do país desde o início da guerra. “Estamos perdendo essa guerra?”, o general Jeffrey Schloesser, comandante da 101st Airborne Division, perguntou retoricamente numa conferência de imprensa sobre o Afeganistão em 2008, e respondeu da seguinte maneira: “De jeito nenhum. O inimigo pode vencer essa guerra? De jeito nenhum.” Em 4 de setembro de 2013, então tenente-general Milley, hoje chefe do Estado-Maior Conjunto, reclamou que a mídia não estava dando o crédito merecido para o progresso obtido na construção e fortalecimento das forças afegãs: “[o] exército e as forças policiais [afegãs] estão sendo extremamente efetivas no combate aos insurgentes diariamente”, insistiu.

Nada disso era verdade. Sempre foi mentira, planejada para inicialmente justificar a ocupação sem fim daquele país e, posteriormente, quando os EUA se preparavam para deixá-lo, inventar um conto de fadas agradável sobre porque os 20 anos de aventura militar no Afeganistão não foram, no melhor dos casos, um desperdício total. Qualquer pessoa que veja as imagens oriundas do Afeganistão nos últimos dias pode comprovar a falsidade dessas afirmações. Qualquer pessoa que esteja assistindo a retomada do país pelo Taleban pode ver que as tão louvadas “forças de segurança afegãs” não passavam de ilusões. Mas como podemos afirmar que essas afirmações, feitas nos últimos 20 anos, foram realmente mentiras deliberadas, e não somente afirmações equivocadas feitas com sinceridade?

Para início de conversa, nós vimos essas táticas por parte de oficiais dos EUA – mentir para o público sobre as guerras com objetivo tanto de justificar seu início quando sua continuidade indefinida – serem empregadas repetidamente. A guerra do Vietnã, como a do Iraque, foi justificada com base numa mentira deslavada: O famoso episódio do Golfo de Tonkin, disseminado pelas agências de inteligência e endossado pela mídia corporativa, foi a razão oficial para a escalada militar dos EUA no Vietnã. O problema é que o suposto ataque lançado pelos vietnamitas contra embarcações norte-americanas em Tonkin jamais aconteceu.

Em 2011, o então presidente Obama, que ignoraria a decisão do Congresso negando autorização para envolvimento dos EUA na guerra na Líbia para remover Muammar Gaddafi, justificou a participação da OTAN no conflito negando que o objetivo fosse uma mudança no regime do país: “nossa missão militar tem o objetivo estreito de salvar vidas. Ampliar o escopo de nossa missão militar para mudança de regime seria um erro.” Entretanto, mesmo enquanto Obama fazia essas falsas garantias, o New York Times publicou uma matéria reportando que “as forças militares dos EUA estão conduzindo uma campanha aérea expansiva e cada vez mais potente para compelir o exército líbio a se rebelar contra Gaddafi.” Ou seja, mudança de regime era sim o objetivo.

Da mesma forma que fizeram na guerra do Afeganistão, líderes políticos e militares dos EUA mentiram por anos para o público americano sobre a possibilidade de vitória no Vietnã. Em 13 de junho de 1971, o New York Times publicou reportagens baseadas em milhares de documentos secretos vazados do Pentágono, no que acabou conhecido como Pentagon Papers. Vazados por Daniel Ellsberg, ex-Oficial da RAND, think thank de apoio às forças armadas do país, que afirmou que não poderia em sã consciência permitir que tantas mentiras fossem disseminadas sobre a situação no Vietnã, os Pentagon Papers se tornaram um dos vazamentos mais importantes do jornalismo norte-americano. Esses papéis revelaram que oficiais do governo, quando em ambientes privados, eram muito mais pessimistas sobre a possibilidade de derrotar as forças do Vietnã do Norte do que diziam em público. Para marcar os 50 anos de sua publicação, o Times relembrou algumas das mentiras expostas por esses documentos.

Segurando uma metralhadora chinesa capturada, o Secretário de Defesa Robert S McNamara apareceu numa conferência de imprensa em 1965. Os EUA haviam recém enviados suas primeiras tropas para o Vietnã do Sul, e o novo esforço, ele se gabou, estava desgastando ainda mais o já enfraquecido Vietcong.

“Nos últimos quatro anos e meio, o Vietcong, os Comunistas, perderam 89.000 homens”, afirmou. “Dá pra ver o peso dessas perdas”.

Era mentira. Por meio de relatórios confidenciais, McNamara sabia que a situação era “ruim e se deteriorando” no sul. “O VC tem a iniciativa”, dizia o relatório. “O derrotismo está crescendo entre a população rural, em alguma medida nas cidades, até entre os soldados [sul-vietnamitas].

Mentiras como essa de McNamara foram a regra, não a exceção, durante todo o envolvimento dos EUA no Vietnã. As mentiras eram repetidas em público, no Congresso, em sessões restritas, em discursos e para a imprensa.

É possível que a história verdadeira tivesse ficado oculta se, em 1967, McNamara não tivesse encomendado um levantamento histórico, baseado em  documentos secretos, que se tornariam os Pentagon Papers. Àquela altura, ele sabia que, mesmo com 500 mil tropas dos EUA atuando, a guerra estava num impasse.

Esse padrão de mentiras foi virtualmente idêntico durante os vários governos a assumirem o poder desde o início da Guerra no Afeganistão

Em 2019, o Washington Post, numa clara referência aos Pentagon Papers, publicou uma reportagem sobre documentos secretos que chamou de “Os Papéis do Afeganistão: uma história secreta da guerra.” Sob a manchete “EM GUERRA CONTRA A VERDADE”, o Post resumiu a matéria da seguinte forma: “Oficiais dos EUA afirmaram constantemente que estavam obtendo progresso. Não estavam, e sabiam disso.” E explicaram

Ano após ano, generais dos EUA disseram em público que estavam obtendo progresso no eixo central de sua estratégia: treinar um exército afegão robusto e uma força policial nacional capazes de defender o país sem assistência estrangeira.

[Numa rodada de] entrevistas chamadas de Lições Aprendidas [sobre a experiência dos EUA no Afeganistão], porém, militares dos EUA responsáveis pelo treinamento descreveram as forças afegãs como incompetentes, desmotivadas e repletas de desertores. Eles também acusaram comandantes afegãos de ficar com o salário – pago pelo contribuinte dos EUA – de dezenas de milhares de “soldados fantasma”.

Nenhum dos militares expressou qualquer confiança de que o exército ou polícia afegãs poderiam repelir, muito menos derrotar, o Taleban sozinhos. Mais de 60 mil membros das forças de segurança afegãs foram mortos no conflito, o que os comandantes dos EUA consideraram insustentável.

Como explicou o Post, “os documentos contradizem um longo refrão de declarações públicas de presidentes, comandantes militares e diplomatas que asseguraram o público norte americano ano após ano que estavam fazendo progresso no Afeganistão e que valia a pena continuar a guerra”. Esses documentos afastam qualquer dúvida de que as falsidades eram mentiras intencionais.

Vários dos entrevistados descreveram esforços explícitos e sustentados por parte do governo dos EUA de enganar deliberadamente o público. Eles disseram que era comum no Quartel General em Kabul – e na Casa Branca – que estatísticas fossem distorcidas para dar a entender que os EUA estavam ganhando a guerra quando esse não era o caso.

Todos os dados foram alterados para formar a melhor imagem possível,” disse Bob Crowley, um coronel do exército que serviu como conselheiro sênior de contrainsurgência para os comandantes militares dos EUA em 2013 e 2014. “Pesquisas, por exemplo, não eram nada confiáveis, mas reforçavam a ideia de que tudo ia bem e que tudo fazíamos estava certo, numa espécie de profecia auto-realizável.”

John Sopko, chefe da agência federal que conduziu as entrevistas, reconheceu ao Post que os documentos mostram que “mentiram constantemente para a população dos EUA “.

No mês passado, o jornalista independente Michael Tracey, entrevistou um veterano da guerra no Afeganistão em seu substack. O ex-soldado, que trabalhava em programas de treinamento para a polícia afegã e que também participou de treinamentos do exército afegão, descreveu em detalhes porque esse programas de treinamento foram um fracasso total, ou até mesmo uma farsa: “eu não acho que seja possível para mim exagerar o quanto esse sistema foi desenhado basicamente para sugar dinheiro e desperdiçar ou sumir com equipamentos”, ele afirmou. Em resumo, “no que diz respeito à presença militar dos EUA lá, eu vejo tudo como uma grande operação para desviar dinheiro”. Em outras palavras, foram 20 anos de uma guerra que serviu basicamente como uma fonte inesgotável de dinheiro para empresas de segurança dos EUA e senhores da guerra afegãos, num teatro em que todos sabiam que não havia nenhum progresso concreto alcançado mas mantinham a farsa de pé para continuar sugando a maior quantidade possível de recursos antes da inevitável retirada do país e reconquista pelo Taleban

À luz disso tudo, é inconcebível que as repetidas falsidades proferidas por Biden acerca do estado de preparação das forças afegãs não fossem intencionais. Isso fica ainda mais óbvio quando se considera o altíssimo nível de vigilância e espionagem que os EUA realizavam no Afeganistão. Conforme detalhado no arquivo passado a mim por Edward Snowden, os EUA submeteram o Afeganistão a todas as formas possíveis de espionagem eletrônica por mais de uma década. Em respeito às exigências feitas por Snowden, a maior parte dos documentos tratando da espionagem dos EUA no Afeganistão não foi publicada porque poderia colocar vidas em risco sem que houvesse ganhos para o interesse público. Entretanto, outros documentos publicados nos permitem vislumbrar o quão monitorado o país era pelos serviços de segurança dos EUA.

Em 2014, publiquei uma reportagem junto com Laura Poitras e outro repórter mostrando que a NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) desenvolveu a capacidade, sob o codinome SOMALGET, que os permite “interceptar, gravar e arquivar secretamente o áudio de praticamente qualquer conversa por telefone celular” em pelo menos 5 países. A qualquer momento, a agência podia escutar conversas arquivadas de qualquer chamada telefônica feita por celular em qualquer lugar desses países. Ainda que tenhamos publicado os nomes de quatro desses cinco países, decidimos, após extensivos debates no The Intercept omitir o nome do quinto país – Afeganistão – por que a NSA havia convencido alguns editores que essa informação permitiria ao Taleban identificar o local de onde o programa era conduzido e assim colocar em risco a vida dos funcionários envolvidos (de modo geral, à pedidos do Snowden, evitamos publicar documentos referentes à atividades da NSA em zonas de guerra deflagradas exceto quando imprescindível). Entretanto, o WikiLeaks eventualmente revelou, acertadamente, que o país cujo nome omitimos era o Afeganistão.

Não havia praticamente nada acontecendo no Afeganistão sem que os serviços de inteligência dos EUA ficassem sabendo. Não é razoável supor que eles se equivocaram sobre todos os fatos numa tentativa sincera e inocente de informar o público sobre o que se passava no país.

Em suma, líderes políticos e militares dos EUA vem mentindo repetidamente para o público americano há duas décadas sobre as possibilidades de sucesso no Afeganistão no geral e sobre a capacidade das forças de segurança afegãs especificamente. Esse teatro se estendeu até cinco semanas atrás, quando Biden rejeitou veementemente a ideia de que a retirada dos EUA pudesse resultar numa retomada do Taleban. Inúmeros documentos, mantidos ocultos do público mas de amplo conhecimento das autoridades relevantes, provam que os oficiais dos EUA sabiam, sem sombra de dúvida, que o que eles estavam dizendo era falso, chegando até a falsificar ou distorcer informações para manter as mentiras de pé, numa repetição exata da conduta em guerras anteriores.

Qualquer dúvida que ainda reste da falsidade dessas duas décadas de afirmações otimistas foi destruída pela reconquista imediata – e fácil – do país pelo Taleban, como se as tão louvadas forças de segurança afegãs sequer existissem. É importante não somente lembrar da facilidade e da frequência com que as autoridades dos EUA mentem para o público sobre suas guerras, mas aprender essa lição para a próxima vez que um líder dos EUA propuser uma nova invasão empregando as mesmas táticas de mentira, manipulação e falsidades.

 

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Colunista de CartaCapital

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