Esporte
Há um mês, Fifa dava o ‘Prêmio da Paz’ a Donald Trump
À época, Washington já bombardeava embarcações no Mar do Caribe e preparava o terreno para a invasão a Caracas
A Fifa iniciava em 5 de dezembro o aguardado sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2026 quando seu comandante entregou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o primeiro “Prêmio da Paz”, uma honraria supostamente destinada a reconhecer os esforços daqueles que contribuem com a união global.
Foi, na prática, um ato de bajulação após Trump fracassar em sua campanha para vencer o Nobel da Paz. Agora, a homenagem concedida pela entidade máxima do futebol completa um mês, dois dias depois de os Estados Unidos bombardearem Caracas e sequestrarem o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, já levado a Nova York.
Em 28 de fevereiro de 2022, a Fifa suspendeu a seleção da Rússia de suas competições, em reação à invasão da Ucrânia pelas forças de Vladimir Putin, quatro dias antes. Na ocasião, a federação afirmou que o futebol estava “totalmente unido e em plena solidariedade” com os ucranianos.
Agora, porém, não há qualquer ilusão a respeito de punições esportivas aos norte-americanos. Além da constante adulação do presidente da Fifa, Gianni Infantino, a Trump, os Estados Unidos serão uma das três sedes do próximo Mundial e Los Angeles receberá os Jogos Olímpicos de 2028.
Não é novidade. A Fifa também fez ouvidos moucos para cobranças por uma sanção esportiva a Israel, em meio aos ataques do Exército de Benjamin Netanyahu contra os palestinos na Faixa de Gaza. Em novembro, as autoridades do enclave anunciaram que mais de 70 mil pessoas morreram desde o início da guerra, em outubro de 2023, deflagrada após um atentado do Hamas em solo israelense.
A inércia não se restringiu à Fifa: no fim de 2025, dezenas de esportistas solicitaram à Uefa — a confederação europeia de futebol — o banimento de Israel de torneios internacionais, sem sucesso. Apoiavam a carta jogadores destacados como Paul Pogba (Monaco), Adama Traoré (Fulham) e Hakim Ziyech (Wydad Casablanca). A mesma Uefa havia afastado os clubes russos de seus campeonatos em 2022.
Semanas antes da divulgação da carta, no início de outubro, Infantino declarou não poder “resolver problemas geopolíticos”, ante o crescente apelo por uma punição a Israel. Ao menos por ora ele obteve um alívio, uma vez que a seleção israelense falhou em sua tentativa de se classificar para a Copa.
Quando Infantino entregou o “Prêmio da Paz” a Trump, a invasão norte-americana à Venezuela ainda era incerta, mas as ações do republicano frente a Caracas já estavam muito distantes da promoção do bem-estar na região.
Os Estados Unidos realizam desde agosto uma grande mobilização militar no Mar do Caribe, e no mês seguinte lançaram os primeiros bombardeios contra supostas embarcações do tráfico de drogas — embora as provas das acusações jamais tenham vindo à tona. Pelo menos 115 pessoas morreram em 35 ofensivas do tipo.
“Queremos de um líder que se preocupe com as pessoas. Queremos viver em um mundo seguro, em um ambiente seguro. Queremos nos unir”, disse Infantino a Trump. “O senhor certamente merece o primeiro Prêmio da Paz da Fifa por sua atuação, por tudo o que conquistou, e o fez de uma maneira incrível.”
Naquela cerimônia, Gianni Infantino não mencionou o bombardeio norte-americano ao Irã, em junho, nem a perseguição de Trump a imigrantes ou a universidades, por exemplo. Disse, contudo, que o ajudaria “a construir a paz e fazer o mundo prosperar”.
Daqui a exatos cinco meses e sete dias, a seleção dos Estados Unidos estreará no Mundial em Los Angeles, contra um adversário sul-americano, o Paraguai — cujo presidente, Santiago Peña (direita), celebrou a queda de Maduro, líder de um “regime ilegítimo e ditatorial”.
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