‘O Brasil é muito macumbeiro. Mas o racismo impede que a pessoa se autodeclare’

Sidnei Nogueira, babalorixá finalista do Prêmio Jabuti, traz o debate sobre racismo religioso em sua obra 'Intolerância Religiosa'

Pai Sidnei Nogueira/Foto: Gui Christ

Pai Sidnei Nogueira/Foto: Gui Christ

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Professor, doutor em semiótica, homem de terreiro, Babalorixá. Não necessariamente nessa mesma ordem, este é Sidnei Nogueira, ou Pai Sidnei de Xangô, um dos dez autores indicados ao Prêmio Jabuti 2021, na categoria Ciências Humanas. Com o livro Intolerância Religiosa, lançado pela editora Jandaíra, na coleção Feminismos Plurais, coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro, Pai Sidnei debate o racismo no Brasil contra os adeptos de religiões de matriz africana.

Em entrevista à CartaCapital, ele conta um pouco de sua trajetória e fala da importância da indicação inédita e da ampliação da discussão sobre o tema no País. No livro, por meio de dados do Disque 100, canal do Estado que recebe denúncias de violações de direitos humanos, Pai Sidnei mapeou como se dá a propagação de ataques racistas a praticantes de religiões como o Candomblé e a Umbanda.

Um trabalho minucioso, que conta também com a contribuição de homens e de mulheres de terreiro de todo o Brasil: “como liderança religiosa, tenho muito trânsito entre as comunidades de terreiro do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia. E na pesquisa, eu dialoguei com essas pessoas. Por isso digo que a intolerância religiosa não é a voz do escritor Sidnei. O escritor Sidnei foi apenas instrumento para colocar no papel diversas vozes desesperadas por um grito antirracista”.

Na entrevista, Pai Sidnei também destaca o capítulo 3 da obra, intitulado Epistemologia de Terreiro como Cura. Segundo ele, as religiões de matriz africana, e sua cultura da encruzilhada, podem indicar à humanidade um novo caminho civilizacional, baseado não mais em escolhas definitivas, mas, sim, em mudanças contínuas: “a profissão pode estar lhe fazendo mal: “não. Você não escolheu sua carreira? Você vai até o fim”. Essa é a cultura de mão única, é a cultura ocidental, é a cultura do controle. A nossa cultura de terreiro não é assim. É a cultura em que eu volto para o centro da encruzilhada e pego a direita ou a esquerda ou o centro. Eu faço um outro caminho. A nossa cultura é a cultura de viver com leveza”.

O livro Intolerância Religiosa é o 5º título da coleção Feminismos Plurais, lançado pela editora Jandaíra e coordenado pela filósofa Djamila Ribeiro.

Confira a entrevista:

CartaCapital – Poderia falar da importância da indicação do livro ao Prêmio Jabuti e da importância do debate sobre intolerância religiosa e racismo no País?

Pai Sidnei – Eu penso até que a indicação, entre mais de 3500 livros, não sei quantos na categoria “Direitos Humanos”, mas de qualquer maneira, a indicação tem a ver com uma disputa de narrativas. Nós estamos num momento em que a democracia está muito fragilizada, justamente, pela falta de oposição. Sabemos que a democracia nasce das tensões. Uma democracia se sustenta por conta de tensões, por conta de um jogo de forças. E isso é saudável. Fora disso, é ditadura. Fora das tensões, fora de um jogo de forças, não é mais democracia, é ditadura. E nós vimos no último censo – era para ter um novo este ano, mas não tivemos – nós, das religiões afro-diaspóricas, aparecemos apenas como 1,5%, de afrorreligiosos. No final de 2009, o Datafolha fez uma nova pesquisa sobre as religiões no Brasil, nós aparecemos com 2%. Mas isso não é verdade. Nós, afrorreligiosos, somos a terceira ou a quarta religião do Brasil.

O Brasil é muito macumbeiro. Mas o racismo impede que a pessoa se autodeclare de terreiro.

[A autodeclaração] Seria como colocar sobre si mais um estigma. Porque tem a ver com as camadas de subalternização. Quer dizer: pobre, preto, macumbeiro. São camadas de subalternização. Então, eu penso que o primeiro ponto é que essa obra é fundamental porque, embora seja uma obra sobre o racismo religioso, ela é antes de tudo uma obra sobre o racismo. É uma obra que quer tensionar sobre a desigualdade brasileira. Porque racismo tem a ver com desigualdade e exploração capitalista. É disso que se trata o racismo. Racismo-desigualdade-exploração capitalista. É a partir da desigualdade que eu decido quem vai ser o explorador e quem vai ser o explorado. Estamos muito felizes porque já vendemos, entre os impressos e ebook, 22 mil exemplares. E isso conta também para a indicação porque conta para o alcance popular da obra.

Isso quer dizer que as pessoas querem tencionar. Elas estão incomodadas com o sistema político, com uma força do Executivo que beira a ditadura. Elas estão incomodadas. E eu escrevi para ser lido por todos. Muito embora eu seja um cientista, eu seja um acadêmico, eu sou, antes de tudo, professor. Eu sou professor desde os meus 21 anos de idade. Começo lá no Ensino Fundamental 1, que antigamente era o 1º grau, o primário. Eu, quando escrevi essa obra, escrevi para ela ser lida por todos. Ela não tem aquele tom academicista, aquele tom pesado. Então, eu acredito muito – não tenho os dados – mas eu acredito que há muitos jovens lendo; os professores têm me dado um feedback de que têm usado essa obra em sala de aula, no Ensino Médio, no Ensino Fundamental, na Universidade. Ou seja, é uma obra que tem uma capilaridade por conta da linguagem que eu utilizo, que eu fiz questão de utilizar. Uma linguagem acessível, para que qualquer pessoa possa ler e entender. E eu penso que isso também está no jogo da aceitação da obra.

CC – O senhor vê certa contradição no Brasil? Ao mesmo tempo em que existe um avanço do debate nas escolas, no ensino, sobre religiões de matriz africana, há também retrocessos, como o fato de o STF precisar julgar a constitucionalidade do sacrifício de animais em cultos religiosos?

PS – Eu penso que a melhor palavra para definir o Brasil é essa: contradição. O Brasil é um paradoxo, uma eterna contradição. Mas por quê? Porque o Brasil é a prova cabal de que o sistema capitalista sobrevive a partir da exploração. Então a contradição se dá por qual motivo? Todos nós sabemos que o Brasil é “O País”. Aquela ideia de que “plantando, tudo dá” é verdade. Quem conhece outros países, sabe que o Brasil é um país maravilhoso, é um país fértil. Mas o que acontece? Essa criminalização do abate religioso, que começa no Rio Grande do Sul por forças políticas evangélicas, diz respeito a um contra-ataque. Hoje, a política está muito tomada por um discurso religioso que virou moeda de troca e espaço de conversão política. Então, quando uma bancada evangélica no Rio Grande do Sul decide criminalizar o que já está garantido constitucionalmente, que é a liberdade de crença, isso, em alguma medida, já diz respeito a um contra-ataque.

Isso quer dizer que eles estão sentindo a nossa voz. Porque nós, a cultura negra, a religiosidade negra, os corpos negros, viveram mais de três séculos de silenciamento.

E quando nós começamos a ter voz, começamos a ocupar os espaços políticos, pela Lei 10.639/2003, começamos a ir às escolas para levar os saberes pretos ancestrais, nós começamos a sofrer um contra-ataque. Isso tem a ver com um contra-ataque.

CC: Como assim?

PS: E é essa a eterna contradição. Porque quem não quer um país plural, um país de debate aberto, não somos nós. Eu tenho dito muito isso. Nós, da nossa cultura de terreiro –  e agora eu falo como Babalorixá – não queremos que todo mundo seja de Umbanda, de Candomblé, de Jurema, de Xambá, de Batuque. Nós não queremos, porque a nossa cultura não se baseia na inexistência do outro. A nossa cultura não precisa que a outra religião, o outro jeito de pensar, o outro jeito de desejar, de estar no mundo, deixe de existir para que existamos.

Essa não é nossa cultura. A nossa cultura é do “e”, conjunção aditiva, não é do “ou”, conjunção alternativa excludente. A nossa cultura é do “e”. Portanto, nós queremos nos somar a evangélicos, a cristão, a budistas, a hare krishnas, a ateus. Nós não vemos essas outras crenças como erradas, demoníacas ou incertas. A grande questão é que a força política começou a nos usar como responsável por todos os males do mundo, para poder vender a salvação. E aí a gente começou a gritar: “Opa. Isso não é verdade”. É o que eu escrevo no livro Intolerância Religiosa.

No 3º capítulo do livro, escrevo sobre o que estou chamando de Epistemologia de Terreiro como Cura. Não só como cura para o racismo, mas como cura de uma sociedade, hoje, em que odiar é imperativo. Isso é muito grave. Nós vivemos em uma sociedade em que odiar é imperativo; em que as pessoas usam a morte para ter ‘likes’; usam a rede virtual para destruir. Quer dizer: estamos vivendo uma História devastadora, e estamos efetivamente nos desumanizando, no sentido mais amplo do verbo “desumanizar-se”. E no 3º capítulo do livro eu faço questão de dizer às pessoas que nós falaremos por nós.

Porque a História negra no Brasil não é uma História contada por negros. É uma História contada pelo colonizador. Pelo branco-euro-cristão-cis-hétero-normativo-patriarcal. A História do negro no Brasil é contada pelo pastor, pelo padre. Inclusive nos púlpitos.

 

CC: Como foi o processo de escrita do livro?

PS: E eu pedi à Djamila, falei: “Djamila, eu sei que o livro é sobre intolerância/racismo religioso, mas eu preciso colocar os saberes pretos dos ancestrais de terreiro no livro”. Ela falou: “pai, o senhor é uma autoridade civilizatória. Escreve o que quiser”. E eu fui, consultei Exu e ele falou: “escreva”. Portanto, eu dedico o 3º capítulo a dizer quem nós somos. Como a nossa cultura vê o mundo, vê a morte, vê a humanidade, o homem, a mulher, a encruzilhada, os desejos, a vida, a natureza.

Estou inclusive escrevendo o segundo livro ampliado sobre esses saberes pretos ancestrais de terreiro. Porque tudo isso está no terreiro. Está contaminado pelo colonialismo, mas está no terreiro. Nós temos a nossa cultura. A nossa cultura não é excludente; a nossa cultura não é genocida; a nossa cultura não criminaliza jovens, crianças e os mais velhos. Muito pelo contrário. Existe um provérbio nosso que diz: “cabelo branco é coroa”. O que isso quer dizer? O mais velho é rei. Os Iorubás dizem: “ajoelhemo-nos diante do cabelo branco”. É a nossa cultura de terreiro. A criança é o tesouro, porque é responsável pela nossa ancestralidade. Ela vai nos imortalizar. Os meus filhos que amanhã contarão minhas histórias. Não há nenhuma mística na imortalidade e na ancestrallização de terreiro. É a ciência do não esquecimento. Quando, amanhã, nós formos capazes de edificar uma história que será contada pelos nossos filhos, por aqueles que nos ouvem, nós somos ancestrais, nós somos imortais.

CC – E como a pesquisa para o livro foi feita?

PS – O convite surgiu em 2017. Eu queria fazer um trabalho de escrita, reescrita; de dormir com o livro, acordar, ler de novo. Me dediquei três anos ao livro, dediquei muito carinho, faz parte da minha trajetória na luta antirracista. Em 2017, o serviço do Disque 100 estava a pleno vapor. Ainda tínhamos um Ministério, a Fundação Palmares também a pleno vapor, a Seppir (Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Ou seja, nós tínhamos força política. Não do modo como queríamos, mas, minimamente, tínhamos uma força política.

Os dados do Disque 100 começam a cambalear em 2018. Em 2019, “quebra as pernas”, mas em 2017 ainda estavam bons. Então, a minha primeira fonte de pesquisa foi o Disque 100, que, hoje, é da Secretaria de Direitos Humanos. Como a fake news tomou conta do Brasil, parece que não há mais racismo, não há violência familiar, não há pedofilia, não há nada disso. O Disque 100 registrava todos os tipos de violência: violência contra a mulher, violência contra crianças, racismo, violência religiosa. E eu utilizei esses dados para ver o racismo religioso. 40% das denúncias vinham de terreiro. Estou usando a palavra ‘terreiro’ para aglutinar toda a tradição vista como macumba. No inconsciente coletivo, a leitura é macumba. E eu uso o nome Comunidade Tradicional de Terreiro para aglutinar toda a tradição que no inconsciente coletivo racista é vista como ‘macumba’, ‘macumbeiro’, ‘preto macumbeiro’. Porque, no Disque 100, você tem Umbanda, Quimbanda, Candomblé. Mas, na pesquisa, eu aglutinei tudo e vi que 40% das denúncias vinham de terreiro. E tínhamos 40% das denúncias sem denominação religiosa. Então, eu comecei a olhar por que as pessoas não estavam se identificando e descobri que era gente de terreiro, por motivo de vergonha. Resultado: de 2016 a 2019, 80% das denúncias são de racismo religioso.

CC – Ou seja, faziam a denúncia, mas sem especificar a religião à qual pertenciam?

PS – Isso. No ítem “religião”, não respondiam. Mas eu consegui identificar no discurso elementos do racismo. Foi um trabalho árduo. No discurso, eu identificava que aquilo vinha de alguém da Umbanda, do Candomblé, da Jurema. Só que apenas 40% das pessoas autodeclaravam a religião. E aí cheguei à conclusão de que 80% das denúncias eram de racismo religioso. Por que qual é a diferença do racismo para a intolerância religiosa? Quando um bispo da Igreja Universal chuta a santa em rede nacional, aquilo é intolerância religiosa. Por quê? A Igreja Universal do Reino de Deus não é vista como africana, como negra. Inclusive, eles têm um discurso que amaldiçoa o continente africano. A Igreja Católica não é vista como negra no Brasil. Ela é vista como branca. É branco com branco. Portanto, na intolerância não há o componente racial. Agora, quando você identifica no discurso os termos: ‘macumbeiro’, ‘preto sujo’, ‘preto macumbeiro’, ‘jogou sujeira na encruzilhada’, ‘despacho’, entre outros, é possível apontar racismo religioso. Identifiquei essas palavras que remetem imediatamente à cultura de terreiro como racismo religioso.

Com os dados, é possível ver que 20% das denúncias estão no campo da intolerância, que é uma intolerância com ateus, de protestantes com católicos e uma intolerância entre as diversas denominações protestantes. Porque é um “mercado”, né? Hoje existe um “mercado protestante”. E entre eles há também intolerância. Só que essa intolerância não leva uma igreja a ser fechada, não desemprega, não destrói famílias. A grande questão é que o racismo religioso desemprega. No Rio de Janeiro, os ‘traficantes de Jesus’ mandam fechar terreiros; o racismo religioso faz segregação familiar. Porque se o filho for de uma família neopentecostal e se filiar a um terreiro de Umbanda ou Candomblé, ele tem que escolher entre continuar morando ali e sair de casa. Ele é expulso. Então, o racismo religioso é muito sério.

Portanto, a primeira fonte de pesquisa foi o Disque 100. Mas, como liderança religiosa, eu tenho muito trânsito entre as comunidades de terreiro do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia. E na pesquisa, eu dialoguei com essas pessoas. Por isso digo que a intolerância religiosa não é a voz do escritor Sidnei. O escritor Sidnei foi apenas instrumento para colocar no papel diversas vozes desesperadas por um grito antirracista. Então, a minha segunda fonte de pesquisa é empírica, é ouvir as pessoas de terreiro. Sem dúvida, antes de tudo isso, temos a pesquisa bibliográfica, e a coleção Feminismos Plurais pede que os autores e autoras utilizem 70% das referências negras, e nós temos referências negras para 50 encarnações. Não pense que não temos. Nós temos literatura negra, nós temos escritores negros. Então, a pesquisa tem as referências bibliográficas, a análise dos dados do Disque 100 e o conhecimento empírico, com a narrativa das próprias pessoas de terreiro. Tudo isso foi colocado ali e eu transformei naquela sintaxe para produzir a narrativa do Intolerância Religiosa.

Oitavo título da Coleção Feminismos Plurais, o livro Intolerância Religiosa é finalista do prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas. Foto de capa: Roger Cipó.

CC – E parece que deu certo…

PS – Está aí o resultado. Parece que deu certo. Estou muito feliz pela aceitação da academia, pela aceitação dos leitores. Já me sinto premiado porque, pense, eu sou um homem preto, filho de empregada doméstica, que nos criou como empregada doméstica e cartomante. Uma mulher alagoana. Sou filho de um pai analfabeto, que morreu precocemente, trabalhador da construção civil. Papai, homem preto da Bahia, morreu com 57 anos. Então, é uma vitória. Quantos homens pretos, macumbeiros, matadores de galinha, comedores de bode, jogadores de farofa de dendê na encruzilhada, chegam nesse lugar? É importante. Meu sobrinho está vendo, meus filhos estão vendo, pessoas jovens, pretos, estão vendo. E eles estão vendo agora: “você pode”. Faz muita diferença. Porque o branco nasce com todas as concessões. Eu fui olhar os prêmios, desde 1958, e fiz o ‘ranking de pessoas pretas’. Já não são muitas, imagina preto macumbeiro, Babalorixá. Aí não tem mesmo. Entendeu?

Então, é uma vitória dos meus ancestrais, de Ìyámi Oxorongá, de Egungun, de Xangô, Kabecile! É uma vitória contra a escravização contemporânea. E uma batalha que continua. É circular e não termina nunca. É só o começo. Eu costumo dizer o seguinte, aos meus filhos e filhas: acredito que não verei o resultado dessa batalha. Não verei em corporeidade, não verei como ancestral. Como Egungun, eu verei. Mas pelo menos a minha parte, para aqueles que vierem depois de mim, eu estou fazendo. Estou com o coração e a cabeça tranquilos, que a minha parte eu estou fazendo. Estou fazendo sem matar ninguém, sem subalternizar ninguém, sem estigmatizar ninguém, sem odiar. Sem ódio. Eu estou fazendo a minha parte para uma cultura humanista de paz e amor. Quem quiser, vem comigo.

CC – Pode nos contar o que o senhor entende por epistemologia da encruzilhada?

A encruzilhada é uma coisa boa. A cultura do terreiro é a cultura de encruzilhada. Na encruzilhada, Ìkòríta mẹ́ta é a encruzilhada de três pontas. O que é isso? É muito saudável. Veja bem: hoje, neste exato momento, o mundo está tomado de angústia. Angústia por conta de um projeto genocida e angústia por conta de uma cultura de mão única. Você escolheu uma coisa, você tem que ir até o fim. Essa coisa pode lhe adoecer, pode lhe fazer mal; o casamento pode estar lhe fazendo mal, estar fracassando, mas: “não”. Não pode mudar”. A profissão pode estar lhe fazendo mal: “não. Você não escolheu sua carreira? Você vai até o fim”. Essa é a cultura de mão única, é a cultura ocidental, é a cultura do controle. A nossa cultura de terreiro não é assim. É a cultura em que eu volto para o centro da encruzilhada e pego a direita ou a esquerda ou o centro. Eu faço um outro caminho. A nossa cultura é a cultura de viver com leveza.

Então, eu queria colocar no livro e dizer para as pessoas: olha, existe uma outra filosofia de vida, que não é a filosofia de mão única, a filosofia do controle, a filosofia dogmática. Essa fracassou. A sociedade que nós temos hoje é uma sociedade fracassada. É uma sociedade desumana. Uma sociedade em que odiar é imperativo, fracassou. Eu ando por São Paulo, há centenas de pessoas, de existências, de corpos negros, jogados à rua. Eu posso dizer que essa sociedade deu certo? Eu não posso. Nós fracassamos como sociedade. Se nós naturalizamos corpos abandonados na rua, se nós naturalizamos a morte prematura, a morte sacrificial ao ‘Deus Capitalista’, porque é disso que se trata, 600 mil mortes, nós fracassamos. São mortes sacrificiais ao ‘Deus Capitalista’ e à política genocida brasileira. Na minha cultura, eu não naturalizo isso. Nós morremos um pouco com todas essas pessoas. Nós estamos também nas ruas, com esses corpos abandonados nas ruas. E nós sabemos – o mais triste é que nós sabemos – que o escravismo que aconteceu no Brasil aconteceu para que nós pudéssemos, hoje, desfrutar dessa filosofia. Por isso que no Intolerância Religiosa eu dou esse grito. Entendam: há uma outra filosofia capaz de nos salvar. Nós precisamos de cura. Nós estamos doentes. Nós temos que aceitar.

CC – E essa cura vem em qual sentido?

PS – Eu sou professor. Então, eu acredito na educação. Eu acredito na leitura. Eu acredito na boa informação e no conhecimento. Quando Djamila me convidou para escrever esse livro, eu não respondi de pronto. Embora fosse uma coisa que eu quisesse muito, eu falei: “primeiro, eu preciso consultar os meus ancestrais. Eu preciso consultar a minha família. Porque na nossa cultura ninguém é indivíduo, ninguém é sozinho. A nossa cultura é a cultura das confluências. Então, nós temos uma noção de Ègbé òrun, que é a minha família espiritual ancestral, e Egbé Aiyê, que é a minha família que está aqui no mercado, no Aiyê. E eu precisei, primeiro, consultar Exu e, depois, consultar Egbé Aiyê, minha família estendida. Meus avós, bisavós, tataravós, reis e rainhas africanos, que não estão mais aqui corporeamente; e consultar a minha família que nós chamamos de carnal-biológica, que está aqui no mercado, no Ayiê.

E o sucesso do livro tem também a ver com isso. Porque eu respeitei aquilo que eu pratico. Eu respeitei aquilo em que eu acredito. Eu não sou um ser fragmentado, eu vivo integralmente a cultura de terreiro. Eu sou um homem de terreiro. Então, a cura tem a ver com reintegração de posse. Reintegração de posse de nós mesmos. Reintegração de posse de dar aos povos originários, indígenas, o que é deles. Reintegração de posse de dar aos negros o que é deles. Reintegração de posse de conhecer a nossa História. Não há problema algum que o Brasil seja um país miscigenado. Esse não é um problema. Miscigenação tem a ver com confluências de forças ancestrais diferentes. Ninguém precisa negar a História. Nós precisamos aceitar a nossa História. A nossa História é colonial. É uma História genocida. O primeiro genocídio brasileiro se deu na invasão, com os povos indígenas; o segundo genocídio, com os povos negros escravizados; e o terceiro genocídio, agora, com a negligência do Poder Executivo atual no enfrentamento à Covid.

CC – Como o senhor pensa que poderemos superar o atual cenário político?

PS – Nós temos, hoje, no Brasil, uma política de morte. Uma necropolítica, de Achille Mbembe. Isso é muito sério. Como a gente vai curar? Porque se nós estamos morrendo coletivamente, nós adoecemos coletivamente. A minha cultura não interpreta a covid-19 como maldição do faraó, sete pragas do Egito, como punição. Não. Não interpreta dessa maneira. Se você deixar de beber água, seu corpo vai adoecer. Se você deixar de tomar sol, vai ter de suplementar vitamina D. Então, nós adoecemos porque optamos por uma política de adoecimento e morte. O corpo coletivo está reagindo. E parte do corpo coletivo, morrendo prematuramente. Como vamos nos curar? Nós precisamos nos reumanizar. Como? Primeiramente, aceitando nossa História. Olhando de frente os crimes da humanidade de modo a não repeti-los.

Portanto, nós nunca precisamos tanto de professores, de escritores, de pensadores, de sociólogos, de antropólogos, de jornalistas. Nós nunca precisamos tanto de Ciências Humanas. Porque esse é um tipo de doença que você não cura com antibiótico. É um tipo de doença que você cura com informação. Então, eu acredito que é isso. Nós precisamos de educadores, de pensadores, também de teólogos, de lideranças religiosas. Nós vamos ter que curar. O mundo está doente. Ele pede socorro em todos os sentidos. Mas é tão cansativo, porque às vezes parece que poucas pessoas estão vendo isso. Porque, de verdade, quem deveria ver é o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, que pouco têm feito contribuído para a cura.

Foto: Amanda Oliveira/GOVBA

CC – Pensar em saídas dentro, mas também fora também da institucionalidade…

PS – E é por isso que nós precisamos nos organizar como sociedade civil. A coleção Feminismos Plurais é uma organização da sociedade civil. É a sociedade se organizando. Ali, cada autor e cada autora fala em nome da sociedade. O livro que eu escrevi, que não é meu, é nosso, é um livro em que tento colocar a nossa voz, e é por isso que ele chega nesse lugar. Quantos Babalorixás pensadores, escritores, chegaram à final do Prêmio Jabuti desde que ele foi criado? Não há. Salvo melhor juízo, eu sou o primeiro.

E numa disputa de narrativas, porque há um outro livro finalista (Povo de Deus: Quem são os evangélicos e por que eles importam), que faz apologia à religião evangélica, um livro que fala da importância dos evangélicos no Brasil. Então, é uma  disputa de narrativas. Eu, da cultura de terreiro, represento a cultura não-hegemônica, porque, no Brasil, todo mundo nasce branco, cristão, descendente de europeu, cis-hétero-normativo e do patriarcado. E é isso que a cultura cristã representa. A presença do Intolerância Religiosa entre os dez finalistas é um ato democrático. Porque está dizendo: “tudo bem, os evangélicos têm a sua importância, mas tem esse povo aqui de terreiro, de outra religiosidade negra, afroancestral, que também é importante”. É disso que se trata.

CC – Pai Sidnei, para finalizar, poderia falar um pouco da sua trajetória.

PS – (Emocionado) É tão cansativo ser negro no Brasil. As forças racistas exaurem qualquer possibilidade existencial. Há lembranças boas e há lembranças dolorosas também. Eu tive o direito de ter uma família. E é um direito, porque gente preta não tem privilégio. O privilégio é branco. Gente preta, quando consegue alguma coisa, é direito. A gente não tem privilégio, porque a academia não foi feita para mim, o mundo não foi feito para mim, a palavra liberdade não foi feita para nós. Então, viver como uma pessoa preta, no Brasil, desde que você nasce, é extremamente doloroso. Eu vi a história de resistência dos meus pais. Mamãe, empregada doméstica. Sabe qual era o meu brinquedo? A máquina de lavar das casas das mulheres ricas onde mamãe lavava a roupa. Ela me colocava pequeno e o balanço da máquina de lavar era o meu brinquedo. Olha o brinquedo do qual eu me lembro: a máquina de lavar na casa em que mamãe era empregada doméstica. Essa é a minha lembrança da infância. O balanço da máquina de lavar.

CC – E o poder da sua mãe, de transformar uma máquina de lavar em brinquedo para o filho…

PS –  A força, a resistência de uma mulher preta, alagoana. Conseguiu se formar depois de madura. Mamãe é assistente social. Papai dizia: “olha, aconteça o que acontecer, uma coisa que vocês têm que aprender é que vocês precisam arrancar do mundo o direito de dizer o próprio valor. Não é o mundo que vai dizer o seu valor. É você que tem de dizer o seu valor. O quanto você vale. Era a lição primeira. Todo dia papai falava isso. E um homem rústico, analfabeto. Papai só sabia assinar o nome. Caminhoneiro de betoneira de concreto. A gente também se divertia com a betoneira rodando. Queria até entrar lá dentro para poder rodar dentro da betoneira de concreto. E ele dizia isso. Era o discurso dele: “seja homem!” Homem rústico e: “você tem que aprender o seu valor. Primeira coisa: estude para que um dia você possa dizer o seu valor.

Então, é assim que a gente cresce como pessoa preta, como criança preta. “Engole o choro”. “Seja homem”. “Não mostre fraqueza, que você vai morrer”. “Aprenda a resistir”. Estudar, estudar, estudar. A gente apanhava se não estudava, porque tinha que estudar. E eu virei doutor. Não pense que eu gostava de estudar, não. Eu não gostava. Estudar sempre foi doloroso para mim porque a escola não foi feita para mim.

Mas esse é o legado dos meus pais: eles conseguiram. Eles conseguiram. E eu estou aqui para dizer ao meu pai: sobre meu valor, quem diz sou eu. Eu digo o quanto eu tenho para oferecer, quem eu sou. Sobre meu valor, quem diz sou eu. Entendeu? E eu quero que as pessoas pretas possam dizer sobre seu valor. É isso que eu aprendi com papai e mamãe.

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Roberto de Martin é jornalista mineiro de Matias Barbosa radicado em Brasília

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