Entrevistas
Jean Wyllys: ‘A política se esvaziou em mera performance algorítmica’
Após mais de quatro anos de exílio, o jornalista, escritor e artista plástico retorna ao Brasil e ao cenário político institucional como candidato
Eleito três vezes deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jean Wyllys consolidou-se como uma das vozes mais combativas do parlamento brasileiro. No entanto, após conquistar o seu terceiro mandato legislativo e diante de uma escalada de violência política e graves ameaças de morte, ele decidiu não assumir a cadeira na Câmara e deixar o país para preservar a própria integridade e de sua família. Após mais de quatro anos de exílio, o jornalista, escritor e artista plástico retorna ao Brasil e ao cenário político institucional como candidato a deputado federal por São Paulo, cidade que escolheu para “recomeçar a vida”.
Em entrevista à CartaCapital, exatamente na semana que marca os dez anos do golpe contra a presidente Dilma Rousseff, Wyllys analisa como essa ruptura democrática impactou o cenário político até aqui, vésperas das eleições presidenciais. De acordo com seu diagnóstico, o país vive uma profunda “degeneração política”, dominada pelo que ele caracteriza como uma “performance algorítmica”, em que os políticos estão mais interessados em “lacrar” para fazer cortes e monetizar as redes sociais, em detrimento de projetos reais para o País.
CartaCapital: O que te fez voltar para a disputa institucional?
Jean Wyllys: Voltei ao Brasil em 2023 e escolhi recomeçar minha vida em São Paulo, porque tenho muitos traumas em relação ao Rio de Janeiro, onde todas essas violências aconteceram e onde a Marielle Franco, minha grande amiga, foi executada. Eu não pensava em voltar para a política institucional; meu objetivo era seguir como intelectual público, jornalista e artista visual.
No entanto, eu, e várias pessoas, jornalistas, empresárias, intelectuais, estamos muito indignados com a degeneração da política brasileira. O Congresso Nacional foi tomado por lobbies, corporações privadas e organizações criminosas, e a política se esvaziou em uma mera performance algorítmica. Os parlamentares, principalmente de extrema-direita, não têm preocupação com projetos de país ou com as necessidades reais da população; eles querem apenas produzir vídeos para monetizar nas mídias sociais. É um rebaixamento moral e ético diante do qual não podíamos cruzar os braços.
Surgiu então o movimento “Um Outro Congresso é Possível”, articulado por cidadãos da sociedade civil, que me convidou para apresentar minha candidatura. Foi uma crise pessoal decidir entrar de novo nessa arena que me causou tanto sofrimento, mas assumi a responsabilidade e hoje sou candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo. Precisamos qualificar o Congresso com pessoas que tenham interlocução e laços internacionais para enfrentar essa extrema-direita global, que perpetra horrores no mundo inteiro — desde o genocídio na Palestina conduzido por Benjamin Netanyahu até o assédio de Donald Trump contra a América Latina.
Quero fazer uma campanha educativa, debatendo propostas reais e não performando para as redes. Precisamos discutir a crise climática e enfrentar o capitalismo de vigilância e de atenção das big techs, que nos explora e nos converte em força de trabalho gratuita. Propomos uma renda básica universal financiada pela taxação das grandes fortunas e bilionários, além de defender recursos fundamentais à vida, como a água.
CC: A extrema-direita tem mobilizado o ódio e o pânico moral desde 2018. Como você avalia esse cenário eleitoral e a disputa presidencial?
JW: Nenhum dos candidatos é qualificado como o presidente Lula, isso é evidente. É lamentável que, no período eleitoral, rebaixem um estadista dessa estatura — que atua para parir um mundo multipolar e pacífico — ao denominador comum de figuras da extrema-direita paranoica, como o Renan Santos do MBL, que é um racista e usa de propaganda criminosa para desumanizar o outro. A extrema-direita joga a culpa de problemas históricos e estruturais na conta de minorias, muitas vezes dos imigrantes.
Além disso, eles não se comunicam melhor nas redes; a verdade é que os algoritmos das mídias sociais são tecnicamente desenhados para funcionar de acordo com os interesses deles, para potencializar o engajamento através do ódio, de slogans simples e de preconceitos arraigados, como o racismo, a misoginia e a homofobia. Nós, do campo progressista, temos o compromisso ético de não fortalecer preconceitos. Precisamos estabelecer o que Margaret Atwood chama de “bandeiras de perigo” e fixar limites civilizatórios claros na imprensa e nas instituições: daqui vocês não passam.
CC: De que forma esse esvaziamento do trabalho parlamentar pelos algoritmos está impactando a sociedade e o próprio fazer parlamentar?
JW: Impacta o fazer político porque atrai candidatos que, mesmo sem acreditar naquilo, reproduzem mentiras e ofensas bizarras só porque geram engajamento e monetização nas mídias sociais — vide o Nikolas Ferreira e outros que enriqueceram sem justificativa lícita no PL. Isso deturpa a mente do eleitor, que passa a achar que a boa política é a lacração e a eliminação do adversário.
A boa política, a de esquerda que eu defendo, é o diálogo, a conciliação e a alternativa civilizada à guerra de todos contra todos. Eu me recuso a participar dessa performance algorítmica. Não debato com pessoas que considero deletérias, como os membros do MBL, que enfrentam uma longa lista de acusações criminais, nem com candidatos do PL que só sabem gritar e ofender. A extrema-direita foge dos debates reais — como a segurança, a saúde e o fim da escala 6×1 — para inventar espantalhos morais como o uso de banheiros por pessoas trans. Infelizmente, essa lógica de performar para os algoritmos acabou contaminando até mesmo setores da esquerda.
CC: Uma das grandes dificuldades do presidente Lula tem sido lidar com o Congresso. O que o campo progressista precisa fazer para alterar essa composição?
JW: Temos excelentes candidaturas em todo o Brasil, mas há um descompasso claro entre a nossa vontade militante de dar suporte ao Lula e a estratégia institucional dos nossos partidos. O movimento “Um Outro Congresso é Possível” nasceu justamente para superar essa barreira partidária e trazer a sociedade civil para oxigenar a política.
Se eleito, meu objetivo é apoiar o governo Lula e levar pautas urgentes ao Congresso: equidade de gênero, soberania nacional sobre os nossos minerais raros e a consolidação da nossa soberania digital. Defendo o investimento em inteligência artificial própria e mídias sociais públicas regidas por regras civilizatórias que protejam crianças e resguardem as mulheres da misoginia da machosfera.
Também considero urgente uma nova política de drogas que legalize e regule a maconha, tanto para o uso medicinal quanto recreativo, tratando a dependência química sob a ótica da saúde pública e não da criminalização penal. Precisamos dessas reformas profundas e da renda básica universal para darmos dignidade real à população e garantirmos um Brasil soberano contra as desinformações e interferências externas. Independentemente do resultado das urnas, porém, continuarei atuando como intelectual público, artista e livre pensador para ajudar o presidente Lula.
CC: Essa semana faz exatamente dez anos do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, e você estava lá na linha de frente de resistência. Como analisa o momento atual sob esse pano de fundo histórico?
JW: O tempo provou que nós estávamos certos. Aquilo foi um golpe de Estado contra a Dilma, e aquela ruptura institucional foi a abertura da “caixa de Pandora”, liberando todos os males democráticos que hoje enfrentamos. Bolsonaro emergiu daquela sessão pavorosa de 2016 como o condutor de ressentimentos perfeito que a extrema-direita global — arquitetada por Steve Bannon e pelos bilionários do Vale do Silício — precisava para polarizar e capturar o Brasil. O trágico ano de 2018, com a prisão de Lula, o assassinato de Marielle Franco e o meu exílio forçado, é consequência direta de 2016.
No entanto, o tempo também colocou as coisas no lugar. Dilma hoje preside o Banco dos Brics, Lula provou sua inocência e venceu o fascismo em 2022, enquanto Deltan Dallagnol perdeu seus direitos políticos. O que não podemos admitir agora é a normalização dos herdeiros desse movimento autoritário. A defesa da nossa integridade democrática depende de elegermos um Congresso comprometido com o País.
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