Entrevistas

Como o PSOL quer chegar a 2026, segundo sua presidente

Em entrevista a CartaCapital, Paula Coradi comenta estratégias para o próximo ano e avalia que pautas-bombas no Congresso prejudicam o País

Como o PSOL quer chegar a 2026, segundo sua presidente
Como o PSOL quer chegar a 2026, segundo sua presidente
A presidenta do PSOL, Paula Coradi. Foto: Redes Sociais/Reprodução
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Às vésperas do ano eleitoral, o PSOL definiu duas prioridades centrais: garantir a reeleição de Lula e ampliar de forma consistente sua bancada na Câmara dos Deputados e nos Legislativos estaduais, afirmou a presidenta nacional da sigla, Paula Coradi.

Com Guilherme Boulos dedicado ao projeto petista e fora da disputa por uma vaga na Câmara, o partido reorganiza suas cartas para manter o peso eleitoral em 2026. Entre as apostas estão a deputada Érika Hilton, o deputado estadual paulista Guilherme Cortez e Natalia Szermeta, dirigente do partido e esposa do ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

Na corrida pelo Planalto, o PSOL espera que Lula incorpore um conjunto de reivindicações que incluem o fim da escala 6×1, o encerramento definitivo de práticas derivadas do antigo Orçamento Secreto — declarado inconstitucional pelo STF em 2022, mas reeditado pelo Centrão para manter o controle sobre fatia dos recursos da União — e políticas voltadas a uma transição energética justa.

“A gente ainda está num contexto em que a extrema-direita é uma força política relevante. Para nós, a construção da unidade, onde for possível e onde caiba o nosso programa, deve ser a orientação do próximo ano”, afirmou Coradi em entrevista a CartaCapital. “Mas, sobretudo, vamos focar nas composições em que caibam nossas ideias”.

A dirigente falou à reportagem durante uma agenda em Aracaju (SE), onde iniciou conversas sobre a sucessão estadual. Até recentemente, psolistas locais defendiam, junto ao PT, uma aliança contra o governador Fábio Mitidieri (PSD). Diante do movimento petista de reaproximação com o mandatário, o partido passou a considerar uma candidatura própria.

Na conversa, a psolista disse que o governo Lula tem trabalhado para viabilizar o fim da escala 6×1 (quando se é trabalhado seis dias com o direito a um de descanso), embora reconheça que a pauta esbarra na correlação de forças do Congresso, que considera “muito desfavorável à agenda popular”. Para ela, a saída é ampliar a mobilização social, como ocorreu na derrubada da PEC da Blindagem, quando milhares de brasileiros foram às ruas, em setembro.

“Quando o Congresso usa pautas-bomba para chantagear o governo, quem está sendo chantageado é o povo brasileiro”, observa.

Confira os destaques a seguir. 

CartaCapital: O que está nos planos do partido para 2026?

Paula Coradi: A nível nacional, nossa prioridade é reeleger o Lula presidente, né? Então nós vamos, nacionalmente, envidar os nossos esforços para a Presidência. Afinal de contas, a gente ainda está num contexto em que a extrema direita é uma força política relevante. Pra nós, a construção da unidade, onde for possível e onde caiba o nosso programa, deve ser a nossa orientação política do próximo ano.
Nós vamos focar nessas composições em que caibam nossas ideias também. Vamos focar nas eleições de deputado federal e ampliar as bancadas de deputados estaduais. Esse vai ser o foco do PSOL pro ano que vem.

Na hora de renovar nossas alianças, a nível nacional, nós também vamos apresentar uma série de reivindicações, que passam pelo governo assumir o fim do Orçamento Secreto, assumir o compromisso de valorização do salário mínimo, aumentar os investimentos sociais, uma série de outras medidas, e um comprometimento com uma transição climática justa. Nós ainda estamos em discussão, mas esses devem ser os principais pontos.

CC: Lula depende de alianças com partidos como MDB, PSD, União Brasil. Isso, muitas vezes, deixa partidos menores — como PSOL, PCdoB, PV — escanteados na hora da divisão de espaços. Não causa frustração?

PC: Pra nós, não. Lula foi eleito em 2022 com um programa muito compatível com o nosso. Então a contradição não está do nosso lado, está do lado deles. Nós não apoiamos o Lula ou o governo por busca de espaço político. Nós apoiamos porque acreditamos no que é justo, no que é correto e no que expressa nossa política. Vamos defender isso independente do que nós tenhamos de cargo.

CC: O tema das 6×1 ganhou muita adesão das ruas e das redes sociais. O PSOL apresentou isso ao governo. Qual foi o retorno do Planalto? E como a senhora vê essa dificuldade, essa resistência no Congresso?

PC: O governo federal tem se esforçado para transformar essa pauta numa agenda que seja vitoriosa, né? De que a gente conquiste e amplie esse direito. Mas a gente entende que a correlação de forças dentro do Congresso é muito desfavorável. Hoje a gente tem um Congresso que não está preocupado com a pauta do povo, com a agenda popular.

Ainda assim, nós provamos no dia 21 de setembro que a mobilização social é muito importante. Ela é capaz de mudar a correlação de forças. Foi quando nós derrubamos a PEC da Blindagem. Acredito que o fim da escala 6×1 tem apoio de 70% dos brasileiros e brasileiras. Então é uma pauta que pode sim ser conquistada mesmo com um Congresso tão desfavorável, mesmo com os interesses voltados para outros lugares. A mobilização social tem capacidade de arrancar conquistas e vitórias.

CC: A senhora citou a mobilização da PEC da Blindagem, que levou milhares às ruas. Tivemos também mobilização contra a PEC da Devastação e outros temas. Virou-se a chave?

PC: Acredito que tem a ver com o processo de mobilização que nós temos apostado desde o início do governo. Além das mobilizações de rua, nós também, no nosso campo político, realizamos o plebiscito popular, que foi importante pra manter a mobilização acesa. A PEC da Blindagem foi tão escandalosa que conseguiu furar nossa própria bolha e promover uma mobilização mais ampla, assim como a luta pelo fim do 6×1. Eu acho que isso foi fundamental: conseguimos ampliar pras pessoas, pros artistas, pras mídias independentes. Conseguimos falar além de nós mesmos, vamos dizer assim.

CC: A ida de Boulos ao governo não enfraquece a disputa legislativa?

PC: Enxergamos a Érika Hilton como uma grande puxadora de votos. Até mesmo como uma das principais seguidoras da defesa do fim da escala 6×1, ela tem se consolidado como uma grande liderança, ampliou sua presença na sociedade, a capilaridade. Então, acredito que tem capacidade de ocupar esse espaço que o Boulos vai deixar, porque ele vai estar focado na eleição presidencial e não vai mais concorrer.

Também apostamos em outras figuras públicas, principalmente na renovação da nossa bancada. Temos o Guilherme Cortez, deputado estadual por São Paulo, o ex-presidente do PSOL [Juliano Medeiros], que vai ser candidato federal. A Natalia Szermeta, companheira do Boulos, também vai ser candidata. Além disso, temos uma excelente bancada que provavelmente vai ampliar a votação, como a Sônia [Guajajara], a Luciene [Cavalcante]. Então acho que a gente consegue passar bem.

CC: Qual sua leitura sobre o capítulo mais recente do estremecimento entre o governo Lula e a cúpula do Congresso?

PC: A relação sempre foi muito tensa, né? A gente tinha uma expectativa de que o Hugo Motta [presidente da Câmara] fosse mais transparente na condução dos trabalhos, e não é isso que a gente tem vivenciado. Acredito que este não é um problema do governo, mas do País. Porque, à medida que o Congresso, tanto no Senado quanto na Câmara, se utiliza de pautas-bomba pra chantagear o governo, não é o governo que está sendo chantageado, mas o povo brasileiro. Espero que, nas eleições do ano que vem, a gente consiga mudar essa correlação de forças.

CC: Com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, aceleraram as discussões sobre quem será o presidenciável da direita. Isso impacta e ajuda a reeleição de Lula?

PC: Com a prisão do Bolsonaro houve uma dispersão muito grande da extrema-direita. Há uma indefinição de cenários muito grande. Mas no nosso campo o cenário está muito bem definido, muito bem desenhado. Nós estamos muito confiantes de que o presidente Lula vai se reeleger, independente com quem for. Afinal de contas, é isso que as pesquisas indicam. Então estamos muito conscientes de que o Lula será reeleito e de que essa dispersão, no final do dia, acaba ajudando. Será uma eleição dura, mas estamos confiantes na vitória.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo