Entrevistas

‘A continuidade do governo Dilma faria Bolsonaro ter ainda mais votos’

Em novo livro, Cristovam Buarque aponta erros da esquerda que teriam levado a direita ao poder; o ex-senador defende apoio a Lula em 2022

O ex-senador Cristovam Buarque. Foto: Reprodução Redes sociais
O ex-senador Cristovam Buarque. Foto: Reprodução Redes sociais
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O ex-senador Cristovam Buarque, hoje no Cidadania, não acredita que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff tenha sido um fator determinante na vitória de Jair Bolsonaro em 2018. Para ele, o que colaborou para a ascensão do ex-capitão foi a incapacidade de reorganização das forças políticas após o afastamento da petista.

Em entrevista a CartaCapital, Buarque diz que pagou um preço alto por votar favoravelmente à continuidade do processo que tirou Dilma do poder. Como justificativa, ele cita a coerência do discurso ao longo de sua vida pública.

“Do ponto de vista lógico, de fato eu paguei um preço muito maior do que eu imaginava, com a própria eleição que perdi recentemente [concorreu ao Senado pelo DF em 2018], perdi amigos, eleitores, leitores e prestígio no exterior. Foi um custo muito alto. Eu não imaginava que seria tanto”, admite. “Se fosse hoje, eu morro de medo se não tivesse a coragem de manter a coerência do meu discurso. Pode ter sido um erro lógico, mas foi um acerto moral, apesar das consequências”.

O ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação se propõe a uma análise dos erros do campo progressista e o que deve ser feito para impedir a reeleição do atual presidente. Buarque lançou recentemente o livro ‘Por que falhamos: o Brasil de 1992 a 2018′, pela Tema Editorial, em que avalia o que deve ser feito de diferente para que a esquerda democrática volte a comandar o País. O livro aponta 24 pontos que levaram a extrema-direita a ocupar o Palácio do Planalto

Para 2022, o escritor afirma que, dos pré-candidatos que ele conhece, o nome do ex-presidente Lula é o melhor. Buarque defende, inclusive, que seja formada uma aliança em torno do petista já no primeiro turno.

“Considerando a força do PT e do Lula, eu creio que se eles não assumem o papel de coordenar um nome, eu creio que tenhamos que se unir ao Lula mesmo no primeiro turno”, diz. “E não é só porque ele tem mais chances. É porque o primeiro turno vai criar tantas disputas entre os candidatos que vai ser difícil no segundo turno a terceira via apoiar o Lula e vice-versa.”

Confira a seguir.

CartaCapital: Professor, tomando o título da obra como ponto de partida, como chegamos até aqui?

Cristovam Buarque: O título em inglês ficou melhor, que é ‘Como a esquerda elegeu a direita no Brasil’. A origem desse livro foi um pedido da universidade de Oxford para irmos lá explicar o porquê Bolsonaro ganhou. Eu respondi dizendo que não falaria os motivos que o levaram à vitória, mas sim por que nós [da esquerda] perdemos. Eu aponto 24 erros. Acontece que nós todos, do governo Itamar a Temer, cometemos erros, inclusive eu, que levaram o eleitor a preferir o Bolsonaro. E poderia ter sido outro que encarnasse o que chamei de outrismo.

CC: E desses erros, quais na avaliação do senhor foram os maiores?

CB: O primeiro foi não percebermos uma necessidade de unidade entre nós democratas progressistas, especialmente uma unidade entre PSDB e PT, os dois grandes partidos que o País tem. Para mim, a contradição entre eles não chega a ser ideológica, é só uma discussão sobre quem acha o Estado mais importante que o outro e qual acha mais importante a avenida Paulista ou o ABC.

O segundo foi perdermos o sonho utópico. Ficamos iguais aos outros. E esse sonho utópico, capaz de unificar esses dois lados sem rupturas, seria um programa que permitisse ao Brasil dar um salto na educação para conseguir que a educação do pobre fosse tão boa quanto a do rico. Quebrar essa exclusão. Tanto Fernando Henrique quanto Lula se preocuparam mais com o ensino superior, aumentando o número de vagas, do que com a qualidade da educação de base e com a equidade. Essa era uma utopia possível de construirmos. Claro que levaria tempo, talvez uns 20 anos, mas poderíamos ter tido uma estratégia.

Considerando a força do PT e do Lula, creio que tenhamos que nos unir a ele no primeiro turno

O terceiro foi do ponto de vista intelectual. Não percebemos as curvas da história. Ou seja, não percebemos que a globalização veio para ficar, que a robótica veio para ficar, a inteligência artificial está aí e que o meio ambiente tem que ser incorporado nas reflexões sociais. Até que o PT, mais do que o PSDB, conseguiu perceber uma política protecionista do meio ambiente, o que já é bom, mas não de incorporação do meio ambiente na lógica social e econômica.

CC: Muitos atribuem a atual situação ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Sem o afastamento, o quadro seria outra?

CB: É difícil saber, mas não dá para dizer que o Bolsonaro é resultado do impeachment Foram três anos [até o Bolsonaro assumir]. A continuidade do governo Dilma, como parecia que seria, com erros na condução da política econômica, era capaz de fazer o Bolsonaro ter mais votos do que teve. Não foi o impeachment, foi a incapacidade de reorganização das forças após o afastamento e talvez também o fato do vice escolhido pelo PT tenha sido o Temer.

Se fosse por causa do impeachment, após o afastamento do Collor, teríamos tido uma ruptura para alguns dos lados e não houve. Para mim, o Bolsonaro é consequência de erros muito mais prolongados ao longo desses 26 anos, que duraram os governos democratas progressistas. Alguns dizem que o Bolsonaro surgiu por causa da Lava Jato e da desmoralização da política. Pode até ser, mas não acho que seja pelo impeachment.

Tivesse votado contra o impeachment, eu seria incoerente. Paguei um preço. Pode ter sido um erro lógico, mas foi um acerto moral, apesar das consequências

CC: O senhor de alguma forma se arrepende de ter votado favoravelmente pelo impeachment? Muitos petistas chamaram o senhor de traidor.

CB: Me chamaram mesmo foi de golpista e eu acho um direito me chamarem assim, porque é uma expressão publicitária que o PT, corretamente do ponto de vista de esperteza de comunicação, adotou. Mas, para ser coerente, é preciso chamar de golpista quem votou pelo impeachment do Collor, porque o procedimento foi o mesmo. Eu diria que o procedimento da Dilma foi até mais rigoroso [no rito] ao possibilitá-la se defender. Pode-se dizer que as razões foram diferentes. No do Collor teve a corrupção, no da Dilma não, foi pedalada. Não tem coerência chamar de golpe, mas acho legitimo, do ponto de vista publicitário e da disputa eleitoral.

Quanto ao arrependimento, é uma pergunta boa que não sei se consigo responder plenamente para mim. Do ponto de vista lógico, de fato eu paguei um preço muito maior do que eu imaginava, com a própria eleição que perdi recentemente [concorreu ao Senado pelo DF em 2018], perdi amigos, eleitores, leitores e prestígio no exterior. Foi um custo muito alto. Eu não imaginava que seria tanto. Se fosse hoje, eu morro de medo se não tivesse a coragem de manter a coerência do meu discurso anterior.

Eu defendo a responsabilidade fiscal, pois considero que a inflação é roubar os pobres. Tivesse votado contra o impeachment, eu seria incoerente. Paguei um preço. Pode ter sido um erro lógico, mas foi um acerto moral, apesar das consequências. Netas minhas, que à época tinham nove e cinco anos, foram perseguidas. Colocaram cartazes em frente a casa que elas moravam com a frase: ‘meu avô é golpista’. Houve um gabinete de ódio. Mas hoje está superado.

CC: O senhor acredita que, na eleição de 2018, se no lugar do Haddad o candidato fosse o Lula o resultado seria outro?

CB: O que teria impedido o Bolsonaro [de vencer] seria não ter acontecido aquela facada que impediu que ele fosse aos debates. Se ele fosse, Haddad ia dar um show em cima dele. Se fosse o Lula, a capacidade de comunicação é maior do que qualquer brasileiro. Ninguém hoje tem o carisma dele. Ao mesmo tempo, Haddad era uma cara nova e as caras antigas carregam um custo também. Não dá para saber se o Lula teria sido um candidato melhor do que o Haddad. O que dá para dizer é que se não tivesse havido a perseguição do Moro eu creio que tanto Lula quanto o Haddad teria vencido o Bolsonaro.

Eu temo pela ausência. Foram os ausentes que elegeram Bolsonaro em 2018

CC: O senhor acha que, em 2022, é possível haver uma aliança contra Bolsonaro já no primeiro turno?

CB: O ideal mesmo seria o Lula ficar acima disso e coordenar uma aliança, ser capaz de coordenar a escolha do melhor nome. Mas o ideal na política é muito difícil. Como a gente vai convencer o PT e o próprio Lula de terem esse papel depois que tudo que passaram e com a força que têm? É o único partido forte que o País tem. Eu não sou negacionista nem em vacina, ciência e política. Considerando a força do PT e do Lula, se eles não assumem o papel de coordenar um nome, creio que tenhamos que nos unir ao Lula no primeiro turno. E não é só porque ele tem mais chances. É porque o primeiro turno vai criar tantas disputas entre os candidatos que vai ser difícil no segundo turno a terceira via apoiar o Lula e vice-versa.

Eu defendo, contra a maior parte das pessoas ligadas a mim e contra o meu partido, o Cidadania, que deveríamos nos unir e fazer um plebiscito já no primeiro turno entre o Bolsonaro e nós todos. Eu imagino três semanas entre o primeiro e o segundo turno com as milícias armadas na rua e com as Forças Armadas que eu temo que possam ser seduzidas para uma interferência no processo eleitoral. Deveríamos evitar essas semanas entre o primeiro e o segundo turno tendo o Bolsonaro na disputa. Tudo isso desapareceria automaticamente se o Bolsonaro não chega ao segundo turno.

Deveríamos trabalhar agora para tirar o Bolsonaro agora e, em 2026, disputarmos entre nós. Eu defendo também que o eleito assuma que só vai ficar um mandato

CC: Além do Lula, tem algum nome que o senhor vê despontar como viável para essa aliança ocorrer?

CB: Tem alguns [pré-candidatos] que não conheço e não sei se seriam melhores ou piores como presidente. Por exemplo, o [Eduardo] Leite e o [Rodrigo] Pacheco. Entre os que eu conheço, eu ainda acho o Lula o melhor na experiência para governar e na capacidade de diálogo. Mas tem um nome pelo qual tenho simpatia que seria um bom presidente, o Tasso Jereissati. Entre ele e Lula, eu diria que ele poderia representar algo melhor, novo, por nunca ter sido presidente.

Capa do novo livro de Cristovam Buarque

CC: O antibolsonarismo já é maior que o antipetismo?

CB: O antibolsonarismo não é capaz de impedir o Bolsonaro de chegar ao segundo turno, mas acho que, chegando ao segundo turno, o anti-Bolsonaro é muito grande. Eu temo que ainda haja muita rejeição ao PT e ao Lula, [que abre margem] para o antibolsonarismo se manifestar em dois tipos de voto: no candidato anti-Bolsonaro e o branco e nulo. Eu temo pela ausência. Foram os ausentes que elegeram Bolsonaro em 2018.

CC: Anteriormente, o senhor citou o Moro e a Lava Jato. Como o senhor enxerga essa filiação do ex-juiz ao Podemos?

CB: Está provada a parcialidade, mas a Lava Jato apurou muita coisa que de fato aconteceu. O caso do Lula eu passaria, mas teve, sim, identificação de dinheiro fora [do País] que voltou. A operação tem o seu lado ruim, mas teve o lado bom também. O Moro deu esse passo [de entrar na política] ao aceitar ser ministro do Bolsonaro. Filiar-se a um partido é uma consequência natural do gesto político. A grande pergunta é se esse gesto é de quando ele foi ser ministro ou antes, quando ainda era juiz. As perseguições ao Lula foram por moralismo ou por política? Ele fez por crença na moralidade ou para prestar serviço para Bolsonaro?

CC: O senhor pretende ser candidato a algum cargo em 2022?

CB: Neste momento, não penso. Eu me sinto uma pessoa que, aos 77 anos, está em mutação de um político que escrevia nas horas vagas para um escritor que faz política nas horas vagas. Hoje [sexta-feira 5], foi boa parte da manhã discutindo política aqui no Distrito Federal. Não me vejo gastar os próximos oito meses de vida em campanha eleitoral para mim e sim ajudando a outro. Pode acontecer, mas hoje é muito difícil.

Trechos desta entrevista vão ao ar nesta semana no canal de CartaCapital no Youtube.?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen>

Alisson Matos

Alisson Matos Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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