‘Voltar às aulas deveria ser uma decisão de cada escola’, afirma pesquisadora

Helena Singer defende que unidades definam possíveis retornos a partir de diagnósticos locais integrados a saúde e assistência social

A pesquisadora Helena Singer defende que cada escola faça um diagnóstico local para o volta às aulas na pandemia. Créditos: divulgação

A pesquisadora Helena Singer defende que cada escola faça um diagnóstico local para o volta às aulas na pandemia. Créditos: divulgação

Educação

Enquanto o País ensaia a volta às aulas em suas principais redes educacionais, a pesquisadora Helena Singer, articuladora do Movimento de Inovação na Educação, pede uma reviravolta na escola.

É de uma campanha homônima que a especialista parte para refutar, com o apoio de outras instituições, a ideia de que as escolas devem reabrir as salas de aula, sobretudo no momento em que o País revive a alta de casos e mortes em decorrência do coronavírus.

 

 

“É uma fantasia essa história de que não haverá aglomeração. Não é possível, com a estrutura das escolas que a gente tem, com o número de alunos por unidade. Não vai acontecer. Não faz sentido voltar em rodízio para fazer o que era feito antes, tem que reinventar tudo do zero”, explica a especialista que defende que as escolas reabram enquanto equipamentos públicos para, em articulação com a saúde e assistência social, receberem as famílias e se antecipar ao planejamento escolar com base no diagnóstico local de suas comunidades.

Em entrevista a CartaCapital, Singer também rebate argumentos que pautam a reabertura das escolas dada “a perda de aprendizagem dos estudantes”, ou que cobram o retorno das unidades com base no funcionamento de bares e restaurantes. “Temos que evitar essas coisas alarmistas e simplificadoras”, explicita a pesquisadora que entende que a decisão de voltar ou não às aulas deveria ser de cada estabelecimento.

 

CartaCapital: Você é a favor do retorno das aulas presenciais nesse momento?

Helena Singer: Acho importante a escola reabrir como equipamento público para articular com equipamentos da saúde e da assistência social e diagnosticar a situação das comunidades. Temos informações aqui de São Paulo que cerca de 45% dos estudantes não participaram de nada do que foi oferecido pela escola nesse tempo todo. Não há notícias sobre esses alunos e suas famílias. É importante a escola se juntar com esses equipamentos para ir atrás, entender que situação essas famílias estão vivendo, como estão as crianças.

Agora, para dar aulas, do jeito que existia antes, de forma alguma. É uma fantasia essa história de que não haverá aglomeração. Não é possível com a estrutura das escolas que temos, não vai acontecer. Então não faz sentido falar em voltar em rodízio para fazer o que era feito antes, tem que reinventar tudo do zero.

Se vai funcionar em grupos pequenos, mais garantido do ponto de vista sanitário, os professores precisam ter tempo e planejamento pra que isso seja feito de forma consistente com a nova realidade do ponto de vista de organizar o espaço e o tempo. E não volta e depois planeja, como é o que normalmente se faz aqui no Brasil.

 

CC: O que você entende por reviravolta da escola?

HS: Essa ideia veio sendo construída ao longo da pandemia, desde o início, porque a gente ouvia organizações e pessoas dizendo ‘bom, mas vai voltar ao normal’ e muitos estão planejando o retorno nesse lugar. Não vai voltar ao normal. Primeiro porque as coisas não voltam, o tempo não volta atrás. E porque o normal não era bom.

Temos que usar esse tempo da pandemia para refletir sobre o normal e construir uma nova escola para o agora, pandemia e o pós pandemia. E isso pode ser feito com base nas muitas escolas e instituições educativas que já atuam de uma outra forma. Escolas que trabalham na perspectiva da educação integral tiveram mais recursos para tratar os dois grandes desafios colocados de início da pandemia: a reorganização do cotidiano das famílias e da relação ente professores e os alunos, e o acesso online. Essas unidades tinham mais informações sobre a desigualdade entre os estudantes, as famílias que tinham acesso e as que não tinham, as que estavam passando por emergências na questão sanitária e alimentar. Essas escolas se organizaram pra dar conta disso antes de falar de qualquer outro assunto.

Por que a escolas não ajudaram, por exemplo, as famílias a se cadastrarem no serviço para receber o auxílio emergencial?

Muitas pessoas não tinham acesso, se aglomeraram em filas. Por que as escolas não viraram pontos para isso? As escolas como equipamento da comunidade no momento em que mais estamos precisando de equipamentos públicos a serviço da população. Esses são os aspectos centrais desse movimento.

 

CC: Em relação às práticas educativas, o que pode ajudar esse repensar?


HS:
Precisamos planejar os próximos passos reconhecendo o que aprendemos com a pandemia, e não só as faltas e urgências. Os professores aprenderam muito nesse processo. Aprenderam sobre o uso das novas tecnologias, perderam preconceitos, aprenderam sobre a condição de vida dos seus estudantes, se aproximaram das famílias. Muitos se reuniram pela primeira vez em equipe para planejar os conteúdos. Soube de um caso de uma escola que percebeu que os alunos não estavam entregando as várias tarefas que eram pedidas por disciplina, e mudou isso ao integrá-los a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

Os pais também aprenderam muito sobre a vida escolar dos filhos, passaram a valorizar mais os professores. E os estudantes aprenderam muita coisa não só na escola, mas nas suas comunidades,  nas ações de solidariedade e apoio nos territórios. Muitos desses movimentos foram liderados pelos jovens. Esse aprendizado é muito valioso e tudo que for construído a partir de agora tem que partir disso. Não faz sentido planejar os próximos passos à luz do que existia há meses e desconsiderar tudo que foi aprendido e vivido nessa quarentena.

 

CC: Qual seria, então, os limites para a volta às aulas? A aplicação das vacinas?


HS:
Claro que devemos trabalhar sempre com as informações da Saúde. Mas, de modo geral, voltar ou não voltar às aulas deveria ser uma decisão de cada escola,  porque temos que garantir condições mínimas em cada uma dessas comunidades.

Temos que reconhecer a imensa desigualdade econômica, que impacta na questão sanitária. Não dá para tomar uma decisão que vale para todos, para um País inteiro, ou um estado e nem mesmo nas cidades. Para alguns bairros e comunidades, não reabrir as escolas é pior, porque as crianças estão ficando desassistidas. Mas há outros em que o risco de reabrir é maior.

Enfim, isso precisa ser definido coletivamente pelos equipamentos da saúde, da educação e assistência social, é preciso diagnosticar cada uma dessas comunidades para definir isso.

 

CC: Alguns especialistas defendem o retorno urgente das escolas devido à perda de aprendizagem dos estudantes. Como vê essa questão?

HS: Não faz sentido falar em falar de perda de aprendizagem na vida humana, já que ela acontece só na fase da demência. O ser humano aprende o tempo todo. Essa tese só faz sentido no contexto da educação escolar, que pode ser medida por provas. Veja, você mede em uma prova hoje se a pessoa aprendeu alguma coisa, a refaz daqui a três meses, e percebe que a pessoa deu repostas erradas para as mesmas questões que tinha acertado. Ela desaprendeu alguma coisa? Não, ela não sabia aquilo antes, tinha apenas memorizado algumas informações, que é o que uma prova é capaz de medir.

Quando a gente fala de educação tem que diferenciar muito essas coisas. A questão é, qual é o papel da escola? É dar informações pra gente memorizar a tempo de passar em certas provas da vida ou é construir ambientes capazes de aprendizados da vida inteira, como valorização, participação do coletivo, construção do bem comum e das capacidades de promovê-lo? Esses posicionamentos superficiais escondem questões de fundo: ‘qual é o papel da escola? o que esperamos dela?’ Como sempre prevaleceu essa visão de que a escola deve ensinar fatos para serem memorizados para passar em provas, então aí é sim uma questão de treinar as pessoas para que elas memorizem coisas e isso a tecnologia pode fazer. Poderíamos até falar de substituir as escolas pelo ensino remoto. Mas não é disso que se trata quando a gente fala de educação, não é isso que está escrito na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases, nos documentos orientadores da educação. Esse não é o papel da educação escolar. Então, a gente tem que evitar essas coisas alarmistas e simplificadoras.

 

 

CC: Como lidar com o aumento da subnotificação dos casos de violência doméstica contras as crianças, já que parte desses registros são feitos a partir do reconhecimento pelas unidades escolares?

HS: Assim como a fragmentação do conhecimento do ponto de vista da disciplina não faz sentido, a fragmentação dos serviços também não. O que eu quero dizer é que essa criança que sofre violência na família não frequenta só a escola, temos também um serviço de assistência social que deveria ser acionado para enfrentar essa situação. É provável que essas famílias morem em condições precárias, tenham perdido renda com a pandemia, o que vai deixando essa vivência mais tensa, essas questões estão todas integradas. A gente não vai conseguir dar conta disso só reabrindo as escolas, mas fazendo-as funcionar junto com a saúde e assistência social.

 

CC: Ainda assim, como equalizar a demanda de famílias que querem o retorno das escolas?


HS:
De novo, vou falar da importância do diagnóstico local, com cada escola diagnosticando as diferentes situações das famílias e criando caminhos possíveis e diferenciados para os diferentes grupos familiares. A escola pode reabrir e receber as crianças de famílias que não têm outra saída. Mas as que não querem mandar têm que receber materiais, recursos e tecnologias para conseguirem continuar remotamente com as atividades. Continua sendo melhor que menos pessoas circulem, tanto os estudantes, como os pais, responsáveis e funcionários das escolas. É menos equalizar e mais criar diferentes possibilidade para cada uma das comunidades escolares.

Isso só fica se torna mais difícil porque vai num movimento contrário à cultura escolar que tem séculos de homogenização, de tentar colocar todo mundo igual, na mesma série, assistindo à mesma aula, da mesma disciplina, no mesmo horário. Isso já não é o mais produtivo há muito tempo e continua sendo repetido. Por que agora teria que ser assim de novo exatamente no momento em que está escancarada a desigualdade? Vamos mudar essa lógica, fazer coisas diferentes para pessoas, famílias diferentes. O drama surge na tentativa de colocar todo mundo igual e quando se começa a comparar o que acontece na Europa com o que acontece aqui, ou as escolas privadas às públicas. São realidades diferentes, não faz sentido pegar um modelo da Inglaterra e dizer que tem aplicar em Manaus hoje.

 

CC: Como você avalia o enfrentamento da pandemia pelo Ministério da Educação?

HS: A falta de articulação foi a responsável pelo grande descalabro em todos os níveis. Ela não se fez presente prevendo os três níveis de governo, ou as conexões entre os diferentes setores governamentais. A partir da ausência nacional é que se criou uma pandemia sem coordenação geral. Na questão específica da educação básica que é a que eu acompanho mais, o Ministério da Educação, se não tivesse existido, não ia fazer falta nenhuma, porque não fez absolutamente nada. O Conselho Nacional de Educação, aos trancos e barrancos, com algumas resoluções por vezes bastante equivocadas, é que foi assumindo essa orientação para as secretarias de educação estaduais e municipais. A sociedade civil organizada também foi pontuando quando o conselho falava bobagem com correções posteriores. Isso segue acontecendo na total ausência do Ministério da Educação. Tudo que se refere ao que é de obrigação direta deles só piora como, por exemplo o Enem, a negativa de um novo adiamento do exame dado o aumento de casos e mortes na pandemia. Estamos em uma situação muito dramática.

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Repórter do site CartaEducação

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