Educação

USP adere, tardiamente, a cotas para pessoas com deficiência

A demora expõe a resistência histórica da USP em ampliar políticas de inclusão, mesmo sob pressão legal e mobilização interna

USP adere, tardiamente, a cotas para pessoas com deficiência
USP adere, tardiamente, a cotas para pessoas com deficiência
A Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
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Mais uma vez, a Universidade de São Paulo chega por último. A instituição anunciou que passará a adotar cotas para pessoas com deficiência (PcDs) apenas a partir do vestibular de 2028, tornando-se a última entre as grandes universidades públicas paulistas a implementar a medida.

A decisão atende à lei estadual nº 18.167, promulgada em julho de 2025, que obriga universidades estaduais a reservar vagas para esse público. Ainda assim, a adesão da USP ocorre de forma tardia — e incompleta. Modalidades de ingresso já existentes, como o Enem-USP, seguem sem previsão de cotas específicas para PcDs, o que contraria a tendência observada em outras instituições públicas.

A Universidade Estadual de Campinas, por exemplo, já adota esse tipo de política desde 2024. O contraste reforça uma crítica recorrente: a maior universidade do País mantém protagonismo na pesquisa, mas patina quando o tema é inclusão.

Outro entrave é a falta de transparência.Sem diagnóstico consistente, políticas públicas tendem a operar no escuro, e a ausência de dados detalhados sobre estudantes com deficiência no Anuário Estatístico da USP impede uma leitura precisa das desigualdades internas.

A professora da Faculdade de Educação Silvia Lya recebeu a notícia com ambivalência. “Finalmente! Tenho vergonha quando digo que sou uspiana”, afirma. “É um incômodo estar aqui sendo uma pessoa surda. Não oferecer adaptação também é excluir — mesmo quando não há barreiras formais no acesso, seja na graduação ou na pós-graduação.” A USP não dispõe de dados públicos sobre o número de docentes que possuem qualquer tipo de deficiência. No campus da Cidade Universitária, o movimento estudantil reconhece o trabalho de Lya e Fernanda Machado, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Foto: Marcos Santos/USP

Entre os estudantes, o anúncio também foi atravessado por surpresa e desconfiança. Matheus Feitosa, aluno do curso de Farmácia, conta que soube da medida por meio do coletivo de estudantes com autismo. “Acordei com uma ligação do meu coletivo. Isso só mostra como a USP ainda está em primeiro lugar em pesquisa, mas sempre atrasada quando o assunto são cotas e políticas sociais”, diz. “A gente não sabe, mas isso pode ter sido pressão da greve.”

Há três semanas, estudantes e trabalhadores mantêm uma greve que tem entre suas pautas a ampliação de políticas de permanência, inclusão e democratização do acesso. O movimento pressiona a reitoria a avançar em medidas estruturais e pode ter acelerado uma decisão que vinha sendo adiada.

Para implementar as cotas, a USP criou um grupo de trabalho com representantes institucionais, especialistas e membros da comunidade acadêmica. O colegiado terá 120 dias para definir critérios e elaborar uma proposta, que ainda passará por diferentes instâncias internas até chegar ao Conselho Universitário. A expectativa é de aprovação final apenas em 2027.

No Brasil, o número de estudantes com deficiência no ensino superior mais que dobrou na última década, passando de 33 mil em 2014 para cerca de 95 mil em 2024, segundo o Ministério da Educação. Ainda assim, esse grupo representa menos de 1% dos matriculados na graduação, o que evidencia a permanência de barreiras estruturais.

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