Educação

Sem avaliações, notas e reprovação: as estratégias de uma escola de Manaus para melhorar a volta às salas

Diretora da escola municipal Professor Waldir Garcia garante que a revisão das práticas pedagógicas foi fundamental para acolher os estudantes durante a pandemia

Créditos: Reprodução
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No momento em que educadores de todo o País procuram restabelecer a rotina escolar e driblar conflitos de convivência, uma escola de Manaus aposta em uma estratégia completamente disruptiva para trabalhar com seus estudantes: não há provas, notas e muito menos reprovação.

A decisão não é exatamente nova – integra um processo de revisão das práticas pedagógicas iniciado pela escola municipal Professor Waldir Garcia ainda em 2016 – mas ganhou contornos ainda mais sólidos com a pandemia e o reconhecimento das diversas dificuldades vivenciadas pelos estudantes e seus familiares.

Durante o período de fechamento da instituição, a diretora Lucia Cristina Cortez de Barros Santos liderou, em conjunto com sua equipe, um processo de busca ativa das crianças que tinham perdido o vínculo com a instituição na fase do ensino remoto. A educadora contou à reportagem de CartaCapital as diversas situações encontradas.

“Com a ida às casas dessas famílias, começamos a entender que muitas crianças não tinham celular nem televisão para acompanhar as aulas. Mais grave ainda, identificamos algumas vivendo com seus familiares em abrigos, após terem perdido suas moradias por falta de renda, e em situação de fome”, narrou. A escola atende um total de 264 estudantes no Ensino Fundamental I, sendo 52 crianças migrantes e refugiadas, a maioria haitianas e venezuelanas.

“A escola é feita de gente, não de tijolo, parede. Então quando começamos a colocar os sujeitos na centralidade do processo educativo, amar mais, respeitar mais, somos capazes de estabelecer uma convivência mais harmoniosa, um clima escolar muito mais adequado”.

À época, e com apoio de outras instituições do território, como igreja e casa de apoio ao migrante, a escola organizou uma campanha de arrecadação para angariar fundos para comprar celulares às crianças, ofertar internet e distribuir cestas básicas às famílias. “Mapeamos 134 crianças para receberem as cestas mensalmente”, conta a diretora.

Lucia conta que os esforços foram fundamentais para que a escola não tivesse nenhum caso de evasão escolar durante o período de fechamento, e consolidou a importância de práticas pedagógicas mais humanizadas no ambiente escolar.

“A todo o momento o nosso foco foi resgatar as pessoas, acolher as dificuldades dos estudantes, das famílias, dos nossos profissionais, não fazia sentido algum perder isso de vista na volta às aulas”, garante a diretora, que chegou a receber o prêmio de Educadora nota 10, em 2020, pelo projeto pedagógico com base no acolhimento.

Mudanças no currículo, na formação e avaliação

A educadora conta que a escola conseguiu ser mais acolhedora junto à sua comunidade ao lançar mão de metodologias ativas que prezam pelo protagonismo dos estudantes, pelo engajamento das famílias e pela aprendizagem a partir da colaboração. “Depois de tudo o que a gente viveu, não se pode deixar de lado os aspectos sociais, emocionais, culturais e físicos dessas crianças, elas precisam ser compreendidas em sua integralidade”, defende Lúcia Santos.

Com isso, alguns processos foram deixados para trás ou modificados. É o caso das avaliações que perderam sua forma tradicional para dar lugar à auto-avaliação e à avaliação por rubrica. “A avaliação  se dá de maneira processual, contínua. Na auto avaliação, as crianças se atribuem uma nota, que ainda é cobrada pelo histórico escolar, e ela é posteriormente discutida em conjunto com os demais professores e estudantes, para que seja validada ou não, de acordo com as habilidades que aquela criança deveria ter desenvolvido”, explica.

“Com isso, a avaliação se dá realmente a favor da aprendizagem, respeitando o tempo e o ritmo de cada criança, e permitindo intervenções pedagógicas assertivas ao longo do processo. Só com a personalização do ensino somos capazes de respeitar as singularidades”, acrescenta a diretora.

Também é mandatório que nenhuma criança fique com uma nota abaixo de cinco, a média escolar, isso porque a escola decidiu por não mais reprovar os seus estudantes.

“Rompemos com essa cultura da reprovação por entender que ela só desestimula, faz com que o estudante perca a vontade de continuar estudando”, explica a diretora, ao também afirmar que a estratégia em nada impacta o desempenho das crianças. Em 2019, a escola esteve entre as instituições da rede municipal de Manaus que atingiram os melhores índices no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com 7,5.

“O que a gente evidencia é que quando se acaba com a competição, com essa história de que os alunos têm que estudar para fazer uma prova e tirar uma nota, a gente tira o peso das costas deles. Eles estudam porque veem necessidade e retribuem esse significado à escola, à educação”, justifica Lúcia.

Nas salas de aula, as crianças não sentam em fileiras, mas em círculos, prevendo mais interação e colaboração entre elas e a equipe pedagógica. Também há mudanças na forma de apresentar os conteúdos, não mais segmentados por disciplinas em tempos de 50 minutos, em média. Os professores trabalham com os estudantes a partir de roteiros de estudo ‘interligando todas as disciplinas em um grande projeto”, esclarece Lúcia.

“Somos contra essa coisa de se dedicar 50 minutos à Matemática, depois acaba e vai para o Português. Isso deixa o processo muito mecânico, sem que o estudante tenha tempo de concluir seu raciocínio e isso só atrapalha, não favorece a aprendizagem”, acrescenta.

Para favorecer a participação da comunidade escolar, a escola ainda instituiu assembleias para discutir temas pertinentes ao espaço. Elas acontecem todas as sextas-feiras e a pauta é aberta à participação de todos, inclusive das famílias. A tradicional ‘reunião de pais’ com entrega de boletins também deu lugar a uma roda de conversa entre familiares e educadores.

A tradicional ‘reunião de pais’ com entrega de boletins deu lugar a uma roda de conversa entre familiares e educadores. Créditos: Divulgação

Lucia reconhece que a escola Waldir Garcia assume uma postura de ‘vanguarda’ ao romper com a forma escolar tradicional, mas assegura que a movimentação é possível e, inclusive, encontra respaldo na ‘autonomia escolar’, referendada pela Lei de Diretrizes e Bases. Ela destaca que o projeto pedagógico assumido pela escola a partir de 2016 passou por aprovação do conselho municipal de educação e foi construído a partir da colaboração entre escola, famílias e secretaria de educação.

“De modo geral, as escolas e as secretarias de educação vêm em uma corrida de anos de burocratização, em busca de uma padronização de processos. Com isso só vamos enrijecendo o sistema e operando em escolas inflexíveis, ditatoriais, que contribuem para a exclusão e perpetuação da desigualdade”, reconhece.

“A escola é feita de gente, não de tijolo, parede. Então quando começamos a colocar os sujeitos na centralidade do processo educativo, amar mais, respeitar mais, somos capazes de estabelecer uma convivência mais harmoniosa, um clima escolar muito mais adequado”, finaliza a diretora.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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