Educação
São Paulo corta a EJA enquanto milhões ainda não sabem ler
Matrículas na modalidade caíram mais de 50% na capital, apesar da demanda reprimida e dos discursos oficiais de inclusão
No fim do ano passado, Jovelina Pereira da Silva realizou um sonho adiado por mais de seis décadas. Recebeu, enfim, o diploma de conclusão do Ensino Fundamental pelo Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Professora Rose Mary Frasson, na Brasilândia, zona norte de São Paulo.
Foram 65 anos até que ela pudesse se tornar estudante. Na infância e na adolescência, o desejo de frequentar a escola foi sistematicamente barrado pelo pai, que não via utilidade nos estudos. Para ele, a escola apenas atrapalharia o trabalho pesado nas fazendas de soja e café do sul do Paraná, onde Jovelina dividia a lida com os irmãos.
“Meu pai nunca me deu esse direito, essa liberdade. Ele dizia que não valia a pena estudar, que o certo era trabalhar”, relembra. Hoje, aos 67 anos, alfabetizada, segura na leitura e na escrita, Jovelina descobriu um novo prazer: escrever. E cultiva o sonho de se tornar escritora.
A cerca de 15 quilômetros dali, no bairro do Canindé, Marinalva Rodrigues de Souza, de 65 anos, também celebrou recentemente o fechamento de um ciclo. Concluiu os estudos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Espaço de Bitita. Para ela, a escola significou, acima de tudo, autonomia.
“Eu ia ao supermercado e não conseguia ler os preços. Inventava que estava sem óculos, pedia para alguém ver pra mim”, conta. “No ônibus, eu me guiava pela cor. Às vezes me perdia.”
Jovelina e Marinalva são rostos de uma conquista individual, mas também símbolos de resistência coletiva. Ambas estudaram em equipamentos da Prefeitura de São Paulo num momento em que a cidade vem promovendo um encolhimento sistemático da EJA, modalidade voltada justamente a quem não conseguiu concluir a educação básica na idade considerada ‘adequada’.
Desde 2021, quando Ricardo Nunes assumiu a Prefeitura, a EJA registra queda contínua. Entre junho de 2021 e junho de 2025, o número de matrículas caiu 52%, despencando de 39.720 para 18.801 estudantes. Em outubro de 2025, último dado disponível no Portal de Dados Abertos da Prefeitura, eram 16.986 matrículas — uma redução de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na rede estadual, principal responsável pela oferta da EJA em Ensino Médio, a situação não é diferente. Entre 2011 e 2020, segundo dados de uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade, a Repu, houve uma redução de 54% na oferta de matrículas na modalidade. Já entre 2020 e 2023, 85.515 matrículas na EJA presencial deixaram de existir, uma variação negativa de 61,9%.
Os governos de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito Ricardo Nunes (MDB) protagonizam uma redução de turmas de Educação de Jovens e Adultos. Créditos: Mônica Andrade/Governo do Estado de SP
Esse movimento de retração ocorre apesar de um cenário alarmante. Segundo dados da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), de 2023, cerca de 830 mil pessoas com 15 anos ou mais, no estado de São Paulo, declararam não saber ler nem escrever um bilhete simples. O contingente representa 8,06% de todo o analfabetismo do País.
Em nível federal, o Ministério da Educação anunciou, no ano passado, metas para ampliar e valorizar a EJA, reconhecendo um atraso histórico. Em 2024, o Brasil ainda tinha 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não alfabetizadas — o equivalente a 5,3% da população, segundo a Pnad Contínua 2023, do IBGE. Entre as estratégias previstas no novo Plano Nacional de Educação estão a universalização do atendimento a jovens e adultos, a redução do analfabetismo para menos de 5% da população com 15 anos ou mais e a ampliação das matrículas da EJA articuladas à educação profissional.
A oferta de vagas: teoria x prática
Com o encerramento do ano letivo, a Prefeitura de São Paulo passou a divulgar a abertura de matrículas para a EJA — equivalente ao Ensino Fundamental — para 2026. “Matrículas abertas o ano todo”, anuncia um folder oficial. No site da Secretaria Municipal de Educação, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirma que 185 unidades educacionais ofertam a modalidade na cidade.
Na prática, o cenário é bem diferente.
A reportagem entrou em contato com a Diretoria Regional de Educação (DRE) Freguesia/Brasilândia, responsável por uma das regiões citadas. De uma lista de oito escolas que, em tese, ofertariam EJA, apenas três manterão a modalidade no próximo ano: a EMEF Dona Angelina Mattei Vita, a EMEF Professor Primo Pascoli Melare e o Cieja Professora Rose Mary Frasson — este último, um equipamento específico para jovens e adultos, com organização pedagógica própria e horários mais flexíveis, diferente das escolas regulares.
As outras cinco escolas descontinuaram a EJA entre 2023 e 2024. No próprio Cieja da Brasilândia, entre 2024 e 2025, oito turmas foram fechadas. Para 2026, a previsão é iniciar o ano com apenas 18 turmas — metade das 36 que funcionavam dois anos atrás.
“Há uma política de fechamento, os números mostram isso. Seja na rede municipal, estadual, no Brasil inteiro há um movimento nesse sentido”, cravou o assistente de direção da EMEF Espaço de Bitita, César Sampaio. “Muitas escolas da região fecharam a EJA, sobramos nós no território.”
A reportagem também identificou outra prática recorrente: a supressão do primeiro módulo da EJA, correspondente aos anos iniciais do Ensino Fundamental — justamente a etapa de alfabetização. Profissionais da rede pública veem nessa escolha mais uma engrenagem do processo de desmonte: sem o módulo inicial, pessoas não alfabetizadas simplesmente não conseguem ingressar na modalidade.
Na DRE Freguesia/Brasilândia, por exemplo, nenhuma das três escolas que manterão a EJA em 2026 ofertará o módulo 1. Na prática, isso significa que um adulto analfabeto, mesmo querendo estudar, não terá onde começar.
Para Sampaio, a má-vontade política e a miopia liberal pesam contra a EJA. “Ela custa mais caro. Tem gente que acha que você está gastando duas vezes com o mesmo aluno. Para uma lógica puramente economicista, isso vira ‘desperdício’. É uma ignorância.” Outro elemento é o impacto nos indicadores educacionais. “A evasão na EJA é alta, como em qualquer EJA no Brasil. Isso derruba a nota da escola em avaliações como o Ideb e o Saeb”, explica. “Tem diretor que não quer a modalidade porque isso afeta ranking e premiação. É um inibidor. As EJA que seguem abertas são aquelas que fazem questão, porque entendem que isso é um direito.”
A realidade na rede estadual
Entre 2020 e 2023, segundo os dados da Repu, foram extintas 1.945 turmas de EJA na rede estadual de São Paulo (–45,8%). A modalidade de Ensino Médio concentrou as maiores perdas. No mesmo intervalo, 289 escolas deixaram de ofertar EJA — uma redução de 30,2%.
O dado se torna ainda mais contraditório diante da demanda potencial. Em 2022, o IBGE estimou que São Paulo tinha 2,77 milhões de analfabetos funcionais — 7,2% da população estadual. Entre pessoas com 25 anos ou mais, 37,2% não concluíram a educação básica, o equivalente a 11,75 milhões de pessoas. Um público imenso que, na prática, vê suas portas de acesso à escola sendo fechadas.
“Diante de tamanha demanda social, o que se observa é justamente o contrário do esperado: uma redução progressiva de matrículas, turmas e escolas com EJA”, afirmam os pesquisadores na nota técnica.
Para o pesquisador Fernando Cássio, integrante da rede, o cenário revela a ausência de uma política educacional estruturada para a modalidade. “Falta meta, falta acompanhamento, falta busca ativa. O que existe é descontinuidade e erro na condução da oferta.”

Ele critica, ainda, a estratégia de concentrar vagas em poucas escolas, o chamado efeito de “nucleação”. “A demanda da EJA é descentralizada. Se a escola não for perto da casa da pessoa, ela não vai. Não adianta anunciar 50 vagas numa escola central e depois dizer que não há procura. Isso é uma narrativa falsa.”
Segundo Cássio, sem turmas menores e oferta territorializada, a EJA acaba sendo esvaziada ou transformada em política de certificação em massa, sem garantir o direito à educação. Ele cita, como exemplo, o projeto-piloto do governo estadual que prevê EJA flexível, com presença não obrigatória e ensino a distância. “É mais uma forma de afastar estudantes ‘indesejados’ dos indicadores e maquiar resultados. Um manejo claramente eleitoreiro.”
O pesquisador reconhece que uma EJA de qualidade exige mais investimento — especialmente dos municípios — e defende que isso esteja articulado a um financiamento robusto da educação, como a destinação de 10% do PIB prevista no PNE. “Sem recurso garantido no orçamento do MEC, a EJA continuará sendo tratada como política secundária.”
O que dizem os governos paulistas
CartaCapital solicitou posicionamento ao governo do estado de São Paulo e à Prefeitura da capital.
Em nota, a secretaria estadual de educação informou que atende aproximadamente 110 mil alunos na modalidade EJA. Justificou, ainda, estar reestruturando a modalidade devido às mudanças no perfil demográfico da população e demanda em queda para facilitar a permanência dos alunos até a conclusão do curso, caso do modelo EJA de presença flexível que, segunda a pasta, é inspirado na experiência bem-sucedida dos Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos (CEEJAs).
Ainda de acordo com o governo do estado, atualmente, a EJA está disponível em 651 escolas, sendo 588 com presença regular e 63 no modelo flexível. A previsão é a de que, a partir de fevereiro, 88 novas escolas tenham o formato flexível, além dos 43 CEEJAs em todo o estado. Já em agosto de 2026, mais 100 escolas estaduais vão ampliar a oferta da EJA, totalizando 251 unidades no modelo flexível. O governo estadual afirmou ainda que novas turmas de presença regular são abertas sempre que há demanda comprovada, e que as matrículas podem ser realizadas a qualquer momento do ano nas unidades escolares, nos postos do Poupatempo ou pela Secretaria Escolar Digital (SED).
Já a Prefeitura afirmou, em nota, que a abertura de turmas ocorre “conforme a necessidade” e que atende 100% da demanda por vagas, considerando também programas como o MOVA e os Centros Municipais de Capacitação e Treinamento. A gestão alegou ainda que a queda nas matrículas decorre da obrigatoriedade escolar a partir dos 4 anos de idade e citou dados do Censo Escolar que apontam redução nacional de 14% na EJA entre 2021 e 2024.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Escola gentrificada
Por Mariana Serafini
Aprovação automática agita a corrida dos estados pelo Ideb
Por Fernando Cássio
Falsa autonomia de Feder transforma diretores em carrascos
Por Fernando Cássio



