Professora recebe intimação policial após queixa contra conteúdo ‘esquerdista’

Este não é o primeiro caso envolvendo a aluna. A mãe da estudante já teria invadido o espaço da aula online para questionar o tema abordado

Foto: Wikimedia Commons

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Educação,Política

Uma professora de filosofia da escola estadual Thales de Azevedo, em Salvador, na Bahia, recebeu uma intimação policial após uma aluna prestar queixa na delegacia de que o conteúdo abordado nas aulas seria ‘esquerdista’.

Temas como racismo, machismo, diversidade e outras questões de gênero, previstos na Lei de Diretrizes e Bases e abordados na aula de filosofia, teriam incomodado a estudante. Acompanhada da mãe, a aluna recorreu à Delegacia de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente.

A ação policial foi denunciada e repudiada pela Associação dos Professores Licenciados do Brasil (APLB) por considerar que a intimação fere os princípios legais de liberdade de cátedra e de autonomia pedagógica. A direção da escola também divulgou uma nota em apoio à professora.

“Infelizmente, as alegações de que os conteúdos curriculares das ciências humanas são de cunho ‘esquerdista’ e os conteúdos de linguagens são de ‘doutrinação feminista’ têm provocado o enviesamento dos conhecimentos historicamente construídos e dos fenômenos sociais, em silenciamento dos docentes”, diz um trecho da nota.

“Essa situação, portanto, viola o direito profissional e o respeito ao trabalho docente em disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e do Plano Nacional de Educação”, acrescenta a direção da escola no texto.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, este não seria o primeiro caso entre a aluna e os professores da escola. Durante as aulas online de inglês, a mãe da estudante teria invadido o espaço da aula para questionar o tema abordado em sala. Segundo ela, as explicações da professora seriam ‘feministas’.

Em outro episódio, pais e mães também publicaram uma nota criticando as palestras e professores convidados para um seminário online na escola pelos mesmos motivos.

A direção do colégio e a APLB afirmam estarem sofrendo perseguição organizada por grupos de extrema-direita. A associação diz ainda que irá procurar a Assembleia Legislativa e a Câmara de Vereadores da cidade para que se solidarizem com os professores vítimas de perseguição.

“A direção da APLB-Sindicato lamenta profundamente as ocorrências e reitera o apoio jurídico e psicológico à professora, exigindo a apuração dos fatos ocorridos”, escreve a APLB no seu comunicado.

Após a intimação para depor na delegacia, a professora ficou emocionalmente abalada e teve de ser levada a um hospital para ser atendida por médicos.

Confira a nota da escola:

 

Confira a nota da APLB:

A APLB-Sindicato, legítima representante dos trabalhadores e trabalhadoras em Educação vem a público manifestar toda a sua solidariedade e apoio jurídico aos docentes da Escola Estadual Thales de Azevedo por tentativas de intimidação, coação e pressão psicológica por grupos de extrema direita que tentam cercear a livre expressão e tumultuar aulas e algumas atividades propostas pelos professores e professoras.

O departamento jurídico da APLB foi acionado atendendo o apelo de um grupo de professores do referido colégio que esteve na sede do Sindicato e relatou observar atitudes inamistosas e de perseguição de uma determinada estudante contra uma das professoras de Filosofia por conta da mesma apresentar temática nas aulas referentes a questões de gênero, racismo, assédio, machismo, diversidade, entre outras.

A comunidade escolar foi tomada de surpresa ao tomar conhecimento de que a referida aluna e sua genitora apresentou notícia crime na DERCCA contra a professora de Filosofia. Após receber a intimação, a professora encontra-se extremamente abalada emocionalmente, necessitando inclusive de ser hospitalizada para atendimento médico de urgência. Motivo pelo qual estamos preservando sua identidade.

Para o coordenador-geral Rui Oliveira é inadmissível esta perseguição aos docentes. “Infelizmente são ações de grupos ligados à pessoas de extrema direita, que desrespeitam e ferem a liberdade de cátedra. Não vamos permitir que isso aconteça. Vamos dar todo o apoio para a comunidade escolar do Thales de Azevedo, principalmente à professora que foi intimada, bem como disponibilizar nossos advogados para acompanhá-la no dia da audiência. Vamos continuar denunciando toda a forma de abuso e perseguição”, destacou Rui. Ele ainda se mostra bastante preocupado com as relações internas entre os alunos após o ocorrido. Para a APLB o ambiente escolar deve ser preservado das divergências políticas. A disseminação de Fake News e discussões acirradas e desrespeitosas, como adotadas pela extrema direita, não podem fazer parte do cotidiano escolar, pois os impactos podem ser muito graves.

Rui Oliveira esteve nesta quinta-feira (18), na escola Thales de Azevedo, com um representante do Jurídico, José Lucas Sobrinho e demais diretores, como João Santana e Delsuc Machado, para apurar as denúncias e apoiar os docentes. Ficou estabelecido que a unidade escolar irá elaborar um documento que a APLB divulgará amplamente na imprensa e para a Secretaria de Educação estadual.

Ainda segundo informações, no mês de agosto foi realizado um seminário online pela escola e após o evento um grupo de estudantes e seus responsáveis expediram uma nota atacando os professores e palestrantes. Em outra ocasião, durante uma aula remota da disciplina de Inglês, a mãe de uma estudante, a mesma que deu entrada na queixa contra a professora de Filosofia, invadiu o espaço da aula online para inquirir e exigir explicações sobre a temática, que segundo ela seria inadequada por se tratar de feminismo.

A direção da APLB-Sindicato lamenta profundamente as ocorrências e reitera o apoio jurídico e psicológico à professora, exigindo a apuração dos fatos ocorridos, bem como também irá se articular para denunciar nos veículos de comunicação e nas Casas Legislativas, como Câmara de Vereadores e Assembleia Estadual, exibindo faixas e cartazes pedindo total solidariedade a todos os profissionais em Educação.

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Repórter do site de CartaCapital

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