Hoje é noite de rodízio

No cardápio tem picanha, camarão, Base Nacional Comum Curricular, ensino apostilado massificado e controle do trabalho docente

(Foto: iStock)

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Educação,Opinião

Na escola privada onde trabalhava, foi convidado para um evento: uma palestra sobre “os desdobramentos da tecnologia na perspectiva da BNCC”, organizada por uma grande editora de livros didáticos. O tema da apresentação motivara a diretora da escola a inscrevê-lo — além de professor de Ciências, o rapaz se transformara em uma espécie de referência no debate sobre tecnologias na sala de aula. Após a palestra, haveria um jantar.

Movido pela curiosidade de mestrando – e também pela chance de forrar o estômago –, aceitou o convite. Enfrentou, numa quinta à noite, o trânsito pesado da Marginal Tietê até a tradicional churrascaria Boi Preto. À época, o preço do rodízio girava em torno dos 90 reais por pessoa, bebidas não incluídas. Convertendo esse valor em unidades de hora-aula, a oferta parecia vantajosa. Em casa, o jantar daquela noite seria, provavelmente, aquilo que houvesse na geladeira.

A remuneração dos professores em escolas privadas – especialmente nas instituições de ensino apostilado massificado que atendem a uma classe média menos remediada – não costuma ser muito diferente daquela das redes públicas, com a desvantagem adicional de que esses profissionais não gozam da estabilidade que ainda resta aos servidores.

Foram 40 minutos de uma ‘aula-show’ em que o verdadeiro show foi o da superficialidade

O professor chegou pontualmente ao restaurante. Foi encaminhado a uma ala reservada aos participantes do evento. Perguntaram-lhe o nome e o apresentaram a um salão meio vazio. Entre os presentes, representantes da empresa usando crachás e algumas poucas pessoas, como ele, sem identificação. O local fora preparado com impressos da editora, pilhas de livros didáticos e paradidáticos e coleções de materiais apostilados. Telão, projetor e aparelhagem de som já estavam devidamente testados.

Fartas porções de camarão empanado, polenta e batata-frita – acompanhadas de suco, refrigerante e água mineral – faziam a sua noite mais feliz. Recém-casado, queria que a sua companheira também pudesse aproveitar os aperitivos, mas o convite era individual. Bebia um suco de abacaxi, quando, no momento em que levou o primeiro camarão à boca, foi interrompido por um representante comercial da editora, que se apresentou como responsável pelo evento e pelo convite feito.

A julgar pela abordagem inconveniente, o representante também se sentia no direito de abortar a trajetória dos camarões empanados à boca de seus convidados. Ele queria ouvir a opinião do convidado sobre o evento, enfatizando que poderia contar com ele como um parceiro da escola a partir daquele momento. O camarão esfriava sobre o guardanapo repousado na mesa, enquanto o jovem sorria amarelo para o anfitrião.

Meia hora depois, havia 40 convidados no recinto: em sua maioria diretores e coordenadores de pequenas e médias escolas privadas da cidade de São Paulo. Os rodeavam dez representantes da editora: vendedores, assessores, consultores, palestrante, gerente, diretor etc. Professores iguais a ele havia dois ou três.

A abertura foi feita por um dos diretores da empresa, que exibiu uma sequência de slides com imagens de salas de aula. Fotografias embaçadas em preto-e-branco iam dando lugar a imagens coloridas em alta resolução, ao passo em que estudantes bravos, mal-humorados, indiferentes e sonolentos iam se transfigurando em crianças felizes manuseando computadores, tablets e smartphones. A visão da escola do futuro terminava num slide com o logo da editora que patrocinava o regabofe.

Em seguida veio o palestrante, que começou a falar das “macrocompetências” da Base Nacional Comum Curricular sob a ótica do uso de ferramentas tecnológicas na escola. Segundo o pragmático especialista, consultor educacional de institutos empresariais e um dos autores da editora anfitriã, a tecnologia “permite acessar informações muito rapidamente”, sendo necessário ensinar os estudantes a utilizar essas informações.

Foram 40 minutos de uma “aula-show” em que o verdadeiro show foi o da superficialidade. Se a intenção era promover o efeito redentor do uso de tablets e outros gadgets na sala de aula, a palestra foi um contraexemplo da correlação positiva entre uso de tecnologias e boa didática. A falta de demanda para o cérebro fez o estômago do jovem professor voltar a roncar. Mas o jantar iria atrasar um pouco.

Terminada a palestra – e isso não estava claro no convite –, uma consultora educacional iniciou um “bate-papo” com os presentes sobre o novo material apostilado “já adaptado à BNCC” que estava sendo lançado pela editora. A representante ponderou que o objetivo não era, de forma alguma, ensinar o professor a dar aula. “O que a gente quer é que o professor aprenda a utilizar o material da forma certa.”

Não obstante fajuto, aquele aceno à autonomia docente não agradou uma das diretoras presentes, que foi ao ponto: “Quais são as possibilidades que o material oferece para que possamos controlar como o professor utiliza as apostilas e os encartes complementares?”. A resposta da representante a tranquilizou: “Nos livros existem sugestões de projetos. No nosso material, as sugestões se tornam obrigatórias ao professor. É uma forma de ele aprender as novidades!”

No desenrolar da conversa, ficou claro que o “sistema” que estava sendo vendido não se resumia a um simples conjunto de apostilas padronizadas. “Nós faremos a gestão da qualidade na escola. Temos simulados semestrais, de acordo com as provas de larga escala que temos no Brasil. Nosso programa, chamado ‘Acelerador de Resultados’, vai diagnosticar os problemas de aprendizagem e tratá-los como se deve”, disse a consultora. E concluiu com um pedido aos diretores: “Vocês vão ter que me dar espaço nas suas escolas. Nós, em quatro horas de palestra, ensinamos o professor a fazer o que é mais atual”.

Enquanto a maioria dos convidados parecia empolgadíssima, o estômago do rapaz doía, maltratado pela fome, pelo excesso de frituras e pelo vilipêndio profissional sofrido nas últimas duas horas. Concluídas as apresentações, aplausos efusivos e rodízio liberado. Picanha, sashimi e saladas à vontade. Quando estava para sair, o mesmo representante comercial que lhe tirara o camarão da boca se aproximou mais uma vez. Estendeu-lhe o braço, cartão de visita nas mãos, e perguntou: “Gostou?”. “Obviamente!”, respondeu o professor. No carro, voltando para casa, concluiu que não havia mentido ao generoso anfitrião: apreciou muito a comida.

(História baseada em relato e transcrições de um professor de escola privada, que deseja manter o anonimato e o emprego)

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Doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

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