Associação de Filosofia repudia Weintraub por cortar recursos da área

'Se você [governo] paga uma Faculdade de Filosofia pra depois o bonitinho fazer artesanato de epóxi, ele que pague', declarou o ministro

O ministro Abraham Weintraub. Foto: Gabriel Jabur/MEC

O ministro Abraham Weintraub. Foto: Gabriel Jabur/MEC

Educação

A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) divulgou uma nota repudiando uma declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sobre os cursos de Ciências Humanas, especialmente Filosofia. Em entrevista concedida à TV Paranaíba, que foi ao ar no dia 2 de setembro, Weintraub reafirmou a intenção do governo de diminuir os recursos para a área para investir na educação básica.

“Se você [governo] paga uma Faculdade de Filosofia que vai custar uma fortuna, 600, 700 mil reais pra depois o bonitinho fazer artesanato de epóxi, cachimbo de duende e vender na calçada, ele que pague. Com esse dinheiro, 90 mil reais, eu boto 20 crianças numa ótima pré-escola”, declarou.

Para a ANPOF, a fim de justificar a diminuição dos gastos com as Humanidades, o ministro fez uma fala inconsistente e desrespeitosa, que demonstra inaceitável desconhecimento da área.

“Na entrevista, lamentavelmente o ministro não apresenta dados consistentes que justifiquem tecnicamente sua intenção em cortar gastos nas Ciências Humanas, preferindo, ao invés disso, posicionar-se de forma ideológica e ofensiva especialmente à Filosofia. Infelizmente, o ministro mostra mais uma vez que não tem um argumento, mas sim um particular ressentimento que o obstina a construir uma caricatura da nossa área, e mais ainda, uma caricatura mal feita que depõe contra sua trajetória de “executivo de grandes projetos” na iniciativa privada. Como o ministro tem uma caricatura e não um argumento, então é preciso deixar essa caricatura aos que se estimulam pela retórica vazia e lembrá-lo que um Projeto de Educação Nacional não deve ser pensado no curto prazo, mas sim com vistas às mudanças estruturais no País”, traz um trecho da nota de repúdio.

A Associação defende o papel da universidade pública na mudança da estrutura social, sendo capaz de iniciar o rompimento do ciclo de pobreza, não só com os cursos de Filosofia, mas com todas as licenciaturas que formam professores da educação básica.

“O ministro simplesmente desconhece ou insiste em ignorar uma frequente lógica de inserção social e geração de renda aos cofres públicos – incluindo aí União, estados e municípios –, cujo desdobramento e evolução ocorrem majoritariamente com a seguinte sequência: 1) Os (as) estudantes da Filosofia vêm em sua maioria de famílias trabalhadoras e normalmente de baixa renda; 2) Ingressam na universidade pública e muitos iniciam pesquisas de Iniciação Científica (Pibic) ou Iniciação à Docência (Pibid) com bolsa; 3) Em vários casos, esses estudantes repetem os programas Pibic ou Pibid por mais dois ou três anos, cujas bolsas são os únicos recursos que têm para sobrevier ao longo da graduação; 4) Ao se formarem e, cumprindo a evolução da formação continuada, geralmente são aprovados em cursos de mestrado, sendo igualmente financiados com bolsas de pós-graduação; 5) Muitos defendem suas dissertações e ingressam diretamente na educação básica, seja via contratos temporários, seja via concursos públicos nos estados da federação; 6) Ao iniciarem suas atividades como professores, pagam impostos que são retidos na fonte aumentando a arrecadação nacional, financiam sua casa, eventualmente têm condições de pagarem um curso de língua estrangeira aos filhos, etc., fazendo o dinheiro circular na estrutura social e, consequentemente, aquecendo a economia por meio do consumo e geração de caixa via tributos ao Tesouro”.

A ANPOF critica a postura de Weintraub. “Ao construir uma caricatura para justificar corte de gastos nas Ciências Humanas, o ministro ignora não apenas a realidade da sua pasta ministerial e do ambiente universitário, como também mostra desconhecimento de premissas básicas de ciclos econômicos, tal como esse que mencionamos, e que é tão comum nas Universidades brasileiras e na vida dos nossos estudantes de Filosofia”, grafa.

E continua: “Ao invés do emprego da retórica vazia e das caricaturas carregadas de rancor e desrespeito, bem como no desejo de que o ministro supere a ideia limitada que demonstra ter sobre o tipo de “retorno” gerado pela Filosofia e pelas Humanidades – visto que um projeto nacional de educação tem de ser pensado no longo prazo, incluindo aí não apenas o horizonte econômico, mas também uma sociedade livre de preconceitos, menos ignorante, mais desenvolvida e mais justa –, convidamos o ministro a conhecer os inúmeros casos que exprimem esse ciclo básico de geração de renda para a economia nacional, oriundo não apenas da Filosofia, mas de todas as Ciências Humanas”.

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Repórter do site CartaEducação

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