Educação
Alunos e professores fazem greve contra mudança de campus da UnDF
A transferência de cursos do Lago Norte para Ceilândia, sem consulta prévia, provoca paralisação, ocupação e críticas ao uso de recursos da universidade
Começa nesta segunda-feira 30 a transferência do Campus Norte da Universidade do Distrito Federal (UnDF), que deixará o Lago Norte, em Brasília, para funcionar em Ceilândia, a mais de 30 quilômetros de distância. A medida foi determinada pelo governo do DF, que firmou contrato para instalar 11 cursos em um prédio alugado do Centro Universitário IESB, ao custo aproximado de 110 milhões de reais por cinco anos.
A decisão, sem consulta prévia, desencadeou uma greve por tempo indeterminado de professores e estudantes. A paralisação foi aprovada em assembleia docente em 12 de março e teve adesão estudantil dias depois. Desde então, as aulas estão suspensas, e o movimento chegou a ocupar o Campus Norte por dois dias na última semana.
Entre as principais críticas estão a falta de diálogo, o impacto financeiro do contrato — que será pago com recursos do fundo da universidade — e o que estudantes e docentes classificam como um processo de precarização do ensino público.
O movimento também ocorre em meio a reivindicações mais amplas dos professores, que incluem valorização da carreira, melhores condições de trabalho e maior participação nas decisões administrativas da universidade, como uma eleição direta para a reitoria. A categoria ainda aponta ausência de instâncias deliberativas consolidadas e dificuldades no funcionamento de órgãos colegiados, o que, segundo os docentes, limita o debate interno sobre medidas estruturais.
Uma representante da seção sindical dos docentes (SinDUnDF) que preferiu não se identificar destacou como central a falta de instâncias deliberativas formais. Ela ressaltou também que a legislação determina a composição majoritária de docentes nesses colegiados.
De acordo com a representante, a inexistência desse espaço impacta diretamente decisões estruturais, como o caso da transferência de campus. “Por não ter conselho universitário, alunos e professores receberam um e-mail falando que no meio do semestre seria feita a transferência.”
A alteração de endereço também levanta preocupações sobre permanência estudantil. Um levantamento do Diretório Central Acadêmico indica que cerca de 70% dos alunos podem ser impactados pela mudança, com risco de trancamento ou abandono dos cursos. Em um questionário aplicado a estudantes, 313 de 454 respondentes afirmaram não ter condições de se deslocar até Ceilândia.
Grande parte dos alunos reside em regiões próximas ao atual campus, como Planaltina, Sobradinho, Paranoá e Varjão. Com a transferência, o trajeto até a universidade tende a se tornar mais longo e custoso. Já há registro de trancamentos de matrícula nas últimas semanas.
A universidade orientou que as atividades acadêmicas dos cursos transferidos comecem em Ceilândia nesta segunda-feira. Também abriu um prazo até a próxima sexta-feira 3 para que estudantes manifestem interesse em mudança interna de curso, como alternativa para permanecer em unidades que não foram transferidas. Ou seja, um estudante que cursa o quarto semestre de Letras-Português pode se transferir para o curso de Tecnologia da Informação, por exemplo – o que demonstra improviso da gestão.
O governo do Distrito Federal e a reitoria da UnDF afirmam que a medida faz parte de um processo de reorganização administrativa e expansão da universidade, com o objetivo de ampliar o acesso ao ensino superior em regiões mais populosas do DF. Ceilândia é a maior região administrativa do Distrito Federal e uma das mais pobres.
Apesar disso, estudantes e professores defendem que o investimento poderia ser direcionado à construção de campi próprios em terrenos e prédios já disponíveis para a universidade, em vez da locação de um espaço temporário. Também cobram políticas de permanência, como melhorias no transporte e na infraestrutura estudantil.
A greve é encabeçada pelo SinDUnDF, que convocou um ato para esta segunda-feira na Assembleia Legislativa do Distrito Federal. A posse de Celina Leão (PP) está marcada para esta segunda, exatamente no local.
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