Educação

Alunos da USP protestam contra falta d’água em alojamento estudantil

Segundo moradores do Crusp, o problema ocorre desde agosto; os manifestantes também exigem reajuste em auxílio permanência e a saída da PM do campus

(Foto: Sebastião Moura)
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Na manhã desta quarta-feira 20, cerca de 230 estudantes bloquearam a entrada do Portão 1, principal entrada da Cidade Universitária  para pressionar a reitoria a tomar providências quanto aos cortes de água constantes em vários apartamentos do Conjunto Residencial da USP, o Crusp. Os manifestantes também exigem o reajuste do auxílio de permanência a estudantes de baixa renda – de 500 reais para 1000 reais – e a retirada da base da Polícia Militar instalada no campus.

O ato faz parte de uma série de mobilizações que serão realizadas ao longo do dia. A partir das 18h, haverá uma nova passeata até a reitoria, partindo do vão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a FFLCH.

Por volta das 6h30, os manifestantes fizeram um cordão em frente à entrada e impediram a passagem dos carros e ônibus por aproximadamente duas horas. Em seguida, o grupo marchou em direção à reitoria, onde uma comissão de quatro representantes entregou dois documentos: o Manifesto por Permanência Estudantil na USP, assinada pelo DCE e apoiada pela Adusp (Associação de Docentes da USP) e a Carta de Reivindicações do Comitê pela Reforma Democrática do CRUSP, assinada por quarenta entidades estudantis e doze organizações políticas.

“Se a água não voltar, a USP vai parar”

A carta apresenta duas reivindicações principais. A primeira é o fim da falta d’água. Os moradores contam que, na semana do dia 15 a 22 de Agosto, todo o CRUSP ficou sem água. Depois disso, alguns blocos tiveram um retorno parcial da água, e em outros o fluxo tem oscilado bastante. Ontem, a reitoria publicou um comunicado afirmando que não houve ocorrências de desabastecimento desde a manhã do dia 4 de setembro.

“A reitoria fala que é um problema complexo, um problema de estrutura, mas todas as propostas mais imediatas que o DCE, a Associação de Moradores do CRUSP e o movimento estudantil têm apresentado não foram aceitas”, contou a CartaCapital a estudante Dany Oliveira, membro do DCE e da União Estadual do Estudantes de São Paulo.

(Foto: Sebastião Moura)


Além de medidas emergenciais, como a contratação de caminhões pipa, os manifestantes exigem a adoção de medidas estruturais que incluam a construção de um sistema de reservatórios que seja “suficientes para garantir o amortecimento das quedas de abastecimento.”  Outra demanda é um compromisso documental da reitoria de que todas as reformas no conjunto residencial sejam avisadas com antecedência e decididas juntamente aos moradores via Comitê.

Procurada por CartaCapital após os atos, a assessoria de imprensa da reitoria disse novamente que o fornecimento de água está normalizado desde 4 de setembro, mas que seguem recebendo reclamações de moradores. Também afirmaram que os reservatórios serão ampliados e que o nível das caixas d’água tem sido monitorado duas vezes ao dia, uma programação de manutenção preventiva das bombas foi definida e a Sabesb tem enviado técnicos para colaborar com a equipe da universidade.

Quando questionada especificamente em relação à demanda de um compromisso documental de que as decisões sobre a reforma sejam feitas juntamente aos estudantes via Comitê Democrático, a instituição preferiu não se pronunciar.

Também se destacou durante o ato a demanda pelo reajuste do auxílio permanência  O atual valor do benefício, fixado em 500 reais, não tem sido suficiente para garantir aos estudantes de baixa renda condições dignas de moradia, alimentação e transporte. Muitos deles, vale lembrar, estão matriculados em cursos integrais que impossibilitam conciliar estudo e trabalho.

“500 reais é pouco, meu aluguel é quase o dobro!” foi uma das palavras de ordem mais repetidas no ato. Em uma de suas falas à multidão, a militante Dany Oliveira falou sobre como os aluguéis na região do Butantã frequentemente estão acima da faixa dos 1000 reais. “A USP se gaba de em 2021 ter alcançado maioria de alunos pobres, mas “expulsa diariamente esses estudantes do espaço estudantil”, comentou.

 PM fora da USP

Na avaliação de grande parte do movimento estudantil, essa expulsão também se manifesta na repressão promovida pela Polícia Militar, que desde 2020 tem uma base fixa dentro do campus.

A instalação da primeira base ocorreu em 2011, após o assassinato de um estudante na Faculdade de Economia e Administração (FEA), morto com um tiro na nuca. “A base está atualmente localizada estrategicamente perto da FFLCH, um polo nacional do movimento estudantil, e do CRUSP, onde estão os moradores socioeconomicamente mais vulneráveis, pretos e periféricos”, afirma o militante da União da Juventude Comunista e diretor do DCE Artur Damião.

 Damião contrapõe: “Havia uma patrulha da PM dentro da USP nessa noite. O assassinato teria ocorrido independente da presença de uma base pois a Polícia Militar é ineficaz para combater esse tipo de crime – ela serve apenas para reprimir a organização dos Estudantes dos trabalhadores e dos professores”.

“Eu e vários amigos meus já fomos ameaçados de morte em várias ocasiões pelos policiais que estão no campus”, relata um estudante e morador do Crusp que preferiu não se identificar. “ Todo ano tem um caso de alguém no Crusp que se suicida e isso é reflexo de vários problemas, do fato de a elite para quem a USP foi construída não querer nós favelados aqui. Eles querem a gente morto ou embaixo dos pés deles.”

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