Disciplinas

Além do certo e do errado

Um guia para trabalhar a variação linguística em sala de aula

. diálogo variação linguística língua normal culta
. diálogo variação linguística língua normal culta
Apoie Siga-nos no

A finalidade do ensino do português como língua materna é ensinar aos alunos a modalidade escrita do Português Brasileiro, cuja variedade falada eles aprenderam em casa. A variedade familiar é também chamada “língua vernacular”. A língua escrita é também chamada “padrão culto”, que pode ser falado e escrito.

O padrão culto do Português Brasileiro é a língua do Estado. O dever da escolar é ensinar a língua do Estado, sem discriminar a língua vernacular – pois essa é a identidade linguística dos alunos quando chegam à escola.

Como ensinar o padrão culto aos alunos, considerando-se sua diversa formação sociolinguística? Corrigindo seus desvios em relação ao padrão culto? Ou levando-os a refletir sobre recortes de língua, de forma a que eles mesmos identifiquem as respectivas variedades, utilizando aquela que melhor corresponda às situações de fala.

Nesta aula, vamos exemplificar como o segundo caminho pode ser percorrido. Já sabemos que concentrar a aula nas questões do certo e do errado não tem dado muito certo.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste texto
Anos do ciclo: 7° ao 9°
[bs_citem title=”Leia Mais” id=”citem_5422-8f97″ parent=”collapse_e98f-4f2c”]

A variação da língua Trabalhe o tema por meio da leitura de diálogos

Tempo de duração: 5 aulas

1. Vamos ler em sala de aula estes diálogos:

Diálogo 1

A) Mas que tempo seco, né não? Poeira muita, os dia passa e neca de chovê.
B) Bom, os cara que entende disso tá falando que chuva só no meis que vem, e óia lá. Já arrumei um barde mode recoiê a chuva do teiado, quando ela chegá.

Diálogo 2

A) Mas que tempo seco! Muita poeira, os dias passam e não chove.
B) Os especialistas que entendem disso estão falando que poderá chover apenas no mês que vem, e mesmo assim não há certeza. Comprei um balde de plástico para recolher a água da chuva que escorrer do telhado, quando ela chegar.

2. Vamos dividir a classe em grupos de alunos. Cada grupo vai comparar os dois textos, respondendo às perguntas que se seguem, além das que eles mesmos formularem. As respostas serão apresentadas à classe por um representante de cada grupo.

3. Que assunto foi tratado nesses diálogos? Um mesmo assunto ou dois assuntos diferentes? O que vocês fizeram para identificar o assunto das conversas?

4. O que é igual e o que é diferente nesses diálogos? Façam uma lista de expressões iguais e outra de expressões diferentes. Analisando as duas listas, pensem no seguinte: (1) É possível imaginar a profissão dos falantes A e B do diálogo 1 e a dos falantes A e B do diálogo 2? (2) Se vocês acham que eles exercem profissões diferentes, em que características da fala deles vocês se fundamentaram para dar essa resposta?

5. Observem que nos dois casos o falante A começou sua fala usando a palavra mas. Comparem essa palavra com o mas que aparece na sentença “O cientista trabalhou muito, mas a causa da falta de chuvas não foi identificada”. Expliquem o sentido de mas usado no início do diálogo, e o sentido de mas que aparece entre duas sentenças, como no exemplo acima. Depois respondam a esta pergunta: as palavras de nossa língua têm um só uso, ou vários usos?

6. No primeiro diálogo, o falante A terminou sua fala com a expressão interrogativa né não? Como a palavra né foi formada? O falante B respondeu a essa pergunta? Quando perguntamos para obter uma resposta, e quando perguntamos sem que precisemos de uma resposta? Deem outros exemplos de perguntas que não exigem uma resposta.

7. Vamos prestar atenção agora no modo como os falantes expressam o plural, comparando os dia com os dias, os cara com os especialistas. O que é diferente nessas expressões?

8. Observem agora as expressões os dias passa / os dias passam, os cara tá falando / os especialistas estão falando. Que se pode aprender observando as diferenças entre essas expressões?

9. Comparem agora neca de chovê com não chove, meis e mês, barde e balde, recoiê e recolher. Que diferenças linguísticas vocês notaram entre essas expressões? As diferenças impedem a compreensão do que se quis dizer? Se não impedem, então por que isso ocorre na nossa língua? Vocês poderiam encontrar outras palavras que mostram diferenças e semelhantes a essas[/bs_citem]

Ataliba T. de Castilho é doutor em linguística, professor sênior da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, de Gramática do Português Brasileiro

[bs_citem title=”Saiba Mais ” id=”citem_7ebf-e2fd” parent=”collapse_e98f-4f2c”]

Livros

CASTILHO, Ataliba T. de (1998 a). A Língua Falada no Ensino do Português. São Paulo: Editora Contexto; 5a. reimpressão, 2014.

CASTILHO, Ataliba T. de; ELIAS, Wanda Maria (2012 a). Pequena Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto.
[/bs_citem]

CartaCapital

CartaCapital Há 27 anos, a principal referência em jornalismo progressista no Brasil.

Tags: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.