‘Minha geração não deixou um Brasil melhor para os nossos filhos, deixou filhos melhores para o Brasil’

Para Fabio Barbosa, da Gávea Investimentos, as empresas precisam se adaptar aos anseios dos jovens se quiserem sobreviver

História. Desde os tempos do ABN, Barbosa é comprometido com o tema (Foto: Silvia Costanti / Valor)

História. Desde os tempos do ABN, Barbosa é comprometido com o tema (Foto: Silvia Costanti / Valor)

Educação,Entrevistas

Esta entrevista estava no fim, na quinta-feira 6, quando veio a notícia do fracasso do leilão de blocos de petróleo nas imediações de Fernando de Noronha. “Isso mostra que as empresas, em suas decisões, incorporam não só o risco ambiental, mas o reputacional, e se afastam preventivamente”, avalia Fabio Barbosa, sócio da Gávea Investimentos, integrante do Conselho da United Nations Foundation e há mais de 20 anos referência em ESG, sigla em inglês para meio ambiente, preocupação social e governança. O ex-presidente do extinto ABN Amro Real avalia, a seguir, as razões da explosão de investimentos ESG e alerta quem resiste ao novo paradigma: “É uma mudança grande e irreversível”.

CartaCapital: A que atribui essa avalanche do ESG dos últimos dois anos? Foi o impacto da pandemia, o aumento da desigualdade no mundo, eventos climáticos extremos?

Fabio Barbosa: Houve eventos mais notórios ocorridos na pré-pandemia, como as cartas de Larry Fink, presidente da gestora de recursos BlackRock, a primeira no fim de 2018, a segunda no fim de 2019, que abordam a agenda ESG de forma mais contundente. Em setembro de 2019, a associação norte-americana chamada Business Roundtable, presidida pelo presidente do banco Morgan Stanley, também teve como foco o ESG. Em terceiro lugar, a reunião do Fórum Mundial em Davos, em janeiro de 2020, teve o ESG no centro das discussões. Mas, como as datas ficaram próximas, ficou a impressão de que a pandemia acelerou a difusão da ideia. É certo que acelerou, mas vinha num crescente antes. 

Os valores ESG são uma transformação ‘grande, irreversível’

CC: E por que esse crescente? 

FB: Tanto a questão do meio ambiente quanto a da desigualdade social tornaram-se mais visíveis, mais tangíveis, mundo afora. Também houve as fraudes e os problemas de empresas de grande porte, para lembrar a questão da governança. Agora, entendo que há muito tempo o fator principal é geracional: se a minha geração não deixou um Brasil melhor para os nossos filhos, ela deixou filhos melhores para o nosso Brasil. Isso vale para o Brasil e o mundo. Os filhos melhores têm uma consciência ambiental, social e cidadã que a minha geração não teve – como geração, não como indivíduos. E esse pessoal, de 20 anos, 40 anos, está chegando agora ao mercado, seja como investidores, consumidores ou profissionais, e incorporam questões ambientais no seu padrão de consumo, no seu padrão de investimento. É uma mudança grande e irreversível.

 

Como eu digo: a cada dia sai do mercado um indivíduo, um consumidor que achava tudo isso uma bobagem e entra um consumidor, um investidor que acha tudo isso relevante. Não consigo fazer nenhuma projeção sobre economia, mas sobre demografia, sim. A cada dia será mais marcante a presença desses jovens que querem saber se o alimento tem muito sódio ou se a carne vem de área desmatada. E hoje mesmo, enquanto fazemos esta entrevista, a União Europeia anuncia que, a partir do ano que vem, vai querer certificação de que determinados produtos importados do Brasil não resultam de desmatamento. Não sei se isso é protecionismo ou não, o que eu sei é que isso conversa muito bem com o anseio dos jovens, portanto, está legitimado pelos jovens. Alguns vão querer dizer que se trata somente de protecionismo. Pode ser protecionismo, mas também tem um anseio dos jovens com relação a que tipo de consequência a produção de alimentos deixa na natureza.

CC: Do lado das empresas, como passar de um modelo estabelecido há séculos para este novo paradigma?

FB: Primeiro, se é verdade que os padrões de consumo e de investimento estão mudando, a empresa tem de estar conectada a esse tema. Uma empresa que busca o lucro, busca o resultado, deve estar atenta para o fato de que o consumidor da sua carne não aceita mais consumir um produto de área desmatada. Não é que a empresa vai ser boazinha e não vai mais desmatar. Pode até ser, contudo, o mais importante é que o consumidor exige. Já aconteceu de a importação de carne do Brasil ser suspensa por falta de rastreamento da origem da carne. Se a empresa para de desmatar não é porque mudou seu modelo de negócios, e sim porque o consumidor não quer.

‘Prefiro que a própria sociedade se autorregule’

O importante é entender que isso tem de sair da área de Relações Institucionais e ir para a área estratégica. O desenho do produto tem de estar ligado a essas preocupações que seu consumidor terá. E, obviamente, o investidor também procura ver se aquela empresa está conectada com os novos padrões de emergência de consumo. Dois exemplos. Um, o carvão: a sociedade não aceita mais, o investidor não quer investir. É bom fazer financiamento na transição, pois não estou falando para encerrar a produção de uma hora para outra, tem de levar em conta a transição. Outro exemplo é o açúcar nos refrigerantes, ou sódio, origem da carne, plásticos. Não se trata de a empresa abrir mão de resultados. Acho que é um mundo do “e”, e não um mundo do “ou”. A companhia deve continuar a buscar eficiência, resultados, mas não pode ignorar uma mudança no padrão de consumo dessa juventude norte-americana, europeia, asiática – da China, inclusive. 

CC: E quanto à preocupação em diferenciar iniciativas, práticas e empreendimentos efetivos daqueles apenas rotulados de ESG? Como prevenir o que se tem chamado de green washing?

FB: Se ainda não temos, em breve teremos agências como a Standard & Poor’s, para saber qual empresa está, qual empresa não está aderente ao ESG. É um problema a ser trabalhado. Há várias entidades engajadas, como a Anbima, que faz um belo trabalho no sentido de orientar o investidor. No caso do consumidor, vejo mais atuação e discussão nas redes sociais. É nelas que começa desde a história do plástico, até como são tratadas minorias. Ainda que, sem dúvida, haja espaço para o green washing, acredito sinceramente que, neste mundo onde não há mais espaço para on e off, é tudo on, quando a empresa se compromete publicamente a trabalhar nessa direção, tem de ser efetiva. Não pode mentir por muito tempo.

São três as razões para companhias aderirem ao ESG, três Cês: Convicção, Conveniência e Constrangimento. Convicção, porque acredita; conveniência, porque é bom falar disso, e constrangimento, porque não dá mais para não falar que temos alguma coisa aqui, que precisamos fazer algo por aí. Todas vão na boa direção. A questão é tirar o viés de que ou você ganha dinheiro ou faz as coisas do jeito certo. Veja o caso da General Electric. A empresa montou uma divisão gigantesca de energia limpa. Abriu mão do resultado? Não. Parou de produzir usinas a carvão, passou a produzir usinas de energia eólica. Tem muita gente fazendo negócios com carnes vegetais, atendendo ao público vegano. Não significa abrir mão de resultados, e sim de se adaptar a um novo padrão de consumo.

CC: E o papel do regulador na agenda ESG?

FB: O regulador parece estar correndo atrás, o que não acho errado, pois o governo tem de refletir os anseios da sociedade, mas eu prefiro que a própria sociedade se autorregule. O mercado, os bancos veem a necessidade de mais transparência. O McDonald’s faz propaganda dizendo que não compra carne de áreas desmatadas. Não tem nenhuma regulação. Prefiro que vá por aí. Não obstante, é preciso estabelecer algum padrão, em algum ponto, até para evitar a desinformação do consumidor. De toda forma, é um caso mais para órgãos como os Procons, do que de legislação específica. Outro ponto é que os três níveis do Estado – municipal, estadual e federal – coloquem o ESG nos seus próprios planos de governo, pois também participam dessa mudança.

 

CC: O senhor encabeçou dois dos mais significativos manifestos nascidos no meio empresarial neste ano, o que pedia ciência e responsabilidade no enfrentamento da pandemia, em março, e aquele que defendia as eleições, em agosto. A participação política faz parte da agenda ESG?

FB: Isso não faz parte da agenda ESG, e sim de um contexto de maior envolvimento da sociedade, de maior consciência de cidadania. As manifestações foram em defesa da democracia, da vacinação, enfim, movimentos da sociedade civil, totalmente legítimos. E que crescem no mundo inteiro. Não só os empresários, as sociedades se movimentam em relação a assuntos de seu interesse. Vejo grande movimentação do mundo empresarial com relação às eleições de 2022, uma preocupação que vem desde janeiro de 2021. Vejo uma mobilização que não havia nas eleições de 2018. Fico muito satisfeito em ver a sociedade chamando para si algumas responsabilidades, se mobilizando e mostrando a cara, defendendo valores em que acredita, dentro das regras do jogo.

CC: O que o senhor diria a quem está aferrado ao modelo tradicional?

FB: Diria: preste atenção a um padrão de consumo que está em mudança, veja se os seus negócios são coerentes e atendem à expectativa do consumidor, porque isso vai determinar, também, o apetite do investidor. Há investidores que não investem em companhias que entendem não ter um futuro muito longo se continuarem a operar, por exemplo, com energia suja, produtos que tenham uma toxicidade ou problemas ambientais. Simplesmente, porque esse modelo não vai ter vida longa. 

Publicado na edição nº 1179 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2021.

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