Editorial

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O Brasil de Bolsonaro é entreguista

O ex-capitão só serviu para acentuar a disparidade, o descalabro, a insensibilidade popular, a ferocidade dos senhores

Imagem: Agência Petrobras
Imagem: Agência Petrobras
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Cursava a Faculdade de Direito do Largo São Francisco quando começou a campanha à sombra do lema O Petróleo É Nosso. Estava na direção desta revista durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso, aquele que conseguiu o duplo mandato graças à compra de alguns votos decisivos, quando teve a intenção, felizmente abortada, de privatizar a Petrobras. Não ouso comparar Getúlio Vargas com Fernando Henrique. Getúlio é aquela figura singular que encarnou a ditadura até hoje odiada com paixão pelos quatrocentões paulistas, enquanto Fernando Henrique é o presidente que quebrou o País três vezes, embora sempre com a aprovação dos tradicionais donos do poder.

Getúlio é personagem central da história brasileira, mas há na sua estratégia política, no seu entendimento das condições do País, na sua percepção de uma medievalidade que mais cedo ou mais tarde seria preciso corrigir, para lhe alterar drasticamente o rumo, uma mudança profunda. De matreiro aproveitador de situações, sequioso de poder, ao estadista disposto a correr todos os riscos ao enfrentar os vetustos inimigos de qualquer tentativa de progresso.

Fernando Henrique, evidentemente, não cogita, e jamais cogitou, de se haver com o poder inextinguível da casa-grande, soube sempre se adequar às circunstâncias com arlequinesca mestria. A ideia de que haveria petróleo para conferir ao Brasil a dimensão de grande potência é a prova da intuição de um líder decisivo, bem ao contrário da disposição de entregar o tesouro à metrópole. Atente-se à extraordinária evolução que caracterizou o sonho getulista, tornado realidade até a descoberta do pré-sal durante o governo de Lula.

Difícil é perceber o sentimento que rege a vontade entreguista. Trata-se, talvez, de uma sujeição aos velhos hábitos da colônia? Prosseguir pelo velho caminho à espera de se beneficiar, até mesmo pessoalmente, com o status quo ardilosamente mantido? De quem a vantagem? De um inevitável colonizador, mas também, no raciocínio elementar que no caso vigora, de quem o serve. O atual avanço sobre a efetiva propriedade da Petrobras, abençoado patrimônio brasileiro, no fundo não surpreende em tempos bolsonaristas. O atual presidente da República figura com destaque no papel do colonizado demente, por ser incapaz de perceber os males que causa a si mesmo e ao país que pretensamente governa.

Imagem: Arquivo Nacional, William Volcov/Brazil Photo Press/AFP e Sérgio Lima/AFP

Como se deu em situações similares, e agora se renova, a tragédia está na incapacidade de o País entender a dimensão espantosa da catástrofe bolsonarista. Resta, conforme esperanças nascidas há algum tempo, a confiança no resultado das eleições presidenciais previstas para outubro próximo, de acordo com o calendário estabelecido pelos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff, para colocar em seu lugar o usurpador e traidor Michel Temer.

Aqui, aliás, começa um novo roteiro para apressar a desgraça, a qual acaba por se chamar Jair Bolsonaro. Enquanto o Brasil continua com o galardão de país mais desigual do mundo, de monstruosa disparidade social, preconceituoso e feroz na casa-grande ainda de pé, a senzala jamais teve noção da democracia retoricamente anunciada. Falta igualdade, falta a democracia. Existe apenas o abismo social, cada vez mais evidente à visão estarrecida de quem trafega pelas ruas.

O ex-capitão só serviu para acentuar a disparidade, o descalabro, a insensibilidade popular, a ferocidade dos senhores. Chegamos a um ponto em que seria preciso zerar tudo que se deu até agora para tentar, finalmente, tomar o rumo certo. O rumo da contemporaneidade do mundo democrático e civilizado. Na prática, a cada instante, mais e mais nos distanciamos desta meta óbvia, mas até hoje impossível.

Incrível, neste momento, a fala, solicitada ardorosamente pela mídia, do empresariado nativo, a mostrar as suas exorbitantes limitações, a pobreza do seu imaginário, a incapacidade crônica de entender os eventos enquanto se desenrolam. Não existe no mundo, aliás, uma burguesia proprietária tão carente e tão valorizada.

Haveriam de ser estes os primeiros a entender a gravidade do assalto esboçado em detrimento da Petrobras, da qual se pretende eliminar a nacionalidade para que caia de mão beijada, literalmente, no colo das grandes irmãs do negócio. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1203 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Petrobras”

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Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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