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“Vasos frágeis”

As mulheres que atuam no comércio ambulante estão ainda mais suscetíveis à violência institucional, alertam as Nações Unidas

“Vasos frágeis”
“Vasos frágeis”
Discriminação. No Malawi, as mulheres enfrentam dificuldade para obter licenças e ficam com os piores pontos de venda – Imagem: Fayez Nureldine/AFP
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Enquanto governos de vários países estudam o papel das mulheres na economia global, milhões de trabalhadoras ficam à margem desses debates. Entre elas, estão as vendedoras ambulantes, parte essencial – e frequentemente invisibilizada – das estatísticas oficiais nessas discussões. A realidade dessas profissionais voltou à pauta da 70ª sessão da Commission on the Status of Women (CSW) das Nações Unidas, principal fórum internacional sobre igualdade­ de gênero, que reuniu em Nova York, entre 9 e 19 de março, governos, organizações internacionais e movimentos sociais, entre eles a StreetNet International.

Em todos os continentes, os vendedores ambulantes representam um pilar não reconhecido das economias urbanas. Uma análise mais atenta do setor revela que os desafios enfrentados por esses trabalhadores não são apenas econômicos, são profundamente marcados por questões de gênero. As mulheres que atuam na economia informal navegam por um cenário de discriminação sistêmica, violência institucional e exclusão administrativa.

As discussões evidenciam a importância de enfrentar barreiras estruturais que limitam a participação plena das mulheres na vida econômica e social. Na 70ª sessão da CSW, o foco recai sobre o acesso à justiça e a eliminação de leis discriminatórias. Para muitas vendedoras ambulantes, essas barreiras, assim como a dificuldade de acessar mecanismos de justiça, fazem parte do cotidiano.

Os exemplos são numerosos. Na área de Chadzunda, no Malawi, a construção de novas infraestruturas de mercado veio acompanhada de uma discriminação de gênero embutida. Com frequência, as autoridades destinam aos homens os espaços mais desejáveis, de maior circulação, relegando as mulheres a locais menos visíveis e menos lucrativos. Essa discriminação espacial força as mulheres a buscar alternativas, muitas vezes em locais “não autorizados”, onde têm maior probabilidade de se tornarem alvo de assédio por parte do Estado.

A vulnerabilidade é frequentemente agravada pela xenofobia e pela discriminação contra migrantes. Na Argentina, a administração de Javier Milei adotou modelos de fiscalização agressivos, que lembram os métodos do temido Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE), criando um clima de medo entre vendedores oriundos de países como Peru, Bolívia e Paraguai.

Especialmente em Buenos Aires, vendedores senegaleses enfrentam uma camada adicional de dificuldades devido a barreiras linguísticas e culturais, tornando-se alvos frequentes da polícia. Segundo denúncias apresentadas pela UTEP, afiliada da StreetNet na Argentina, mulheres vendedoras são submetidas à violência de clientes e transeuntes, além daquela praticada por forças policiais.

A vulnerabilidade também é agravada pela xenofobia e pelo preconceito contra imigrantes

No Malawi, mulheres vendedoras relatam que a obtenção das licenças necessárias é um processo paralisado, com autoridades frequentemente utilizando a tática do “volte amanhã”, que pode se estender por até um mês. Para as muitas viú­vas e mães solo que atuam no setor, esses atrasos ameaçam diretamente a segurança alimentar de suas famílias.

Em outros países, a situação é semelhante. “Os funcionários do conselho exigem dinheiro se você não tiver licença e se o seu negócio não estiver registrado”, relatou uma mulher que trabalha em Murombedzi, no Zimbábue.

Possuir documentos legais não garante proteção. Depoimentos de vendedores revelam práticas generalizadas nas quais policiais exigem dinheiro mesmo de trabalhadores em situação regular, frequentemente sob o pretexto de “pagar uma bebida” ou “pagar o almoço”. Essa extorsão é alimentada por uma percepção das mulheres como “vasos mais frágeis”, tornando-as alvos mais fáceis de agressões físicas e verbais em comparação com seus colegas homens.

A violência contra elas também permanece uma preocupação séria na República Democrática do Congo (RDC). Mesmo aquelas que trabalham dentro dos mercados enfrentam dificuldades e abusos diários. Apesar dos diferentes contextos nacionais, os desafios enfrentados pelas mulheres vendedoras costumam ser semelhantes entre as regiões.

No caso da RDC, anos de conflito contribuíram para um êxodo rural massivo, tornando Kinshasa extremamente superlotada. Nesse contexto, muitas pessoas dependem de atividades econômicas informais para sobreviver, e as mulheres estão particularmente presentes no comércio ambulante.

No entanto, esse trabalho as expõe a dificuldades constantes. Elas são frequentemente perseguidas por agentes da lei, e suas mercadorias são muitas vezes confiscadas ou destruídas pelas próprias autoridades. O Poder Público falha em oferecer espaços adequados onde essas trabalhadoras possam exercer suas atividades com segurança.

Enfrentar esses abusos exige ir além da resiliência individual e avançar rumo a mudanças estruturais. Oficinas sobre habilidades de negociação coletiva, promovidas pela StreetNet International em diversos países, oferecem um caminho viável. Vendedores, e especialmente mulheres, podem encontrar uma voz comum e defender suas demandas não de forma individual, mas coletiva.

A negociação coletiva fortalece atores da economia informal para negociar uma distribuição justa de espaços, processos transparentes de licenciamento e o fim da violência baseada em gênero. Já vimos exemplos em muitos países: de Gana a Bangladesh, as habilidades aprendidas nas oficinas ajudaram vendedores a reduzir taxas de mercado, melhorar a infraestrutura e fortalecer sua representação.

Os debates em curso na CSW reforçam a importância de ouvir as experiências de mulheres em diferentes contextos e setores da economia. As histórias das vendedoras ambulantes mostram que avançar na igualdade de gênero também significa reconhecer, proteger e valorizar o trabalho de milhões de mulheres que mantêm vivas as economias de suas cidades todos os dias. •


* Angélique Katani Kipulu é integrante do comitê executivo da StreetNet International e Secretária-Geral da Liga em Defesa dos Direitos da Mulher Congolesa.

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘“Vasos frágeis”’

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