Economia

Opinião

Uma anedota sobre o conflito entre capital e trabalho

por Rui Daher publicado 02/05/2017 10h54
Um texto apócrifo de um “gênio revoltado" da internet representa o que pensa grande parte do empresariado estabelecido nesta Federação de Corporações
Pedro Ventura / Agência Brasília
Agricultor

Agricultor familiar lava alimentos: o desejo de muitos é que o trabalhador brasileira seja como uma ovelha e aceite seu destino

É bom, antes do mais, sabermos onde voltamos a pisar. Talvez, nunca o tenhamos deixado de fazê-lo. Solo “embostaiado”, esburacado, químico, tóxico, em que nem tiririca, erva pobre, mas forte, nasce. Não esperemos das folhas e telas cotidianas do oficialismo mostrarem os melhores caminhos para manter asseados os Ferragamos e Louboutins de quem jogou o País nas fezes.

Muito provável que em conta da sequência impeachment de 54 milhões de votos em eleições democráticas, desilusão com o desgoverno atual, e as recentes reações contrárias às reformas pró-patronato, recebo um texto anônimo, provável ruralista, classificado por outros de seu grupo como “excelente”.

Não é difícil resumi-lo. É semelhante ao enxame de opiniões nas redes digitais que contrapõem capital e trabalho com a profundidade de quem não chegou à página 9 do Brasil Escola.

Vamos lá: o autor exclama (!) “estar de saco cheio desse pessoal reclamando dos patrões, ‘coxinhas’ e ‘exploradores’; sugere aos trabalhadores que reclamam pedirem demissão e com o dinheiro da indenização abrirem seus próprios negócios”. Mas sem a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como?

Burro é burro e sempre é bom deixá-los falar para sabermos o que não fazer. O “gênio” acaba de criar a nação menos explorada e mais empreendedora do planeta. 

Passa, então, a alertar para as agruras que o novo patrão terá que sofrer. Para quem conhece o patronato nacional é permitido rir. 

“Esqueçam férias de 30 dias, 13º, folgas semanais. Aguentem fiscalização, burocracia incompetente, dificuldade para abrir conta bancária jurídica, obter fiadores caso precise alugar imóvel, pagar nas datas salários, encargos, impostos, luz, telefone, internet. Depois, cúmulo, ter de enviar documentos para a contabilidade, inclusive extratos bancários”. (Difíceis de se obter hoje em dia com a internet). 

Queria o quê? 

Até aí nosso “gênio revoltado” expõe o que se vê em todo o planeta desde os primórdios e, no Brasil, desde quando se instalou o comércio entre Vera Cruz e Portugal, novidade que nos deixa comiserado diante do sofrimento que é ter uma firma (o termo é adequado para quem escreveu a bordo de caravelas). 

Maior tristeza vem agora, quando envereda pelos aspectos emocionais do “ser patrão”. Falta-me talento para traduzir tal aflição, então transcrevo seus conselhos ao novato: “Seja líder e não chefe, seja empático com a sua equipe, se prepare para lidar com funcionários, agora seus, que pensam como você pensava antes de ser um empresário”.

Dio! Com certeza frequentou aqueles cursos de patrões ministrados por consultores picaretas. “Agora sou um líder”. 

O fim é triunfal, apenas retiro as maiúsculas usadas pelo gênio. Depois de 40 anos no campo rural, sinto cheiro de estrume até pelos ouvidos: 

“Se você é tão corajoso para seguir meus conselhos como é para falar do que não sabe e nem faz ideia, muito boa sorte”! 

Só resta à toda força de trabalho que vive empregada no planeta agradecer a tão inteligente e comovente ideia para o desenvolvimento da humanidade. 

Pois é, caros leitores e leitoras, se pensam que gastei 3 mil caracteres da coluna citando bobagem isolada, perdi não. Acreditem, assim pensam 90% do empresariado estabelecido na Federação de Corporações, sobretudo no meio rural. É frequente eu ouvir “filosofias” assim, que desonram o trabalhador rural, enquanto vejo ônibus e caminhões precários descendo para trazer esses ranzinzas do Vale do Jequitinhonha para carpir no mato paulista. 

Essência, fundamento, ethos, pouco exposto por vergonha e medo, mas verdadeiro, e que repousa há séculos em travesseiros de noites mal dormidas para formatar o acordo de elites que destruiu nosso futuro. Nunca para eliminá-lo, como quer o nosso “gênio”. A casa-grande é mais esperta. De onde iria tirar seus mil réis se não da senzala? 

“Por que só eu me ferro? Aquele vendedor ignorante de Catanduva deve tirar mais de comissões do que eu de lucro. E o Onofre, da manutenção, há quinze dias afastado por atestado médico, sabe-se lá como obtido? Precisamos da reforma trabalhista. Acabar com o abuso. Que venham negociar direto comigo e ver o que é bom pra tosse. O Giuseppe, que a família chegou aqui com uma mão na frente outra atrás, formou o filho médico, e se aposentou com apenas 62 anos. Não sei se trabalhou para estar tão cansado”. 

Tudo isso é um clássico nas relações entre capital e trabalho no Brasil. Destinos selados para sempre. Ovelhas, aceitem. 

Nota: 1) Em “Caminhos da Sustentabilidade: a agricultura brasileira”, Rui Daher, 2010, no capítulo “Homens e mulheres no campo: construção da dignidade em harmonia com a natureza”, desfaço as bobagens nas vitrines de hoje (vou republicar o texto em breve); 2) Boa fonte para estudar o assunto está em “O mundo rural no Brasil do século 21”, editado em 2014, pela Unicamp, Embrapa e Instituto de Economia (é possível download).