Economia
Um degrau acima
O crescimento do PIB e do emprego melhora a vida de milhões e repercute nas pesquisas eleitorais
Foram 18 meses seguidos de desaprovação do governo Lula superior à aprovação até a quarta-feira 15, quando a pesquisa Quaest apontou uma leve virada, na margem de erro: 48% dos entrevistados tinham uma imagem positiva da administração, contra 47% negativa. O instituto atribuiu os resultados aos efeitos do programa “Desenrola 2”, para renegociação de dívidas, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais e do avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1.
Esses fatores contribuíram para a mudança, mas um fenômeno mais abrangente teve, entretanto, peso determinante na inversão da avaliação por parte do eleitor, a retomada da mobilidade social. Segundo estudo do economista Waldir Quadros, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Cesit, o governo Lula chegou ao fim do terceiro ano com melhora expressiva nesses indicadores. Os dados da PNAD Contínua anual indicam retração das camadas mais pobres e crescimento dos segmentos médios entre 2022 e 2025.
A mobilidade social é definida como a mudança de posição de indivíduos, ou grupos, para cima ou para baixo, na hierarquia de uma sociedade estratificada. Uma sociedade é estratificada, definem os sociólogos, quando se divide em camadas ou estratos hierárquicos, nas quais indivíduos e grupos enfrentam desigualdades de acesso a recursos, poder, prestígio e oportunidades.
Todas as camadas foram beneficiadas pela mobilidade social no período, com retração das faixas populares e aumento da classe média. Os miseráveis recuaram de 9% da população para 6%, os pobres da massa trabalhadora de 26% para 23%. Na outra ponta, a média classe média aumentou de 15% para 18% e a alta classe média de 9% para 11,5%. O movimento representa a saída de cerca de 5,7 milhões de brasileiros da miséria e de 6,4 milhões da pobreza, acompanhada da expansão dos estratos médios. A média classe média aumentou em 5,6 milhões e a alta, em 6 milhões, aponta o estudo.
Nos três primeiros anos do mandato, 6,4 milhões de brasileiros saíram da pobreza
O efeito dessa evolução na condição de vida das famílias beneficiadas em três anos de governo é relevante. Uma família que estava na condição de miserável em 2022 recebia renda média de 599 reais. Quando ascende à massa trabalhadora em 2025, passa a receber 2.351 reais, aumento de 1.752 reais, ou 292%. Para as famílias que saíram da situação de massa trabalhadora para a posição de baixa classe média, a evolução é de 2.229 reais em 2022 para 4.514 reais em 2025, com aumento de 2.285 reais, ou 102,5%. No caso das famílias que subiram da média classe média para a alta, o crescimento da renda foi de 8.532 reais para 24.404 reais, diferença de 15.872 reais, ou 186%.
O estudo mostra ainda que a melhora alcançou segmentos numericamente relevantes da população. Entre mulheres pardas, a proporção de miseráveis caiu de 12% para 8,1%, enquanto a média e a alta classe média cresceram. Entre jovens de 20 a 24 anos, houve redução daqueles que viviam em famílias das camadas populares e aumento da presença nos estratos médios. “A principal causa do aumento da mobilidade ascendente é o crescimento do emprego e o econômico, que é baixo, mas contínuo”, afirma Quadros. “Isso tem efeitos no mercado de trabalho. Queda do desemprego, aumento do emprego e da renda dos ocupados. Isso tudo dá a melhora constatada.”
Os bons resultados não significam, entretanto, um caminho consistente a ser repetido indefinidamente, ou uma fórmula de aplicação permanente. O limite mais claro à continuidade da atual política é o teto baixo para a expansão do emprego e do salário nos serviços, setor predominante na economia, como descreve o professor. “Os empregos crescem, mas a grande maioria é de baixa qualidade. Para melhorar a qualidade do emprego, e da renda dos trabalhadores, é necessário reindustrializar o País. Enquanto isso não ocorre, a situação anda meio de lado. Está melhorando, mas não é uma melhora como se esperava no início do governo ou na campanha.”
O nó da reindustrialização é difícil de desatar. “Não reindustrializa, e não dá para reindustrializar, porque o Congresso e o mercado financeiro impedem. Não é trivial, tem de mudar a política econômica, é preciso afetar os interesses que hoje estão dominando, os do agronegócio e os do setor financeiro.”
A industrialização é difícil, complementa Quadros, porque ela mexe com esses interesses, com o arranjo dominante. No estudo, o pesquisador destaca, ao examinar os impasses do desenvolvimento do ponto de vista histórico, que “o efeito mais danoso do poder econômico e político da irmandade agronegócio-mercado financeiro têm sido o de impedir a reindustrialização do País, recolocando a situação vigente antes da Revolução de 1930”.
O movimento de 1930 mudou o eixo político, mas o eixo econômico permaneceu o mesmo. O café continuou prestigiado e Getúlio Vargas favoreceu o produto, porém sem o mesmo poder político. A revolução de 1932, vista como uma contra-revolução por vários historiadores, é uma resposta. “Não queriam só ganhar dinheiro, queriam continuar mandando.”
Em resumo, a situação melhorou, no terceiro governo Lula, mas ainda não está boa, provoca grande frustração das esperanças de melhoras tão urgentes quanto necessárias, resume Quadros. O aumento da renda e a evolução da posição social coexiste com problemas persistentes em saúde, educação, habitação, segurança e transporte público, áreas afetadas pela disputa em torno dos gastos públicos e pela manutenção de juros elevados.
Deve-se ressaltar, segundo o economista, que esta frustração é magnificada pelos maiores órgãos de informação e pela ação da extrema-direita nas redes sociais. Sem dúvida a capacidade de resistência do governo e os recentes sinais de aprovação pela maioria da sociedade têm vários componentes, particularmente em relação ao desgaste dos adversários. “A generalizada ascensão social evidenciada pelos números deve ter dado uma grande contribuição. É só imaginar qual seria a situação caso tivesse prevalecido uma estagnação ou piora.” •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Um degrau acima’
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