Economia

Tereza Campello: ‘Vamos revolucionar o mercado de crédito de carbono’

‘O Brasil mudará a forma como se trabalha no mundo’, aposta a diretora socioambiental do BNDES, ao comentar leilão para restaurar 60 mil hectares de floresta e capturar 19 milhões de toneladas de CO²

Tereza Campello: ‘Vamos revolucionar o mercado de crédito de carbono’
Tereza Campello: ‘Vamos revolucionar o mercado de crédito de carbono’
"Não estamos falando somente em plantation, e sim de biodiversidade", diz Campello - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Apoie Siga-nos no

Com a meta de gerar até 6 bilhões de reais, restaurar 60 mil hectares de floresta nativa e capturar aproximadamente 19 milhões de toneladas de CO² na atmosfera, o Brasil organizará até novembro o maior leilão de créditos de carbono já realizado no País. À frente do processo, o BNDES recebe desde o mês passado as manifestações das empresas interessadas e articula um novo modelo de negócio que, se der certo, colocará o Brasil na vanguarda do setor.

O leilão faz parte da segunda fase do programa ProFloresta+ que, na primeira etapa, teve a Petrobras como comparadora de 450 milhões de reais em créditos de carbono. Agora, a meta é envolver o setor privado e as comunidades locais na construção de uma cadeia produtiva “da semente ao resíduo”. Nesta entrevista, Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, fala sobre os objetivos do banco com a iniciativa.

CartaCapital: Qual a expectativa do BNDES quanto à segunda fase do programa?

Tereza Campello: Vai ser uma revolução. O mercado de carbono passará a ser organizado no Brasil como não foi em nenhum outro lugar do mundo. Sem greenwashing, com contrato público, responsabilidade e projetos de alta qualidade com restauro florestal. Acredito que o Brasil mudará a forma como se trabalha no mundo. Ou, pelo menos, vai virar uma referência porque está fazendo uma coisa que não tinha acontecido no resto do mundo.

CC: Estamos preparados para dar esse exemplo?

TC: Temos a maior quantidade de áreas disponíveis, aptas à produção de florestas e ao restauro, milhões de hectares de áreas degradadas. Hoje, o País tem áreas suficientes para cumprir duas metas: retomar a produção agrícola e fazer floresta. Nenhum outro país tem esse potencial.

Há uma capacidade enorme: sabemos fazer, temos pesquisadores, cientistas e experiência de produção. Temos tudo para que essa agenda de restauro florestal de plantas nativas se torne um grande setor econômico.

Estamos criando uma economia da floresta. O País já tem uma agenda muito bem-sucedida em florestas plantadas, com espécies que não são nativas, como, por exemplo, pinus e eucaliptos. Não tinha nada, mas investiu e se tornou um dos maiores produtores de papel e celulose do mundo.

Queremos fazer a mesma coisa com o restauro florestal, mas com uma diferença, pois estamos falando em reconstruir as florestas e nossos biomas. Não estamos falando somente em plantation, estamos falando de biodiversidade.

CC: É um processo complexo…

TC: É uma ação muito mais complexa do que só plantar árvores e gerar créditos de carbono. A agenda de restauro florestal proposta, baseada em floresta nativa, pode ser só ecológica, mas pode ser produtiva, que é quando você faz o restauro adensando algumas espécies para que gerem produtos da floresta. Temos açaí, cacau, castanha, café, sistemas agroflorestais.

Não falamos só de um modelo para gerar créditos de carbono, mas de produção de alimentos, geração de empregos e qualificação de mão-de-obra. A meta é criar um novo setor no Brasil, com benefícios variados, além dos serviços socioambientais que a própria floresta traz.

Um projeto que gera um viveiro vai produzir muda e semente para um outro projeto que vem na sequência, vai qualificar a mão-de-obra que poderá ser utilizada numa situação posterior. À medida que isso evolua, vai se transformar em um negócio com oferta para outros empreendimentos. Assim estamos pavimentando um caminho no Brasil para que esse setor se coloque como central.

CC: Qual o balanço sobre o primeiro leilão?

TC: O BNDES conversou com a Petrobras, uma grande emissora de gases do efeito estufa. Juntos desenvolvemos o novo modelo de negócio, com a petrolífera comprando nessa primeira chamada créditos de carbono no valor de 450 milhões de reais e o BNDES aceitando financiar esse modelo.

Estruturamos um leilão para desenvolver florestas, é a primeira vez que temos um contrato público de compra de carbono, o que modifica a relação de mercado. E foi a primeira vez que tivemos preços de carbono conhecidos no Brasil e, de certa forma, preços públicos nesse modelo em todo o mundo. Três empresas ganharam o leilão com o preço de carbono conhecido publicamente, coisa que a gente não tinha até então.

CC: O impacto foi positivo?

TC: Depois dessa experiência, várias grandes empresas procuraram o BNDES para dizer: vocês fazem a mesma coisa para a gente? Resolvemos então fazer um chamamento aberto. Grandes empresas, internacionais ou brasileiras, que tenham interesse em comprar crédito de carbono de alta credibilidade, com um contrato público, com um leilão organizado pelo BNDES, vão manifestar seu interesse ao longo dos próximos dois meses.

CC: E qual a diferença nesta segunda fase do programa?

TC: Identificamos que existiam alguns gargalos para que essa agenda avançasse do ponto de vista econômico. Temos alguns atores no Brasil e no mundo interessados em comprar créditos de carbono. Grandes poluidores e emissores. E, no caso do Brasil, temos um conjunto de atores dispostos a produzir florestas. Esses ofertantes são os desenvolvedores de florestas.

Algumas empresas são startups e, apesar de serem robustas, são ainda iniciantes no mercado e não tinham garantias para oferecer e tomar recursos, seja no BNDES ou em outros setores. Vinham ao banco interessadas, mas não tinham trajetória econômica, não estavam no mercado.

Ficávamos naquela do ovo e da galinha. Havia interessados em comprar, mas não eles não queriam fazer um contrato com empresas que não tinham essa oferta pronta. Por outro lado, esses desenvolvedores não conseguiam oferecer garantias porque não tinham um contrato.

CC: Qual foi a solução?

TC: O banco tinha uma oferta de crédito muito atrativa porque, no caso de florestas, o Fundo Clima permite que a gente trabalhe com uma taxa de 1% mais spread, que dá 2,3%. Não há uma taxa como essa em nenhuma outra frente. Esse modelo de negócio exige uma taxa diferenciada, é um investimento que vai se desenvolver ao longo de 20 ou 30 anos, com riscos inerentes à uma atividade nova. É um mercado nascente, com preço ainda desconhecido, ainda não regulado.

Havia riscos inerentes ao processo. Apesar da taxa ser muito interessante e atrativa, continuava existindo um conjunto de elementos que impediam que essas empresas viessem aqui. Em 2024, quando o Fundo Clima foi regulamentado, havia um crédito importante, mas esse conjunto de incertezas envolvia o mercado. Quando o BNDES passou a sentar com as empresas para construir essa agenda e trazer o setor privado para a construção da economia da floresta, se deparou com esses problemas. Estamos tentando construir soluções.

CC: As populações envolvidas foram chamadas a participar?

TC: As questões socioambientais são muito importantes, do ponto de vista do BNDES, para a gestão e o desenvolvimento. Colocamos um nível elevado de qualidade tanto do ponto de vista da biodiversidade quanto das salvaguardas sociais e ambientais às comunidades locais, que a gente quer que estejam embarcadas. O banco trouxe para o debate organizações da sociedade civil, como, por exemplo, o Imaflora e o ICS, que nos dão suporte.

Com a chamada pública, antes mesmo de fazer o leilão, tanto o contrato quanto o edital receberam sugestões e recomendações de maneira pública, aberta e transparente. Não estamos trabalhando só com o setor privado, ao contrário, nós começamos investindo nas comunidades.

Há investimentos pesados do Fundo Amazônia em bioeconomia, em restauro florestal, inclusive produtivo, com assentamentos e comunidades tradicionais. Há uma agenda sendo construída com esse conjunto de ações que envolve inclusive a agricultura familiar e camponesa. O BNDES montou uma estratégia para que o setor de florestas se torne portador de futuro. Estamos falando de uma cadeia econômica da semente ao resíduo.

CC: Existe um setor do empresariado brasileiro que hoje dialoga com essa visão mais moderna?

TC: Sim, em vários sentidos. Talvez há 20 anos o mundo não estivesse maduro para que essa agenda pudesse se viabilizar. O papel de um banco de desenvolvimento é identificar setores estratégicos. No caso de restauro florestal, os ganhos para o País e para o mundo são interessantes do ponto de vista da inovação industrial, que tem como vetor não só desenvolvimento econômico, PIB e geração de emprego. O mundo está passando por uma tragédia que é o aquecimento global, há necessidade de acelerar os processos de captura de carbono e de soluções baseadas na natureza.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo