Sobre a carta de economistas e empresários

As tropelias inumanas de Bolsonaro abalaram convicções até dos crentes no Teto de Gastos

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

Economia,Opinião

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, Zé Simão descasca a mexerica: “Para 56%, Bolsonaro é incapaz de liderar o País. Os outros 44% não entenderam a pergunta”. Imagino, pura imaginação, que depois da Carta assinada por empresários e economistas, os porcentuais tenham se alterado significativamente. Teria subido o porcentual dos que consideram Bolsonaro incapaz, caindo acentuadamente a participação da turma que não entende. 

Seja como for, faço um apelo para o bloco dos críticos que reconheceram a inépcia de Bolsonaro desde os tempos de sua participação na Câmara dos Deputados. O apelo conclama os críticos atilados para uma recepção amistosa dos convertidos. Vamos lá: importa menos quem disse e muito mais o que foi dito.

Não se trata de perdoar, não obstante o perdão figure entre as virtudes mais nobres da consciência verdadeiramente cristã. Certamente, o cristianismo do perdão está a léguas de distância das crueldades e impiedades do Deus dos Bolsonaros.

Minha imaginação segue especulando. Suspeito que as tropelias do presidente, a cada passo mais incompetentes e inumanas, abalroaram até mesmo as pétreas convicções dos crentes no Teto de Gastos. Ausentes nas linhas e entrelinhas da Carta, as perversidades e as tolices econômicas do Teto de Gastos cederam passo, imagino, à piedade e à compaixão comprometidas com a vida humana.  

 

Devemos ignorar, portanto, que as perversidades e as tolices do Teto de Gastos foram cuidadosamente preparadas nos laboratórios dos que derramaram suas assinaturas na Carta. O caro leitor de CartaCapital pode ter estranhado a palavra laboratórios. Pois essa palavra expressa com precisão o processamento social de ideias, pensamentos, sentimentos e atitudes. 

A Carta me surpreendeu agradavelmente em meio à leitura de um trecho desagradável da Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer. Em sua terrível impiedade, o trecho expõe a crueldade do laboratório na sociedade de massa. “Quanto mais complicada e mais refinada a aparelhagem social, econômica e científica, para cujo manejo o corpo já há muito foi ajustado pelo sistema de produção, tanto mais empobrecidas as vivências de que ele é capaz. Graças aos modos de trabalho racionalizados, a eliminação das qualidades e sua conversão em funções transferem-se da ciência para o mundo da experiência dos povos e tende a assemelhá-lo de novo ao mundo dos anfíbios. 

A regressão das massas, de que hoje se fala, nada mais é senão a incapacidade de poder ouvir o imediato com os próprios ouvidos, de poder tocar o intocado com as próprias mãos: a nova forma de ofuscamento que vem substituir as formas míticas superadas. Pela mediação da sociedade total, que engloba todas as relações e emoções, os homens se reconvertem exatamente naquilo contra o que se voltara a lei evolutiva da sociedade, o princípio do eu: meros seres genéricos, iguais uns aos outros pelo isolamento na coletividade governada pela força.”

Em seu empirismo degradado, os infelizes dedicam-se a colar os ouvidos no que consideram a “realidade” para escutar as vozes dos números. Como fazem as perguntas erradas, os números respondem banalidades.  

Depois de ouvir as respostas malcriadas às suas perguntas mal formuladas, esses mesmos sabichões da empiria insistem, com seus números fajutos, em avaliar as coisas e os homens ou, se quiserem, as coisas dos homens e, sobretudo, os homens das coisas. 

Alguém já disse que o pensamento dos mercados não trata das coisas dos homens, mas dos homens das coisas. A apropriação dos homens pelas coisas realiza o fenômeno da reificação, da coisificação. Os homens e as mulheres perdem suas autonomias ao serem controlados e dirigidos pelos movimentos abstratos das estruturas econômicas e sociais que os transformam em meros objetos falantes.

Nos tempos da pandemia, alguns economistas ousaram utilizar as análises custo-benefício para calcular o valor monetário da vida e da saúde humanas. Não se trata de um deslize acidental, mas do formato constitutivo do pensamento econômico dominante.

Outros não são os procedimentos que enfiam a política fiscal brasileira nos ridículos limites do Teto de Gastos. As vítimas dessa patetada são os milhões de brasileiros lançados nos territórios da fome. Os gastos do governo federal no Brasil, ao longo de 20 anos, devem crescer apenas corrigidos pela inflação do ano anterior. Isso significa que o volume de gastos vai ser mantido constante em termos reais, independentemente do estágio do ciclo econômico.

Publicado na edição nº 1150 de CartaCapital, em 25 de março de 2021
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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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