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Soberania alugada

O Brasil investe em supercomputador, mas o poder real ainda depende de quem controla os dados

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Abrigo. Parque Augusto Severo, na potiguar Macaíba, sede do futuro supercomputador brasileiro – Imagem: Sandro Menezes/GOVRN
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Em Macaíba, município da região metropolitana de Natal conhecido por seus canaviais e pelo rio que corta a cidade, o governo federal decidiu instalar a maior aposta computacional já feita pelo Estado brasileiro. Uma máquina de pouco mais de 1 bilhão de ­reais­, capaz de realizar 7,2 mil petaflops, a unidade que mede quantos cálculos um supercomputador executa por segundo, número que soa abstrato até ser comparado ao supercomputador Santos ­Dumont, hoje o mais potente do País, que opera com 27 petaflops. A distância entre os dois equipamentos mede o tamanho da ambição do governo Lula e também a distância que o Brasil ainda precisa percorrer para tratar a Inteligência Artificial como questão de soberania nacional.

Anunciada pelo presidente, a máquina de Macaíba integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o PBIA, orçado em 23 bilhões de reais ao longo de quatro anos. A ministra Luciana Santos, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, resumiu o problema que o supercomputador busca resolver ao afirmar que 60% de tudo que é processado pela Inteligência Artificial brasileira hoje acontece fora do País. É esse número, mais que qualquer discurso sobre inovação, que explica a urgência do investimento.

O Parque Científico e Tecnológico ­Augusto Severo, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi escolhido para abrigar o equipamento por reunir energia eólica abundante e baixo custo, os dois insumos que hoje definem onde a infraestrutura de IA se instala no mundo. A escolha também respondeu a um esforço de reduzir desigualdades regionais no mapa tecnológico do País, historicamente concentrado no eixo Rio-São Paulo.

O PBIA soma 54 ações estruturantes, das quais 56% já estão em execução e 6,6 bilhões de reais já foram aplicados, segundo dados apresentados por Thaciana Cerqueira, coordenadora de IA responsável do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. O governo já capacitou 82 mil servidores públicos em Inteligência Artificial e pretende chegar a 115 mil até o fim do ano. Para Rogério da Veiga, da Casa Civil, o País vive uma etapa da digitalização que já transformou a economia e os serviços públicos, e que agora exige preparo diante de uma transformação global em curso.

O ponto mais frágil dessa arquitetura de soberania está nos chips. O governo aposta na RISC-V, arquitetura aberta desenvolvida com o Instituto Eldorado e uma rede de cerca de 70 países, como alternativa à dependência de processadores proprietários. O horizonte de maturação, porém, é de dez a 15 anos.

Rodrigo Scotti, presidente da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria) e uma das vozes brasileiras presentes na Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC, na sigla em inglês), o principal evento de Inteligência Artificial da China, resume o dilema sem rodeios. Comprar tecnologia estrangeira faz parte do jogo. O risco mora em comprar sem aprender nada com isso, repetindo diante da Ásia o mesmo padrão de dependência que o País historicamente manteve diante dos Estados Unidos. Para ele, o Brasil corre o risco de trocar uma dependência norte-americana por uma dependência asiática, caso não diversifique os fornecedores e não exija contrapartidas claras em cada parceria firmada.

O problema não é comprar tecnologia de fora. O risco é comprar sem aprender nada, afirma Scotti, da Abria

Joaquim Merino, executivo da ­Lenovo para Inteligência Artificial e computação de alta performance na América Latina, oferece uma leitura complementar formada durante a consultoria que prestou ao próprio governo na construção do projeto. Segundo ele, a soberania tecnológica se apoia em três elementos – infraestrutura, formação de pessoas e desenvolvimento de aplicações – e cada um segue um ritmo diferente. Enquanto os chips levam décadas para amadurecer, formar profissionais leva cerca de cinco anos e construir soluções em código aberto pode levar menos de dois. A aposta mais realista, segundo ele, é dominar pessoas e aplicações mantendo a arquitetura de hardware agnóstica – capaz de rodar em diferentes fornecedores conforme a conveniência do momento.

Enquanto reforça a infraestrutura interna, o governo brasileiro também ampliou sua presença em fóruns internacionais. Em julho, o País assinou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, a Waico, sediada em Xangai, com o objetivo declarado de construir uma governança global baseada em modelos abertos. Do ponto de vista de Scotti, que acompanhou o ­WAIC de perto, o Brasil não deveria escolher lado de forma automática entre Estados Unidos e China. Os norte-americanos seguem dominantes em plataformas, capital e pesquisa de ponta, enquanto os chineses se tornaram incontornáveis em infraestrutura, hardware e modelos abertos. A pergunta que deveria orientar cada parceria firmada pelo País, segundo ele, é simples: o que fica no Brasil depois que o acordo terminar, conhecimento, empresas fortalecidas, gente formada ou apenas mais uma conta de energia paga a operadores estrangeiros?

Esta mesma pergunta atravessa o programa Redata, criado para atrair ­data centers ao País, aproveitando a energia renovável abundante no Nordeste. O programa já prevê contrapartidas como investimento em pesquisa e desenvolvimento e reserva de parte da capacidade instalada para o mercado interno, o que indica um desenho menos ingênuo do que a simples renúncia fiscal. Ainda assim, Scotti insiste que o data center sozinho não produz soberania. Um território que oferece apenas terreno, energia barata e incentivo fiscal captura pouco valor, enquanto o núcleo do negócio, software, modelos, propriedade intelectual e margem, permanece do lado de fora. A soberania, nessa leitura, só se materializa quando a infraestrutura deixa capacidade concreta no ­País, gente formada, empresas nacionais fortalecidas e dados sob governança própria.

Formada no Nordeste, a máquina de Macaíba representa mais um teste do que um ponto de chegada. O Brasil aprendeu a comprar capacidade computacional. Falta provar que o País sabe transformar essa capacidade em autonomia real, algo que nenhum petaflop, por maior que seja, consegue garantir sozinho. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Soberania alugada’

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