Economia

Análise

Qual o segredo do crescimento ininterrupto da Austrália?

por Deutsche Welle publicado 09/07/2017 00h43, última modificação 07/07/2017 11h58
Economia australiana registra expansão há mais de duas décadas. Apesar do feito impressionante, país enfrenta uma série de desafios
Saeed Khan / AFP
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Mulher em frente à sede do banco central australiano, em Sydney, em 4 de julho. Economia pujante

Por Insa Wrede

A Austrália tem conseguido ficar imune às tendências econômicas prevalecentes ao longo das últimas duas décadas e meia, com a economia do país crescendo sem qualquer sinal de interrupção.

Mesmo em 2008, quando outras economias quebraram e sofreram quedas abruptas durante a crise bancária e financeira global, a Austrália seguiu contrariando a tendência. E dois anos atrás, superou novamente a queda nos preços das commodities sem sofrer arranhões graves. Nenhum país no mundo passou tanto tempo sem uma recessão, ou seja, sem dois trimestres consecutivos de contração do Produto Interno Bruto (PIB).

A economia da Holanda, por exemplo, registrou um crescimento de 103 trimestres consecutivos no período entre 1982 e 2008. Mas a crise financeira daquele ano pôs fim a esse longo período de expansão econômica. Enquanto isso, o PIB da Austrália continuou a crescer.

"Uma geração de australianos cresceu sem vivenciar uma recessão", disse o ministro das Finanças da Austrália, Scott Morrison. "Esta é uma conquista nacional tremenda, mas não podemos esperar que continue."

O setor de serviços, incluindo serviços financeiros, turismo, educação, entre outras áreas, segue sendo o motor econômico do país, representando dois terços do PIB australiano.

"A Austrália tem um dos sistemas bancários mais estáveis do mundo", aponta Heribert Dieter, da Fundação Ciência e Política (SWP, na sigla em alemão), think tank com base em Berlim.

Nos últimos tempos, houve uma demanda acelerada por imóveis. "Observamos uma média de 17% de crescimento por ano – em cidade como Sydney e Melbourne", diz o especialista.

Os australianos também são otimistas em relação ao seu bem-estar econômico, e esse otimismo alimenta o consumo, independentemente do declínio geral da remuneração nos últimos três anos, afirmam especialistas.

Ligação com crescimento da China

"A Austrália é um dos países que mais se beneficiaram do crescimento e da industrialização da China nas últimas três décadas", afirma o economista da Universidade da Tasmânia, Saul Eslake.

A China tem sido considerada há bastante tempo o parceiro comercial mais importante da Austrália – um terço das exportações do país tem o gigante asiático como destino. As matérias-primas estão no centro da indústria de exportações da Austrália, com produtos como minério de ferro e repolho gerando grandes lucros.

Mas esse crescimento exponencial no ramo das matérias-primas, do qual a Austrália se beneficiou por anos, está acabado. "O fato de os australianos terem um forte comprador de seus bens e serviços é, antes de tudo, positivo", afirma Werner Kemper, diretor da Câmara de Comércio e Indústria Austrália-Alemanha (AHK). "Enquanto a China estiver indo bem, a Austrália também estará."

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Reflexo de australianos em trem na estação central de Sydney. Dependência da China pode, agora, afetar a economia (William West / AFP)

No entanto, essa dependência econômica da China se torna um problema quando atinge um obstáculo, apontou o especialista. "É por isso que os australianos começaram a procurar novos parceiros e novos produtos. E no final do ano, um acordo de livre comércio deve ser negociado com a União Europeia."

Com o objetivo de reduzir essa dependência da China, o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, está pressionando por investimentos maiores em novas tecnologias.

Custo ambiental

Dadas as condições geográficas, a Austrália poderia ter estado na vanguarda das tecnologias de energia renovável. "Mas eles dormiram no ponto", critica Dieter. Muitos outros países deram um impulso às suas próprias economias promovendo energia renovável e proteção ambiental. O governo australiano, porém, refutou as mudanças climáticas por um longo tempo, mesmo que sua taxa de emissão de CO2 per capita permaneça uma das piores do mundo.

No ano passado, o governo australiano ratificou o Acordo de Paris sobre o clima e concordou em reduzir as emissões de gases de efeito estufa no país em 28% até 2030. Mas, por enquanto, mantém sua indústria do carvão.

Apesar da série recorde de crescimento, Dieter tem uma previsão negativa para o futuro da economia australiana. "As perspectivas pioraram, mas talvez haja um novo 'boom' de commodities liderado pela Índia, que ainda é uma vaga esperança", diz o especialista do SWP.

Se todas as condições permanecerem iguais às presentes, será difícil para a Austrália manter seu crescimento ininterrupto. Mas o diretor da AHK em Sydney continua apostando no sucesso.

"Sou muito positivo quanto a isso", diz Werner. "Tem ido muito bem há 26 anos, e por que não deve continuar assim pelos próximos 26?"

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