Economia
Pura encenação
Os dois dias de audiência só serviram para reafirmar o crime de lesa-pátria de Flávio Bolsonaro
Os representantes brasileiros nos dois dias de audiência, nos quais foram apresentados os argumentos contra e a favor do tarifaço, não esperavam nada muito diferente. Cada um dos expositores teve meros cinco minutos para expor os argumentos e todos saíram com a mesma impressão. Os produtos brasileiros serão taxados, só falta saber em qual porcentagem e se a lista de exceções ficará maior. Segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria, 35,2% da pauta exportadora nacional aos Estados Unidos corre risco de ficar exposta aos impostos adicionais, até um teto de 37,5%, soma dos 25% de uma investigação específica sobre o País por supostas práticas comerciais ilegais e 12,5% por uma apuração contra 60 nações acusadas de não combater o trabalho forçado. São 4.187 produtos, 14,9 bilhões de dólares em exportações e 62% de bens intermediários.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos publicou antes da audiência uma lista inicial de exceções. Ficam de fora petróleo, gás, fertilizante, mineral crítico, café verde e suco de laranja, insumos para os quais a indústria norte-americana não tem substitutos. O economista Ígor Lucena, doutor em Relações Internacionais, classifica esse desenho como tarifa cirúrgica, imaginada para pressionar setores específicos da economia brasileira sem alimentar ainda mais a inflação nos EUA. O advogado Larry Carvalho, especialista em comércio exterior e direito marítimo, chega à mesma leitura por outro caminho, o de que a Seção 301 dá ao USTR margem ampla para calibrar a resposta, e o próprio aviso do órgão reconhece que as exclusões evitam ruptura relevante na economia norte-americana.
A calibragem explica o motivo de cada setor brasileiro ter levado a Washington um argumento quase idêntico, o de que taxar o Brasil fere a própria indústria dos Estados Unidos. A Fiesp, representante dos industriais paulistas, seguiu na mesma linha. O ferro-gusa é o caso mais evidente. O Brasil responde por mais de 60% da importação dos EUA do insumo, usado por siderúrgicas que operam forno elétrico a arco e não têm fornecedor doméstico em escala equivalente. O produto ficou fora da lista preliminar de isenção e o setor estima que 55% das usinas brasileiras poderiam paralisar, caso a tarifa avance sem exceção, a maior parte concentrada em Minas Gerais, estado que reúne cerca de 70% da produção nacional e mais de 60 mil empregos ligados à cadeia. O café solúvel tenta, por sua vez, escapar da lista com apoio até de uma associação norte-americana da própria cadeia cafeeira, sob o argumento de que México e Brasil somam quase 60% do fornecimento e não têm substituto rápido em escala equivalente.
A sobretaxa virá. Resta saber em qual magnitude
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, 82% das exportações do setor em 2024 ocorreram entre empresas do mesmo grupo econômico, fluxo entre matriz e subsidiária nos dois sentidos. Taxar esse comércio não afasta concorrente, apenas abre espaço para a China avançar sobre a fatia hoje ocupada pelo Brasil. O mesmo risco atravessa o setor calçadista, quinto maior produtor mundial e maior fora da Ásia, com 847 milhões de pares produzidos em 2025, mas incapaz de competir em volume com China, Vietnã e Indonésia, que dominam quase 90% do mercado norte-americano. Mesmo antes de qualquer decisão final, a exportação brasileira de calçados aos Estados Unidos caiu 3,6% em volume e 23,6% em receita no primeiro semestre, sinal de que o mercado se antecipa ao resultado da audiência.
O contorno mais revelador dessa disputa não vem, no entanto, do lado brasileiro, mas de empresas dos EUA. Fabricantes que dependem de insumo brasileiro sem alternativa imediata no mercado interno pediram ao USTR que calibre a tarifa para não pressionar a cadeia produtiva, o consumidor e os pequenos negócios internos, entre eles companhias de bebidas, veículos elétricos e comércio eletrônico de produtos usados, cada uma com um tipo diferente de dependência do fornecimento brasileiro. Lucena cita o caso do xarope usado na fabricação de refrigerante.
Moeda de troca. O governo brasileiro oferece maior abertura no mercado de etanol, mas o aspecto comercial não parece ser a razão da investida dos EUA – Imagem: iStockphoto
Taxar o insumo brasileiro tende a encarecer o produto final para os consumidores estadunidenses. Um levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil, entidade que reúne perto de 3,5 mil empresas responsáveis por um terço do PIB brasileiro, dá a essa preocupação uma dimensão exata. O comércio bilateral de bens e serviços supera 100 bilhões de dólares por ano, o estoque de investimento entre os dois países soma cerca de 400 bilhões, uma relação que a entidade descreve como difícil de recompor, caso o fluxo comercial se desloque para outros fornecedores. É isso que a lista de isenções ameaça provocar. Dos produtos brasileiros fora dela, a China responde por 91,8% do mesmo tipo de importação norte-americana, entre os três maiores fornecedores em mais da metade dos itens afetados. Impor tarifas adicionais ao Brasil, nesse recorte, não reduz a presença estrangeira nos EUA, apenas transfere a posição de um fornecedor ocidental para outro asiático.
Fora da mesa de negociação bilateral, o caminho jurídico oferece pouco alívio. O sistema de apelação da Organização Mundial do Comércio segue paralisado desde o governo de Barack Obama, o que reduz a efetividade de qualquer contestação multilateral até o prazo de 15 de julho e favorece o país com maior poder de barganha unilateral, afirmam Carvalho e Lucena, que acrescentam outro aspecto ao cálculo de Washington ao lembrar que qualquer avanço do Brasil em tributar grandes empresas de tecnologia esbarraria numa ameaça feita por Donald Trump, de taxar em 100% países que criem ou aumentem esse tipo de cobrança, o que explicaria o fato de Brasília tratar o Pix como um item fora de qualquer negociação.
De novo, Flávio Bolsonaro reincidiu no crime de traição
No fim das contas, os dois dias de audiência só serviram para o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, reincidir no crime de lesa-pátria. O parlamentar não se declarou contra o tarifaço, apenas reclamou do momento pouco “oportuno”, pois o anúncio de novas taxas levaria água ao moinho do presidente Lula. Flávio propôs que o tarifaço só venha a ser aplicado se o petista se reeleger em outubro. Antes das audiências, o senador prometeu mundos e fundos a Trump: de conter a expansão do Pix e dar isenção fiscal à Visa e à Mastercard a incluir representantes dos Estados Unidos na equipe de transição de governo, caso vença. A postura levou o governo brasileiro a destacar a subserviência do pré-candidato. Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, evitou, porém, entrar na polêmica direta e resumiu a posição oficial dizendo que o momento pede foco no que pode gerar resultado positivo para o País, enquanto técnicos do Itamaraty, da Justiça e do Planalto se reuniam com o USTR.
Para a advogada tributária Sabrina Lawder, sócia da Grant Thornton, diante dos desdobramentos, as empresas exportadoras deveriam revisar a alocação de risco, margem e estrutura de preços de transferência, avaliando quem vai suportar o custo econômico da tarifa ao longo da cadeia. Quem vende insumo tende a ter mais poder de negociar a divisão do custo com clientes norte-americanos, enquanto quem vende o produto final enfrenta concorrência mais imediata de fornecedores locais ou de terceiros países. O Sindifer de Minas Gerais, representante dos produtores de ferro-gusa do estado, saiu da audiência com avaliação favorável, descrita pelo presidente da entidade como uma reunião positiva, com expectativa de melhora após dois dias de depoimentos. Mesmo entre os setores mais otimistas, a advertência se repete. A recomendação do USTR não é a palavra final, a decisão cabe a Trump, e o prazo termina em 15 de julho. Lucena resume o cenário mais provável sem esconder a ironia do processo, a tarifa deve sair, mas dificilmente na intensidade hoje imaginada. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pura encenação’
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