Economia

Próximo presidente terá uma tarefa monumental de reconstrução na economia

Herança maldita: A devastação operada nos governos Temer e Bolsonaro resultou em piora contínua da posição do Brasil também na comparação internacional

O Auxílio Brasil é usado para pagar dívidas, não no consumo
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O próximo presidente, que, tudo leva a crer, será Lula, terá diante de si uma tarefa monumental de reconstrução, em especial na economia. O ano de 2022 começa muito mal nessa área, pois os motores fundamentais do PIB estão paralisados, observa o economista Rafael Ribeiro, professor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de ­Ciências Econômicas da UFMG. “O PIB depende essencialmente de um conjunto de agregados macroeconômicos que inclui o consumo das famílias, o investimento das firmas, os gastos do governo e as exportações líquidas, que são basicamente as exportações menos as importações, ou seja, o setor externo. São esses os seus principais motores e o diagnóstico é de que eles estão parados.”

A paralisia dos motores da economia resulta da combinação da política econômica de austeridade fiscal radical anacrônica, da ideologização das decisões, da ausência de planejamento guiado pelo interesse público e da condução negacionista na pandemia, segundo vários analistas. O fisiologismo crescente nos gastos do governo, traduzido no orçamento aprovado pelo Congresso, reforça a tendência de o País, neste ano, repetir essa opção econômica orientada para o desastre iniciada com a recessão de 2015 e 2016 e ampliada desde o governo Temer. “A situação dramática deixada pelos governos Temer e Bolsonaro é uma herança maldita que fará com que o PIB de 2022 retroceda para os valores de 2013”, sublinhou o ex-ministro Guido Mantega em artigo recente.

O reerguimento do País requer, segundo Mantega, medidas emergenciais de combate à fome e à miséria, um ambicioso plano de investimentos públicos e privados para ampliar a infraestrutura, aumentar a produtividade e gerar empregos, uma reforma tributária que simplifique os impostos, diminua a taxação dos mais pobres e aumente os tributos sobre a renda e o patrimônio do 1% mais rico, uma política monetária que mantenha a inflação sob controle sem exagerar na dose de juros e a retomada das políticas industriais e de investimento tecnológico que devolvam a competitividade da indústria, com atenção às questões climáticas e ambientais.

O FISIOLOGISMO CRESCENTE NOS GASTOS DO GOVERNO REFORÇA A OPÇÃO ORIENTADA PARA O DESASTRE

A devastação operada nos governos Temer e Bolsonaro resultou em piora contínua da posição do Brasil também na comparação internacional. Em 2020, o PIB teve queda de 4,1%, o dobro da redução média de 2% ocorrida nos países com nível de renda semelhante. A projeção do FMI para o crescimento dos emergentes em 2021 é de, aproximadamente, 6,5% e a estimativa para o Brasil, publicada na última edição do ano passado do Relatório Focus, do Banco Central, é de 4,5%. Em 2022, a diferença tende a se ampliar. Segundo os últimos cálculos do FMI, claramente defasados, a média de avanço do PIB previsto para os países emergentes gira em torno de 5%, enquanto o Brasil deverá crescer perto de 1,5%. O Relatório Focus prevê desempenho ainda pior, com evolução de apenas 0,36%.

A estimativa decepcionante para o Brasil teria sido um dos motivos da dispensa oficial do Fundo, pelo governo, no mês passado, logo após a declaração do ex-presidente do BC Ilan Goldfajn, indicado para um cargo de direção na entidade, de que os investidores estrangeiros não estão fugindo do Brasil, pois já fugiram. A explicação do ministro da Economia, Paulo Guedes, para o encerramento unilateral da relação com o FMI em meados de dezembro foi, contudo, de que a sua presença no País não tem hoje a mesma relevância do passado. O ministro não percebeu que é inútil afastar portadores de más notícias sobre o futuro próximo da economia, pois eles se multiplicam. Ao menos dois bancos, Itaú e Credit Suisse, fizeram projeções muito piores do que aquelas do FMI e do Focus, de uma variação negativa de 0,5% do PIB neste ano, segundo os jornais.

O investimento público atinge um patamar mínimo. Pior para a infraestrutura

A situação do consumo das famílias é preocupante. Na medida em que a economia começou a se abrir novamente, no fim do ano passado, em razão da redução das restrições sanitárias, o nível de emprego foi retomado em alguma medida e, de forma ainda lenta, vários desempregados conseguiram se recolocar no mercado de trabalho. Essa reinserção ocorre, contudo, em posições de pior qualidade em relação à situação anterior, isto é, em empregos com salários mais baixos e em condições mais precárias. “O resultado dessa situação é que, apesar da retomada da ocupação, a massa de salários não se recompõe na mesma velocidade. Por outro lado, as famílias estão mais endividadas, ou seja, todo recurso que entra vai para cobrir dívidas assumidas no passado e é por isso que esse dinheiro não move a economia”, sintetiza Ribeiro. Forçadas a adiar o consumo, as famílias enfrentam também uma incerteza muito grande quanto ao futuro e nessa situação, estejam seus integrantes empregados ou não, elas tendem a reduzir os gastos, como ocorre agora, para poupar. Essa condição resulta em estagnação do poder de consumo.

Um aspecto importante sobre a situação do consumo das famílias é que uma recuperação da massa de salários, nas condições econômicas atuais, sempre é inferior ao resultado que se obteria antes do aumento da inflação, que gera perda do poder de compra. Uma inflação, sublinha Ribeiro, também produto da crise institucional, pois, “diante da incerteza política, o capital foge e os investidores correm para moedas mais seguras. Com isso, o dólar aumenta, há repasse para os preços, pois o custo dos bens importados sobe”. Em outras palavras, a crise política gera instabilidade e imprevisibilidade da economia, o que, por sua vez, conduz à desvalorização cambial, que resulta em uma socialização dessas perdas por meio da inflação, a qual consome o poder de compra das famílias e puxa o consumo para baixo.

O exemplo dado pelo economista Guilherme Tinoco, em rede social, sobre as consequências da queda da inflação projetada no Boletim Focus, do BC, deixa claro o problema. “A inflação saindo de 10% para 5% significa que a mesma cesta que custava 100 no fim de 2021, custará 105 ao fim de 2022. Em termos macro, claro que é algo bem positivo. Para o cidadão, contudo, significa que o que era percebido como muito caro vai ficar mais caro ainda.” A conclusão é de que o consumo das famílias está estagnado e o desemprego, embora tenha sofrido redução, ainda é altíssimo, no momento em que a economia mal começava a voltar à sua atividade normal, antes de ser atropelada pela escalada da variante Ômicron da Covid-19.

A mais rigorosa seca em 90 anos afeta as lavouras

A falta de perspectiva de aumento do consumo das famílias tem a ver com o baixo investimento das empresas, sinal de encolhimento do mercado. O investimento das firmas está estagnado também porque elas estão com a capacidade ociosa muito grande, por não conseguirem vender o que produzem e serem forçadas a aumentar seus estoques. “Elas têm capacidade de produzir mais, mas não o fazem porque não há demanda para comprar. Outro motivo para não investir é o elevado grau de incerteza quanto ao futuro”, destaca Ribeiro. Para as empresas, só faz sentido investir se há perspectiva de demanda lá na frente, de comprarem o que ela produzirá a partir desse investimento. Em vez disso, há elevada imprevisibilidade, não só quanto à dinâmica da pandemia, mas em relação à condução da economia e a evolução da crise político-institucional.

Nesse contexto, as empresas tendem a retrair o investimento, que é o que ocorre no setor industrial. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, “o PIB industrial ficou estagnado em 2021 e o da indústria de transformação não teve um trimestre sequer de crescimento neste ano na série com ajuste sazonal. A evolução da produção física nos últimos meses também não traz alento”.

A SITUAÇÃO APONTA PARA UMA NOVA PIORA DA POSIÇÃO DO BRASIL NA COMPARAÇÃO INTERNACIONAL

A importância do gasto dos governos para reduzir os danos provocados na economia pela retração do investimento privado é conhecida, mas Brasília age como se essa possibilidade não existisse. Há apenas uma expansão localizada desse tipo de desembolso e o que se destaca é a questão do orçamento secreto, manipulado de forma obscura e com repasses que não geram crescimento econômico. “São gastos capturados por setores com maior poder de lobby, pelo Centrão, por interesses políticos e pela área militar, que não foram feitos com base em planejamento estrutural para gerar crescimento econômico e que não consideram o interesse público em primeiro lugar nem contemplam a necessidade de gastos que sejam realmente produtivos”, sublinha Ribeiro. O gasto público está amarrado, portanto, ele também não gera crescimento.

Exemplos de gastos que poderiam gerar crescimento econômico são, entre outros, aqueles direcionados à saúde, à educação e ao investimento em infraestrutura, que seria fundamental neste momento porque reduz gargalos produtivos, entre eles no setor de energia, hoje completamente defasado e submetido a aumentos descontrolados da tarifa. A proposta orçamentária federal confirma a prioridade dada a desembolsos que não levam ao crescimento. Inclui 16,5 bilhões de reais para as emendas de relator, 5 bilhões para o fundo eleitoral, 1,7 bilhão para reajuste salarial da Polícia Federal e investimentos de irrisórios 44 bilhões. O governo esbanja generosidade com privilégios na proposta orçamentária, mas alega não haver dinheiro para elevar o Auxílio Brasil de 400 para 600 reais, segundo declarou o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira. A ajuda chegou tarde, é insuficiente e não deverá ser usada para aumentar o consumo das famílias, mas para pagar dívidas, concordam vários economistas.

Quando as empresas ensaiavam uma intensificação do seu comércio externo com a diminuição das restrições impostas pela pandemia, o surgimento da variante Ômicron trouxe de volta uma grande incerteza às trocas internacionais. “Além de ter a sua base econômica constituída pela exportação de c­ommodities primárias, o Brasil sofreu a maior seca dos últimos 90 anos e isso gerou uma quebra de safra significativa. A produção agrícola ficou em parte comprometida no ano passado e isso prejudicou as exportações”, destaca Ribeiro. Houve um pequeno boom de commodities, diz, com os preços do minério de ferro em alta, mas isso não gerou crescimento econômico, até porque os preços oscilaram muito e caíram e, principalmente, porque essa ­commodity não tem capacidade de puxar de modo substantivo a economia.

Os gastos das famílias estão travados. O setor externo mostra uma recuperação

Dados relativos ao período de janeiro a dezembro do ano passado, divulgados no início deste mês pelo Ministério da Economia, mostram, entretanto, alguma recuperação, analisa o Iedi. “Ainda que as importações tenham avançado mais que as exportações, em todos os setores o valor das vendas externas avançou bastante em 2021, sobretudo em produtos primários, mais diretamente influenciados pela ampliação dos preços de commodities”, destaca a entidade. No agregado de janeiro a dezembro de 2021, a corrente de comércio do Brasil registrou alta de 35,8% em razão do aumento de 34% das exportações e 38,2% das importações.

Além da política de austeridade fiscal e dos efeitos das frequentes decisões econômicas com motivação ideológica, em especial na área externa, destacam-se entre as causas da paralisia a condução negacionista do governo diante da Covid-19. “Como a pandemia ficou descontrolada aqui, isso acabou prejudicando muito as famílias, provocou perdas enormes na força de trabalho, com grande número de mortos e de afastamentos”, destaca o professor da UFMG. Houve também a falência de um número significativo de firmas, pequenas empresas, restaurantes, salões de beleza, que não tiveram de fato apoio do governo, pois o crédito acabou não chegando na ponta, em muitos casos. “E aí acontece o seguinte: quando é liberada a atividade econômica para os empresários poderem de fato começar a operar, no momento em que a pandemia está mais controlada, na medida em que houve muitas falências, é mais difícil, mais custoso e mais lento para esse capital se reorganizar e voltar.” Se essas empresas e essas vidas tivessem sido preservadas durante os momentos de isolamento social na pandemia, a recuperação muito provavelmente seria mais rápida, estima Ribeiro. “A palavra mais suave que a gente pode usar neste momento para caracterizar o resultado de todos os desmandos é desastre.” •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1190 DE CARTACAPITAL, EM 6 DE JANEIRO DE 2022.

CRÉDITOS DA PÁGINA: RENATO LUIZ FERREIRA – ISTOCKPHOTO E GOVMT – NELSON ALMEIDA/AFP E JACKSONVILLE PORT/JAXPORT

Carlos Drummond

Carlos Drummond Editor de Economia da edição impressa de CartaCapital

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