Economia
Potencial reprimido
O Brasil busca consolidar presença estratégica no mercado global de semicondutores, base da Indústria 4.0
Cantado em prosa e verso como detentor de água abundante e vastas reservas de terras-raras e outros minerais, que o tornam um ator estratégico para o desenvolvimento global de data centers e da Inteligência Artificial, o Brasil reúne também todos os pré-requisitos para se tornar uma potência na produção de semicondutores. Base da fabricação de chips, esses componentes são hoje essenciais não apenas para o setor de Tecnologia da Informação, mas também para as indústrias automobilística e eletroeletrônica, entre outras. Esse mercado já movimenta 750 bilhões de dólares por ano e, segundo estimativas, pode dobrar de tamanho até o fim da década, alcançando a impressionante cifra de 1,3 trilhão de dólares.
Participar de forma soberana da disputa industrial e comercial nesse promissor mercado não será fácil para o Brasil. O cenário envolve tarifações extras, restrições a vendas e importações e outras medidas coercitivas que mobilizam os governos da China, dos Estados Unidos e da União Europeia, além de gigantes fabricantes de semicondutores, como Nvidia, Huawei e Nexperia. A disputa já foi apelidada de chip war pela imprensa mundial, devido à importância estratégica e geopolítica do setor.
O governo brasileiro busca colocar o País nessa disputa global. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou no fim do ano passado, após viagem oficial à Malásia, uma parceria entre a brasileira Tellescom e a malaia Inari para produção, encapsulamento e testes de semicondutores, voltados a clientes da indústria automotiva, da comunicação e da internet das coisas. Com investimento inicial de 170 milhões de dólares, a joint venture comprometeu-se a iniciar ainda este ano, em Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, a construção de uma planta de 10 mil metros quadrados, com expansão prevista para os próximos anos.
“Trabalhar com o suporte técnico de um parceiro internacional consolidado torna a implementação do negócio muito mais rápida”, afirma Ronaldo Aloise Júnior, CEO da Tellescom. Ele explica como será a produção: “Vamos importar os wafers, que são as lâminas de silício onde os circuitos estão impressos, e transformá-los em processadores e microcontroladores”. A ideia é diversificar a produção nacional. “O Brasil tem cinco empresas que encapsulam componentes, mas elas atuam sobretudo em memórias de computador e telefone. Vamos para outro segmento”, anuncia o executivo.
A construção da nova unidade soma-se ao esforço iniciado com a retomada do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), em Porto Alegre. Única estatal produtora de chips, o Ceitec teve seu processo de extinção iniciado pelo governo de Jair Bolsonaro e depois revertido pelo governo Lula. Rogério Nunes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), destaca que a empresa pública é estratégica para o Brasil. “É a única na América Latina focada no desenvolvimento e fabricação de wafers. O cancelamento do seu processo de liquidação mostra que o governo atual reconhece a importância e o potencial da indústria de semicondutores para o País.”
O Ceitec atua na área de semicondutores de potência fabricados em carbeto de silício e utilizados no setor automotivo e em data centers: “O Brasil é o único no Hemisfério Sul e um dos poucos no mundo que dispõem de uma indústria consolidada de semicondutores focada na área de encapsulamento e testes de chips”, diz o presidente da Abisemi. A cadeia de valor na área de semicondutores inclui três setores principais: o design, a fabricação de wafers e o encapsulamento e teste de chips: “O Brasil tem boa penetração na área de design com algumas empresas nacionais e a prestação de serviços para companhias globais que aqui empregam designers. Tem seu principal negócio na área de encapsulamento e testes de memórias que geram faturamento de mais de 1 bilhão de dólares anuais no mercado interno. Além disso, possui bons conhecimentos acadêmicos na área de manufatura de wafers, tendo o Ceitec como principal iniciativa”, resume Nunes.
Em 2025, a intensa demanda por chips no Brasil, aliada ao cenário global de restrições puxado por EUA e China, chegou a colocar em risco o suprimento do mercado nacional de veículos e celulares. Ao longo do ano passado, afirmam entidades setoriais, os preços de alguns tipos de chip tiveram alta de mais de 100%. “A explosão no número de data centers e a demanda por IA reposicionaram o mercado. Os fabricantes de semicondutores optaram por atender a esse importante segmento, que tem um valor agregado cada vez maior. Esse impacto continuará a ser sentido em 2026 e alguns setores terão pela frente, nos próximos meses, um grande desafio”, diz Maurício Helfer, diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
Com a retomada do Ceitec e nova parceria com a Malásia, o governo federal pretende revitalizar o setor
Para Nunes, o Brasil só não aproveita melhor as oportunidades que surgem por conta da morosidade da sua atuação regulatória. “As economias que se destacam são normalmente aquelas em que os governos agem com brevidade, definindo as estratégias e desdobrando-as em ações. O governo precisa atuar de forma tão dinâmica quanto as mudanças de mercado”, diz.
Professor de Gestão do Conhecimento e da Inovação da Escola Politécnica da PUC gaúcha e consultor de SemiCon do Tecnopuc, Adão Villaverde lembra que os semicondutores são o quarto produto mais comercializado no mundo, depois de petróleo bruto, petróleo refinado e automóveis, mas hoje é estruturante para os outros três. “Sua escassez generalizada, catalisada pela tragédia pandêmica, crise climática, necessidade de descarbonização, transição energética, a guerra no Leste Europeu e a transformação digital, revelou sua indispensabilidade para a economia global, além de também ter afetado seus suprimentos.”
Para o Brasil tornar-se um player competitivo e “não perder esse trem”, acrescenta Villaverde, o governo precisa tomar algumas decisões. “É urgente definir qual a nossa estratégia para o setor. Em desenvolvimento, projetos, encapsulamento e testes já somos um referencial na América Latina. Mas, na manufatura, estudos revelam que devemos optar por nichos como os nominados chips maduros, de nanometria mediana, que temos total capacidade de produzir. Ou, no caso das novas rotas tecnológicas, optar pelos dispositivos de potência como o Ceitec está fazendo, dado o enorme mercado futuro que se abre a esses dispositivos”, destaca. O especialista também pede a ampliação das parcerias e a mudança de escala nos orçamentos que o Estado e o setor privado devem planejar e garantir. “Só assim o Brasil mergulhará definitivamente nessa cadeia produtiva e de suprimentos”, conclui. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Potencial reprimido’
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