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Os vândalos e as Americanas

Financiadores golpistas, predadores das reservas indígenas e donos das Lojas Americanas estão irmanados na ‘extração de valor’

Bombas. O flagelo Yanomâmi, as piruetas das Americanas e as depredações bolsonaristas eclodiram quando o mercado se insurgia contra a defesa dos mais frágeis - Imagem: Marcelo Camargo/ABR e Renato Luiz Ferreira
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Esperançosos com a eleição de Lula, os brasileiros foram abalroados, nas últimas semanas, por dois choques extremos, choques disparados dos arsenais de “realidades” que infestam o capitalismo contemporâneo.

As desgraças e a tristeza dos ­Yanomâmis e as peripécias financeiras das Lojas ­Americanas foram disparadas no mesmo momento em que vândalos bolsonaristas depredavam os edifícios públicos e os “mercados” se insurgiam contra os programas destinados a recuperar a economia e salvaguardar a vida dos mais frágeis.

É tarefa de risco, porém incontornável, examinar a conexão entre esses episódios com o algoritmo que registra os movimentos estruturais das economias e das sociedades capitalistas. Observados à luz desse critério, os acontecimentos apresentam uma inequívoca pertinência às formas constitutivas do capitalismo em todos os tempos de seus Tempos.

A Folha de S.Paulo informa que muitos dos ricos patrocinadores da invasão e depredação dos edifícios públicos “vivem em uma região marcada por altos níveis de desmatamento, grilagem de terras públicas, pecuária predatória e garimpo ilegal, inclusive dentro de terras indígenas”.

Em seu magnífico artigo a respeito das Lojas Americanas, meu amigo João Furtado ensinou: “A derrocada das Americanas não começou no mês passado ou no ano passado. Ela é produto de um modelo empresarial parasitário, em que os controladores têm pouco interesse no negócio e estão preocupados, sobretudo, com os resultados financeiros, mesmo que à ­custa do negócio e de sua sustentabilidade”.

O leitor atilado certamente capturou a forma econômica que articula os ricos financiadores golpistas aos golpistas das Lojas Americanas. Estão irmanados na “extração de valor”, uma expressão gentil para designar as formas estéreis de apropriação da riqueza. Estéreis porque desatendem às carências humanas que, supostamente, deveriam ser o propósito da Economia Política.

O sistema financeiro não é uma deformação do capitalismo, mas a realização de sua natureza

Em sua obra monumental Civilização Material e Capitalismo, o historiador ­Fernand Braudel, buscando demonstrar a diferença entre a economia de mercado e o capitalismo, afirma que “é na cúspide da sociedade que o capitalismo afirma a sua força e revela a sua natureza. É na altura dos Bardi, dos Jacques Coer, dos Fugger, dos John Law e dos Necker que devemos fazer as perguntas, que temos a chance de descobrir o capitalismo”.

Se assim é, a história do capitalismo é mais bem contada através dos relatos que informam sobre as transformações sofridas pelo comércio do dinheiro e da riqueza. Nesses mercados se realiza o julgamento diário das formas particulares da riqueza capitalista – ações das empresas, títulos da dívida pública e privada – diante das leis implacáveis que guiam o veredicto irrecorrível do dinheiro, forma universal da riqueza. Aí são tomadas, portanto, decisões cruciais, aquelas que revelam, em cada momento, as inclinações ou o estado de espírito dos detentores da riqueza. Hoje, prevalecendo a confiança no bom andamento dos negócios, o dinheiro que se gasta ou se “aplica” parece fácil de ser recuperado amanhã. Mas amanhã os resultados previstos ontem podem parecer decepcionantes. A confiança é, então, subitamente substituí­da pelo medo e pelo desejo de proteção.

Em 1933, das profundezas da Grande Depressão, Keynes escreveu: “O capitalismo internacional e individualista decadente, sob o qual vivemos desde a Primeira Guerra Mundial, não é um sucesso. Não é inteligente, não é bonito, não é justo, não é virtuoso – and it doesn’t ­deliver the ­goods. Em suma, não gostamos dele e já começamos a menosprezá-lo. Mas, quando imaginamos o que se poderia colocar no seu lugar, ficamos extremamente perplexos”. Ao avaliar sua experiência de operador nos mercados financeiros, ­Keynes disparou:  “As regras autodestrutivas da finança são capazes de apagar o sol e as estrelas porque não pagam dividendos”.

As maldições repudiadas por Keynes estão nas origens da Grande Depressão dos anos 30. Foram submetidas à chamada “repressão financeira” promovida pelos governos que emergiram da Segunda Guerra Mundial.

Keynes. O capitalismo decadente não é inteligente, bonito, justo ou virtuoso – Imagem: AFP/Arquivo

Em seu livro Controlling Credit, Eric Monnet diz que a chamada “repressão financeira cuidava de tornar a política monetária e a política de crédito compatíveis – agindo sobre o nível de crédito, bem como a sua alocação… Ao fazê-lo, os mesmos instrumentos e procedimentos operacionais foram utilizados para regular a quantidade global de crédito na economia (uma vez que a expansão do crédito era vista como necessária à expansão econômica, mas também como inflacionária) e para agir sobre a sua alocação. Poderia envolver recomendações e incentivos simples dados aos bancos, bem como controles diretos da oferta de crédito (tais como limites máximos de crédito), da liquidez bancária (razões de reserva ou liquidez) e do acesso ao financiamento do Banco Central (limites máximos de redesconto, seleção informal e escolha de vários prazos de vencimento de empréstimos). A política de crédito, dessa forma, combinou controles quantitativos e qualitativos”.

Desde os anos 80 do século passado, as reformas liberalizantes impuseram a dominância da “extração de valor” na esfera financeira, impulsionada pelo poder do acionista e reforçada pelas novas modalidades de remuneração dos administradores, efetivadas mediante o exercício de opções de compra das ações da empresa.

As hipóteses dos fâmulos da finança desconsideram as complexas interações entre as estratégias das corporações – financeiras e não financeiras – e a reprodução das estruturas econômicas. Essas relações se transformam no propósito de permanecer as mesmas. As transformações devem garantir o propósito constitutivo desse sistema de relações: a acumulação de riqueza monetária. Em seu movimento de reprodução, as estruturas metamorfoseiam seus modos de manifestação e práticas operacionais.

O sistema financeiro não é uma deformação do capitalismo. É a realização de sua natureza. Quando deixam o bicho solto, ele sai fazendo das suas. É preciso botar a alimária de volta à jaula. Mas antes temos de curar as feridas dos que foram machucados por ele, sobretudo os menos favorecidos.

Nos Estados Unidos, o volume de crédito destinado a financiar posições em ativos já existentes cresceu a uma velocidade muito superior àquela apresentada pelos empréstimos destinados ao gasto produtivo. Como proporção do PIB, o valor dos empréstimos bancários para outras instituições financeiras é hoje quatro vezes maior do que os créditos destinados a financiar a criação de emprego e renda no setor produtivo.

O descalabro da riqueza é tal que os ricaços em Davos pediram para ser mais tributados

Alterou-se a relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para propiciar a elevação “solidária” dos ganhos dos acionistas e da remuneração dos administradores (stock­ ­options). Nos anos 1960, tempos dos oligopólios de Berle e Means e dos gerentes obcecados com o crescimento da empresa no longo prazo, a cada 12 dólares gastos com a compra de máquinas ou construção de novas fábricas, apenas 1 dólar era gasto com os dividendos pagos aos acionistas. Nas décadas seguintes, a proporção começou a se inverter: mais dividendos, mais “juros sobre o capital próprio” e menos investimentos nas fábricas e na contratação de trabalhadores.

A isso se juntam a febre das fusões e aquisições, o planejamento tributário nos paraísos fiscais, o afogadilho das demonstrações trimestrais de resultados e as aflições das tesourarias de empresas e bancos açoitadas com o guante da marcação a mercado: “Tudo pelo social”. O social, bem entendido, é o desfrute acionário abusivo dos resultados do capital “socializado”.

Mais poderosos na formação das decisões e, contrariamente ao que se esperava, menos “eficientes” na definição dos critérios de avaliação do risco e na alocação de recursos, os mercados financeiros lograram capturar os controles da economia e do Estado, mediante o aumento do seu poder social.

A nova finança e sua lógica notabilizaram-se por sua capacidade de impor vetos às políticas macroeconômicas, mesmo quando se revelam incapazes de curar suas próprias mazelas. A despeito do socorro prestado pelos Bancos Centrais às suas imprudências e incompetências na crise do subprime, os senhores da grana não se comovem com os empregos precários e a desigualdade escandalosa.

O descalabro produzido pela concentração de riqueza e renda é de tal modo chocante que os ricaços reunidos no Fórum Econômico Mundial se prontificaram a oferecer seus rendimentos e cabedais para uma taxação mais elevada . •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1244 DE CARTACAPITAL, EM 1° DE FEVEREIRO DE 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Os vândalos e as Americanas “

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