O teto de vidro de Guedes

O Posto Ipiranga chancela o Auxílio Brasil, remendo eleitoreiro que desmonta o Bolsa Família

O ministro Paulo Guedes. Foto: Carl de Souza/AFP

O ministro Paulo Guedes. Foto: Carl de Souza/AFP

Economia,Opinião

Fosse economista, Nelson Rodrigues atenderia pelo nome de Paulo Nogueira Batista Jr. O ex-diretor do FMI e colunista desta revista, como o jornalista e escritor, desenvolveu uma rara capacidade de se infiltrar pelos desvãos da alma humana. Em recente artigo, Nogueira descreveu de forma iluminada o ministro da Economia, Paulo Guedes. O Posto Ipiranga, ou o Beato Salu, anotou, “guarda relação apenas remota com o ideólogo que chegou a Brasília em 2019” e “acomodou-se descaradamente às circunstâncias do governo, do seu chefe e do Parlamento”.

Lembro-me de Nogueira ao ler a cobertura da mídia sobre o mal fadado lançamento do Auxílio Brasil, o programa social imaginado para substituir o Bolsa Família a tempo de proporcionar algum fôlego eleitoral a Bolsonaro em 2022. Desse jeito, o autointitulado “jornalismo profissional” não pode reclamar da concorrência dos disseminadores de fake news e das redes sociais. Durante toda a tarde da terça-feira 19, os sites descreveram uma batalha épica entre o bem e o mal, enquanto o Palácio do Planalto marcava e desmarcava a cerimônia de lançamento do programa.

O que leva a mídia a repetir a ladainha do herói do equilíbrio fiscal?

Os mocinhos, nesta versão, seriam Guedes e sua equipe econômica, defensores intransigentes das contas públicas contra a voracidade da “ala política” (esse governo tem mais alas do que as escolas de samba). No fim, o lançamento do auxílio ficou para outro dia. Ufa, ecoou ao fundo o alívio, o Teto de Gastos estava salvo, graças à valorosa equipe, que ameaçou uma demissão coletiva, e à pressão dos investidores, que derrubaram a Bolsa e elevaram o dólar aos píncaros.

Os irmãos Grimm teriam muito a aprender com os jornalistas brasileiros. Que belo conto de fadas. Podemos todos dormir sossegados, existem servidores em Brasília, sob o comando de Guedes, comprometidos com o equilíbrio das contas. Infelizmente, o dia amanhece, é hora de acordar. Do que falava mesmo essa gente? Teto de Gastos? Mas ele existe, restou algum caco da vidraça? Quem encontrar alguma parte intacta, por favor atire a última pedra.

Nas noites mal dormidas, tento entender o que leva a mídia a repetir a ladainha do herói do equilíbrio fiscal. Logo o ministro, reduzido faz tempo ao papel de animador de auditório com dificuldades crescentes para entreter a plateia. As piadas estão piores, os truques de mágica descambaram para o amadorismo e o público, escaldado, cochila nas cadeiras. Logo o ministro, um terraplanista do naipe de Damares Alves, Abraham Weintraub e Ernesto Araújo.

Quem ainda se deixa enganar? A defesa das contas públicas durou escassas 24 horas. No dia seguinte, Guedes não só havia capitulado, mas inventado uma nova e esfarrapada desculpa para justificar o injustificável. “O governo quer ser reformista e popular, não populista”, declarou. “Estava expirando o auxílio. O governo decidiu criar o que seria um programa de renda básica familiar. Ainda não é o que será. Temos o protótipo do que seria a renda básica familiar. Não tem fonte para programa permanente”.

 

Ou seja, o tal protótipo, chancelado por Guedes, demole o Bolsa Família, mais bem sucedido programa social do planeta, para incrementar a competitividade eleitoral de Bolsonaro. É uma chantagem explícita dos miseráveis, pensada para durar até dezembro de 2022, caso o ex-capitão não venha a conquistar um segundo mandato. O Palácio do Planalto não enxerga os famintos que se engalfinham por ossos nas ruas, só vê o título de eleitor.

Fará diferença mais um prédio demolido em meio à terra arrasada? Nas mãos de Guedes, as finanças do Brasil parecem o Afeganistão depois da invasão dos Estados Unidos. Entre os escombros, transitam arrivistas em busca dos últimos bons negócios e feridos da guerra insana contra o próprio País, a lógica e a competência. No deserto de ideias, o ministro contempla o desmonte, agarrado à cadeira puída, que lhe parece cada vez maior. Definitivamente, não há heróis nesta história.

Ok, para não me acusarem de perseguição, reconheço uma conquista de Guedes. Bastaram pouco mais de mil dias no cargo para o Chicago Boy (ou Old) superar Maílson da Nóbrega e se tornar o pior ministro da Economia desde o fim da ditadura. Não é pouca coisa. Uma salva de palmas, ou melhor, de tiros.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Redator-chefe da revista CartaCapital

Compartilhar postagem