Economia

Análise

O projeto de Temer não para em pé

por Gilberto Maringoni — publicado 03/03/2017 00h18, última modificação 02/03/2017 09h53
O mix de juros altos, câmbio valorizado e compressão salarial não resolve o problema de atração de capital externo
Beto Barata / PR
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Meirelles e Temer: nem do ponto de vista ultraliberal o plano funcionaria

A recente divulgação de levantamento realizado pelo Financial Times, dando conta que o salário médio do trabalhador chinês já é mais alto do que os de seus colegas brasileiros, argentinos e mexicanos pode nos levar a várias reflexões. Fico com duas principais. A: O que está acontecendo com a China? e B: Qual a meta do projeto ultraliberal em curso no Brasil? 

Primeiro sobre a China. A queda do crescimento do PIB chinês, de uma média acima de 10% na década passada para pouco mais de 6% em 2015 se deve não apenas à retração dos mercados ocidentais, mas a um giro realizado a partir de 2007 na economia do país. 

Naquele ano, um dos temas debatidos pelo 15º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh) foi a de fortalecer o mercado interno, como forma de dar maior sustentabilidade ao desenvolvimento até ali garantido em sua maior parte pelo dinamismo do setor exportador.

Na mesma época, outra mudança ocorreu: a China agregou à sua característica de exportador de manufaturas a exportação de capitais. A partir daí, investimentos do gigante oriental na África e América Latina – além de outras partes do mundo – tornaram-se mais agressivos. 

Manifesto dos trabalhadores

Uma das consequências foi o que a revista The Economist à época chamou de “manifesto dos trabalhadores” do país: uma paulatina mas segura elevação do valor real do salário médio, mantendo, porém, a moeda nacional desvalorizada para garantir a competitividade internacional de seus produtos. 

Assim, o indicador do Financial Times não aponta apenas uma queda da renda dos salários nos países latino-americanos, mas uma elevação dos ingressos asiáticos. Entre 2006 e 2016, em alguns ramos de atividade, o salário médio no país foi multiplicado por três, em termos reais, segundo a Economist.

É bem possível que essas diretrizes sejam mantidas no 19º Congresso do PCCh, marcado para o segundo semestre deste ano. 

Diretrizes econômicas

Passemos ao Brasil. Nesse quadro, quais são as diretrizes do governo golpista para a inserção do Brasil no mercado internacional? 

São especialmente de duas ordens com um só propósito, após o fracasso da diplomacia de cotoveladas, implantada por José Serra (PSDB). Esta tinha na busca de acordos com Estados Unidos e Europa Ocidental sua pedra de toque. A eleição de Donald Trump e a ascensão do nacionalismo em diversos países europeus deitou por terra tal senda. 

O propósito básico do governo Temer é atrair capitais a qualquer custo, seja em investimento em carteira – bolsa, títulos públicos, fundos etc. – seja em investimento direto na compra de ativos públicos ou privados. 

Há, no entanto, problemas na combinação das duas perspectivas, na atual situação brasileira. 

O investimento em carteira depende basicamente da remuneração especulativa, lastreada na taxa básica de juros (Selic). Quanto maiores forem as taxas, mais dinheiro será atraído pela economia brasileira em busca de rápida multiplicação do capital. Para isso, é fundamental que o Banco Central mantenha a Selic em patamares estratosféricos. 

O investimento direto depende de outra característica: a redução sensível dos custos de produção internos, incluídos aí impostos, energia, água, transportes e salários, entre outros. Como a parte de energia e transportes é quase toda privada e com preços indexados – ou seja, dificilmente redutíveis – a variável mais facilmente a ser comprimida são os salários.

Contradições

Há uma contradição entre as duas iniciativas. A política da taxa de juros tende a atrair moeda forte para o Brasil e seu efeito imediato é valorizar o câmbio. O câmbio valorizado eleva o preço dos produtos brasileiros, fazendo com que percam competitividade no mercado externo, ao mesmo tempo em que aumenta a propensão do País a importar. 

Assim, mesmo com a compressão pesada dos salários, a tendência é perdermos mercados em função da agressividade da política monetária. O único setor capaz de fazer frente a essa distorção é o agronegócio, por sua altíssima produtividade. 

O investimento direto tende a se comportar de duas maneiras. 

A compra de plantas industriais voltadas para a exportação tende a não despertar o interesse dos investidores. Melhor instalar indústrias na Malásia, no Vietnã ou em Bangladesh, onde a depreciação da moeda local garante competitividade aos exportáveis. 

No caso de investimento direto em setores voltados para o mercado interno – em especial no setor de serviços e comércio – ou estatais de valor estratégico – como a Petrobrás ou poços do pré-sal – há a vantagem de se lidar com a diferença cambial para maximizar lucros. Vendas em moeda sobrevalorizada (real) no mercado doméstico geram maior quantidade de dólares quando convertidos para remessa de lucros.

Limite nos negócios

Há, entretanto, um limite nessa modalidade de negócios. Com a contração do mercado interno por força da constante alta dos juros e consequente encarecimento do crédito, tais negócios tendem a ficar desinteressantes. O anúncio da saída do Brasil da rede Fnac é uma pequena expressão de que a estagnação da demanda provoca hesitações e até mesmo desistências de investidores externos.

Resta a compra de ativos por parte de estrangeiros com alta liquidez como reserva de valor, para quando a economia retomar seu crescimento. Essa variável é difícil de se medir em um mundo com economias de baixo crescimento.

O governo Temer não tem projeto consistente mesmo do ponto de vista ultraliberal. Mesmo que leve os salários a zero, a redução de custos não compensará os danos causados pela sobrevalorização do real. Os caminhos escolhidos são excludentes entre si. 

Não se trata de alívio. É que enquanto prossegue nessa senda suicida, cadeias produtivas, postos de trabalhos e empresas vão sendo arrebentadas a troco de uma miragem num mundo em crise.

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da UFABC

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